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O Falucho das Estórias

Brito-Semedo, 23 Nov 17

 

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“E ele vai baloiçando como um mastro

Aos seus ombros apoiam-se as esquinas”

– Sophia de Mello Breyner 

 

 

À memória do Mestre Apolinário e do Falucho “Belmira”

 

 

Dobrada a “Esquina do Tempo”, o cronista decidiu ser marinheiro de “Falucho”, criar um novo projecto de escrita e viajar pelos mares das ilhas à procura de estórias e de fixar hábitos e costumes das suas gentes. É que os faluchos, que faziam o trafego entre as ilhas, guardam no seu bojo lendas e estórias que valem a pena recordar e partilhar. É disso e muito mais que se irá falar neste novo espaço.

 

 

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Soprando de barlavento, o vento é de feição… e o falucho, com velas enfunadas e rumo traçado, lá vai na sua viagem inaugural.

 

 Serei marinheiro.

Navegarei

nos rumos longínquos

de todos os mares.

 

[…]

 

Nos intervalos curtos de regresso

contar-vos-ei tudo o que eu vi:

 

[…]

 

Mas ninguém acreditará

nas minhas histórias.

 

– Jorge Barbosa, in Caderno de um Ilhéu, 1955

 

 

Morreu, em de Outubro de 2017, o último mestre-carpinteiro naval, construtor de faluchos e botes do estaleiro da Praia da Gambôa. Apolinário Lopes Fortes, melhor, Fefé di Nhanha, faleceu aos 92 anos, na Achada de Santo António (cidade da Praia), zona do Brasil, bairro dos pescadores.

 

Viajo no tempo. Chegam-me de longe ecos da toada da canção da minha infância, “Que linda falua” – Que linda falua/ Que lá vem, lá vem,/ é uma falua/ que vem de Belém/ […] Passará, não passará,/ algum deles ficará,/ se não for a mãe à frente,/ é o filho lá de trás.

 

Que linda falua

 

Nos anos 40 os faluchos [as faluas] e os botes de São Vicente eram construídos ou reparados nos estaleiros das zonas da Ribeira Bote e da Fonte de Inês que, depois, eram puxados ou arrastados sobre troncos. À medida que os homens iam puxando o navio que rolava sobre toros, outros mudavam os troncos para a frente. De modo que havia homens à frente puxando e homens lateralmente segurando as cordas até chegar à Praia de Bote, junto à réplica da Torre de Belém, passando pela Fontinha, cruzando o Largo da Salina até desembocar na praia e serem lançados ao mar.

 

Nos anos 50 era eu muito criança, mas lembro-me da festa que fazíamos cada vez que chovia na ilha. Faltávamos a escola, juntávamo-nos em grupo e íamos, nus ou só com trousses, conforme a idade, brincar na chuva. Corríamos, metíamos os pés nas poças de água atirando-a para os companheiros de brincadeira, mas o que gostávamos, mesmo, era de irmos pôr-nos por debaixo das bicas das empenas das casas e receber a água da chuva no cocuruto da cabeça.

 

Passada a chuva, íamos brincar nas poças de água e na zona alagada da Salina. Fazíamos barquinhos de cana-de-milho, púnhamo-lo uma pena de galinha como mastro ou um pauzinho com uma tirinha de pano a servir de vela, e um pedacinho de arco em formato triangular a fazer de quilha para lhe dar equilíbrio. E lá íamos nós felizes brincar de marinheiro empurrando os nossos barquinhos. Os mais crescidos, um tantinho assim mais que nós, faziam barquinhos de lata e promoviam corridas de barquinhos de cana-de-milho e de lata.

 

Os faluchos e os barcos costeiros já são memórias de uma outra época. Recordo-me do "Carvalho”, do “Nauta” e do “Gavião dos Mares”, cuja relação com Porto Grande (São Vicente) e Porto Novo (Santo Antão) era a mesma que o “Belmira”, o “Aleluia” e o “Cruz de Cristo” com Pedra Badejo (Santiago) e Porto Inglês (Maio), para as gentes de Santiago.

 

Desaparecidos que estão os faluchos das ilhas, seria de se preservar essa construção e essa memória e a praticabilidade da ligação entre as ilhas próximas, inclusivamente para fins turísticos com a reconstituição dessas viagens, agora em melhores condições.

 

Navegação à vista

 

Em Janeiro de 1981 o falucho “Belmira” perdeu-se no trajecto Pedra Badejo – Porto Inglês e foi parar à Guiné-Bissau.

 

Um despacho da Inforpress de 15/01/2015, invocando essa data, explicava que “Belmira”, capitaneado por Tchico Tuda, que fazia a ligação frequente entre a então vila de Pedra Badejo e o Porto Inglês, tinha perdido o rumo por causa de um temporal e do tempo brumoso, tendo passado a ilha do Maio sem dar por ela. Quando amanheceu, “Belmira” estava afastado da costa.

 

O falucho, que tinha seis tripulantes e levava cinco passageiros, incluindo uma criança de 6 anos, esteve à deriva durante 14 dias. Durante esse período sentiram falta de água, mas conseguiram sobreviver porque, entretanto, choveu, tendo eles colocado uma lona por cima do porão para a recolha da água.

 

Samuka, o contramestre, contou que tinham sido surpreendidos por um mau tempo e bruma seca que se fazia sentir no momento mas, caso fosse feita a busca de forma objectiva, poderiam ser resgatados no mesmo dia, pois ainda estavam perto da ilha do Maio.

 

“Quando se passaram mais de cinco dias sem ver terra, os passageiros começaram a desanimar, mas como o capitão já conhecia a rota porque fazia viagens de longo curso, ele encorajava-nos dizendo que iríamos encontrar terra firme, e assim os dias foram passando até que fomos parar à Guiné-Bissau e à ilha do Como, onde encontramos pessoas que nos acolheram conforme puderam”.

 

Da ilha guineense foram levados para a vizinha República do Senegal onde estiveram por dois dias até apanharem o voo de regresso para a ilha do Sal e, no mesmo dia, seguiram para a ilha do Maio, com escala na Cidade da Praia, onde foram recebidos com muita alegria.

 

Urge escrever a história marítima, por vezes trágico-marítima, e a história dos capitães-das-ilhas, dos veleiros e palhabotes e dos intrépidos marinheiros.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

 

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