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O Claridoso Baltasar Lopes

Brito-Semedo, 2 Fev 15

 

BaltasarLopes.JPG

 

 

Baltasar Lopes da Silva, enquanto intelectual e fundador da moderna literatura cabo-verdiana, deu um contributo extraordinário para uma melhor compreensão das suas ilhas e suas gentes. Ele afirmou certa vez que, por força das circunstâncias, “somos, vá lá o termo, policlínicos”. Na verdade, raras vezes tantos dotes se conjugaram num homem só, capacitando-o para produzir uma obra de mérito tão diversificada. Por outro lado, as próprias circunstâncias e a sua necessidade de intervenção social forçaram Baltasar Lopes a desdobrar-se em pedagogo, advogado, filólogo e escritor – cada aspecto enriquecendo o outro.

 

O Mestre Baltasar Lopes (Ti Báltas, como era conhecido entre os seus discípulos) foi professor de várias gerações de intelectuais, incluindo muitos dos dirigentes políticos da pós-independência. “Inexplicavelmente, só Amílcar Cabral não chegou a ser meu aluno”, confidenciava numa das nossas “peregrinações” sem tempo, no espaço que foi a sua casa. O seu magistério só veio a terminar oficialmente em 1972, altura em que se jubilou, depois de, no Liceu Gil Eanes, ter exercido as funções de Reitor, ao longo de vários anos. O seu apego ao chão crioulo levou-o, em 1945, a declinar o convite para professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

Baltasar Lopes desempenhou cabalmente a função de advogado, a maior parte das vezes na defesa de pessoas de origem social mais desfavorecida. Alguns dos seus contos, nomeadamente, “Dona Mana” e “A Caderneta”, reflectem nitidamente a interação e a identificação do autor com o narrador (advogado).

 

No conto “Dona Mana”, o autor traz para o nível da ficção acontecimentos da sua atividade profissional, ou seja, das injustiças que o levam a constituir-se defensor dos favorecidos.

 

“É nessa vivência de foro que ele vai buscar o tema para esta narrativa, cuja acção decorre na sala de um tribunal onde se julga um véu acusado pela ex-companheira de maltratar uma criança (filha dos dois). E eis que pela boca de uma das testemunhas é contada a triste história de Dona Mana (a queixosa)”.[1]

 

No conto “A Caderneta”, o “senhor doutor” é abordado na rua para defender uma causa, ficando-se a saber, através da interpelação da protagonista, do grande número de casos que tinha em mãos.

 

“A narrativa, entre outras coisas, é uma referência em termos dramáticos, à época em que a prostituição conhecia o estatuto da “legalidade”. A personagem, uma espécie de meretriz ocasional e envergonhada, é apanhada na rede montada pelo legislador, a qual obriga as prostitutas ao uso da caderneta para fiscalização médica”[2]

 

Por outro lado, em dois artigos intitulados “Uma experiência românica nos trópicos”, publicados nos números 4 e 5 da Claridade, Baltasar Lopes estuda o crioulo, defendendo o seu incremento de acordo com as leis linguísticas naturais e no contexto do isolamento das ilhas. Mais tarde, em 1957, desenvolve esse estudo e publica O Dialecto Crioulo de Cabo Verde[3]. Rodrigo de Sá Nogueira, outro cabo-verdiano ilustre, explica no prólogo a importância da obra: “a escalpelização dos vocábulos de uma língua […] é uma fonte inesgotável de informações do maior alcance científico para o conhecimento da psicologia, da história, da etnografia, de vários fenómenos sociais básicos, do povo que fala essa língua”.[4]

 

Pioneiro no estudo daquela língua neo-latina criada nos trópicos, Baltasar Lopes considera ser o crioulo “como que a respiração do povo”. Apodou de “crime de genocídio” as tentativas do governo colonial de “erradicar” a língua materna do arquipélago.

 

As demais vertentes – professor, advogado, filólogo – parecem convergir na de escritor, enriquecendo-a sobremaneira. Só o facto de Baltasar Lopes estar na origem da grande viragem operada na literatura cabo-verdiana, através da ruptura com todos os modelos temáticos e formais vigentes, conducente a uma renovação profunda, só esse facto, dizíamos, justificaria a sua presença na História da Literatura Cabo-verdiana e Africana de Língua Portuguesa. Mas a obra desse autor não fica por aqui. O ficcionista, o poeta, o antologista, revelam-se a cada momento.

