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O Claridoso Manuel Lopes

Brito-Semedo, 6 Fev 15

 

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Cabe a Manuel dos Santos Lopes (São Nicolau, 1907 – 2005) a distinção de ter publicado a primeira obra de ficção cabo-verdiana, Paul, uma breve crónica descritiva, saída em 1932. Juntamente com Baltasar Lopes, fundou a moderna ficção cabo-verdiana, constituindo-se um marco importante na literatura africana de língua portuguesa. A bibliografia de Manuel Lopes é vasta e inclui contos, romances, ensaios e poesia. É um dos escritores cabo-verdianos com mais livros publicados.

 

Os dois romances de Manuel Lopes, Chuva Braba (1956) e Flagelados do Vento Leste (1959) “são hinos telúricos entoando uma mensagem de resignação cuja tensão dramática advém do dilema partir/ficar”.

 

Em Chuva Braba, Mané Quim, o protagonista adolescente, acorda ao som da chuva e resolve não partir para o Brasil com o padrinho. Por outro lado, José da Cruz, o lavrador e rendeiro de Flagelados do Vento Leste, depois de ter resistido estoicamente na terra ressequida, deixa tudo e toma o rumo da vida. O velho proprietário Nhô Lourencinho intercepta José da Cruz na estrada e repreende-o por ter perdido a sua dignidade ao abandonar a terra sagrada.

 

Os dois romances são complementares, na medida em que tratam dos efeitos de duas indomáveis e volúveis forças da natureza tão conhecidas dos patrícios, a chuva e a lestada (ou o harmatão). É interessante notar que Chuva Braba termina num cântico à fecundidade da terra sagrada e Flagelados do Vento Leste, em cânticos macabros e fúnebres a uma terra amaldiçoada.

 

Para além dos dois romances, Manuel Lopes tem ainda publicado Galo Cantou na Baía (1959), obra constituída por uma novela e quatro contos, cujos temas são o mar, o porto e a cidade – principalmente a cidade do Mindelo. As personagens são, portanto, marinheiros, guardas de alfândega, contrabandistas, que se exprimem num português cheio de crioulismos.

 

Como ensaísta Manuel Lopes publicou Os Meios Pequenos e a Cultura (1951), “Reflexões sobre a Literatura Cabo-verdiana ou a Literatura nos Meios Pequenos” (1959), uma palestra proferida nos Colóquios Cabo-verdianos, e Considerações Sobre as Personagens de Ficção e Seus Modelos (1973).

 

A nível da poesia, Manuel Lopes publicou Poemas de Quem Ficou (1949), Crioulo e Outros Poemas (1964) e Falucho Ancorado (1997).

 

À semelhança de Jorge Barbosa, Manuel Lopes vê o mar como uma barreira desafiadora. Diferentemente daquele, este não é simplesmente atraído pelo chamamento do mar; ele é violentamente perturbado por ele. A sua crise emocional face ao incessante apelo fê-lo ouvir “vozes” misteriosas chamando-o da linha do mar.

 

Vozes

 

Na noite que flutua,

sem estrelas e sem Lua

oiço como que uma voz do além

(como que uma voz dos mortos)

Que vem

No sei de que lugar…

Pergunto ao homem solitário dos portos:

– ‘Que grito longo e profundo

este que oiço vir a noite escura

– como a voz de uma mãe que procura, procura –

vagabundos dos portos?’

– ‘É a ressaca – a voz do mar’.

 

Enquanto Jorge Barbosa “foge” para o Brasil nas suas fantasias poetizadas, Manuel Lopes intelectualiza a idéia de um mundo fantasiado por meio de racionalizações que evitaram a questão da necessidade de partir:

 

Poema de Quem Ficou

 

Eu não te quero mal

por este orgulho que tu trazes,

por este ar de triunfo iluminado

com que volta…

…………………….

Que teu irmão que ficou

sonhou coisas maiores ainda,

mais belas que aquelas que conheceste…

 

Em 1991 Manuel Lopes foi objecto de tese de doutoramento, na Universidade de Rennes, França.

 

 

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2 comentários

De Valdemar Pereira a 06.02.2015 às 19:22

Orgulhava-me de ter algumas obras magistrais do escritor, antigo funcionàrio da Western.  Querendo fazer a sua promoção junto de uma conterrânea re-encontrada, dei-lhe por empréstimo alguns volumes que nunca mais vi porque foram parar num vulgar caixote de lixo. Quem foi o culpado? O diabo do Alzheimer que entretanto se meteu de permeio.

De Adriano Miranda Lima a 06.02.2015 às 22:37


A respeito deste claridoso , o autor deste blogue, o amigo Brito Semedo, produziu esta excelente síntese biográfica sobre o escritor e a temática literária que ele e os seus pares  trouxeram à luz da existência cabo-verdiana.
Penso que sinaliza, e bem, ou pelo menos o entreabre, um possível ponto de divergência entre Manuel Lopes e Jorge Barbosa no tocante à
tensão dilemática de partir/ficar. Enquanto Jorge Barbosa se embala no sonho de uma felicidade longínqua, deixando o espírito vogar numa  quase entrega
irremissível, Manuel Lopes parece preferir, apesar de tudo, o confronto com o
infortúnio até onde as forças anímicas o consintam. A seca e a lestada , se
acalmadas na sua perdulária inclemência, tão depressa é adiado o sonho de
partida. Mas, como diz o Brito Semedo, a porfia contra as forças adversas do
destino também causam perturbações emocionais (“as vozes misteriosas vindas do
mar”), logrando assim a derrocada do ser por via de abalos interiores
incontroláveis.  A ser assim, teremos o homem cabo-verdiano num eterno sofrimento (o mito de Sísifo) por culpa da terra madrasta que o aprisiona frente ao mar obsidiante, mas que, por outro lado, pode colher no fogo da sua angústia a força redentora capaz de o imunizar contra todos os males do mundo. É o que me permite induzir  a heróica resiliência do nosso povo assazmente demonstrada ao longo de séculos.

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