 

Baltasar Lopes publicou Chiquinho (1947) que, segundo Gerald Moser e Manuel Ferreira (1983:126), é:

 

“A primeira obra de ficção, a todos os títulos importante, como expressão autêntica do homem caboverdiano e ainda pela novidade da sua linguagem que se organiza, em grande parte, na combinação de estruturas do crioulo com as da língua portuguesa. Pioneiro, sem dúvida, de uma escrita que o brasileiro Guimarães Rosa ou o angolano Luandino Vieira mais tarde levaram levariam às últimas consequências”.

 

Em 1988, os seus contos, até então dispersos, são reunidos no livro Os Trabalhos e os Dias. Ainda sob o pseudónimo de Osvaldo Alcântara, Baltasar Lopes dá-nos uma visão poética que não se limita a aflorar a superfície da realidade cabo-verdiana. Antes, procura penetrar para além do nível material, sentir o pulsar da reacção humana e descobrir o modo como a razão e o coração reagem no íntimo à opressão dos factores socioeconómicos. Ele distingue-se, assim, de outros poetas seus contemporâneos. Em 1986, Osvaldo Alcântara vê os seus poemas dispersos reunidos em livro com o sugestivo titulo Cântico da Manhã Futura.

 

Ao longo da sua vida, Baltasar Osvaldo Alcântara Lopes da Silva foi distinguido cinco vezes por Portugal:

 

  1. com a comenda da “Ordem do Infante D. Henrique”, em 1962, que lhe foi entregue Pelo Ministro do Ultramar Adriano Moreira, em nome do Estado Português;
  2. com a “Comenda de Instrução Pública”, em 1972, atribuída pelo Presidente da República Portuguesa, Américo Thomaz, que lhe foi entregue pelo Governador Lopes dos Santos durante o acto público da sua última aula;
  3. com o título de Doutor Honoris Causa, em 1981, pela Universidade de Lisboa, para cuja Faculdade de Letras havia sido convidado em meados da década de quarenta como professor, convite que declinou;
  4. com a “Medalha de Cavaleiro da Ordem do Infante”, em 1988, entregue pelo Presidente Mário Soares em sua residência;
  5. com o “Grande Colar” pela Academia de Ciências de Lisboa, em 198…?, devido ao seu trabalho na área da linguística.

 

Em Cabo Verde foi agraciado postumamente em 1994 pelo Presidente António Marcarenhas com a "Medalha de 1.ª Classe da Ordem do Dragoeiro", a mais alta distinção atribuída pelo Estado cabo-verdiano a personalidades ligadas à cultura.

 

__________

[1] Arménio Vieira, in “Prefácio” de Os Trabalhos e os Dias, de Baltasar Lopes, Praia, Instituto Caboverdiano do Livro, 1988, pág. 9.

[2] Arménio Vieira, Ibid., pág. 8.

[3] Baltasar Lopes, O Dialecto de Cabo Verde, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984. Fac-simile da 1.ª edição de 1957, pág. 12.

[4] Baltasar Lopes, Ibid., pág. 12.

 

 

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3 comentários

De Adriano Miranda Lima a 03.02.2015 às 23:00

Nunca é demais evocar Baltasar Lopes. Pertence ao nosso imaginário e será sempre objecto de estudo sob os mais diferentes aspectos, tantos como os que compõem a sua multifacetada envergadura de intelectual. Sim, ele era um "policlínico", mas daqueles que andam sempre de auscultador na mão e de receita na ponta da língua, daqueles a quem o doente confia o corpo e a alma sem pensar duas vezes.

De José F Lopes a 04.02.2015 às 08:14

Adriano o problema é que policlínicos deste gabarito só os há uma vez por s´culo

De Valdemar Pereira a 04.02.2015 às 17:05

Pois é!
Por isso é que houve que o quisesse destronar porque um século não são 40 ou 50 anos.
Pobre da terra que destroi os seus valores !!!

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