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"Do Monte Cara", de Germano Almeida

Brito-Semedo, 29 Out 14

 

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Brito-Semedo, apresentador, e Germano Almeida, autor. Foto Carla Eneida Henriques

 

 

Vim da Praia dumitadamente[1], para o alívio da Ana Cordeiro, a apresentadora de plantão dos livros do Germano Almeida, por pirraça deste e para pagar uma dívida. Ah, é que nunca fico a dever nada a ninguém, a não ser o amor! Na verdade, o que o Germano Almeida não sabe é que aceitei essa incumbência de bom grado para, assim, garantir um lugar na fotografia quando ele receber o Prémio Camões e poder mostrar às minhas netas que esse escritor ilustre é pessoa amiga do avô.

 

A cidade do Mindelo tem sido, ao longo dos tempos, uma fonte de inspiração para um número grande de escritores e de poetas, pintores e artesãos, trovadores e músicos.

 

“Quase tude dia tita ‘contecê

Uns cosa ‘strónhe li na nôs terra

Tónte mudança tita ‘contecê

Qu’até Monte Cara já gaguejá”

 

in "Cumpade Ciznóne" (Coladeira)

 

MANEL DE NOVAS

 

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Baía do Porto Grande com Monte Cara ao fundo. Foto Carlos Pulú

 

Na verdade, esta é uma cidade com história e de muitas estórias, verdadeiras ou inventadas, não interessa, e tão bem registadas nestes últimos vinte e cinco anos por Germano Almeida em O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (1989), O Meu Poeta (1990), Estórias de Dentro de Casa (1996), A Morte do Meu Poeta (1998), As Memórias de um Espírito (2001), O Mar na Lajinha (2004) e agora este Do Monte Cara Vê-se o Mundo com exímios contadores de estórias como Pepe, César de nhô João Serralheiro, ou César Pepe, o outro eu do autor, o seu o alter ego. É que “sabes, Mindelo continua uma cidade de infindas estórias, dás um pontapé numa pedra e encontras por baixo alguém a querer vender-te a sua estória e que ele acha melhor que todas as outras que já ouviste”, p. 168.

 

O título Do Monte Cara Vê-se o Mundo, evoca a frase lapidar do escritor português Vergílio Ferreira – “Da minha língua vê-se o mar” – e leva-me a rir da grandéza e da basofaria[2] da gente de SonCente. Como me explicou a Dona Lourdes Miranda, professora da velha guarda, natural de Santo Antão, mulher dos seus 97 anos: “grandéza é tudo aquilo que pode aumentar ou diminuir segundo o atrevimento ou a salientéza[3] de cada qual”. E, convenhamos, gente de SonCent tem grandéza com a sua terra!

 

A partir da noção e do conceito “mundo”, poder-se-á ver nesse título um duplo sentido com duas possíveis leituras: “Do Monte Cara vê-se o Mundo”, de um olhar amplo, virado para o exterior, numa perspectiva de fotografia panorâmica; e “O Mundo do entre portas que se vê do Monte Cara”, de um olhar afunilado, virado para o interior, numa perspectiva de fotografia em zoom.

 

Quem qui oiá Sãocente di longe

Câ tâ imaginá

Qui tromento que nô tâ passá

 

in Sãocente di longe (Morna)

 

LELA DE MANINHA

 

Na verdade, o título Do Monte Cara Vê-se o Mundo é uma grande ironia pelo facto de que, enquanto ilhéus, olhamos para o nosso umbigo como o centro do mundo e achámos que “munde ê um didal na nha dedona”, na expressão poética do autor de A Cabeça Calva de Deus.

 

O meu amigo Germano Almeida não sabe o trabalho que nos tem estado a dar, à Ana Cordeiro e a mim, ao querermos inventar um sinal, na verdade, um ponto que indique a ironia, à semelhança do “ponto de espantação” ou ponto de admiração. É que, sendo professores, damos conta que muitos dos nossos estudantes não conseguem captar a fina ironia da sua escrita.

 

Sendo algo que afirma o contrário daquilo que se quer dizer, aquilo que se pensa, a ironia é a arte de gozar de alguém, de denunciar, de criticar ou de censurar algo ou alguma coisa. Para sua identificação, é preciso ser-se activo durante a leitura para se reflectir sobre o tema e escolher uma determinada posição. E isso exige alguma prática de leitura que muitos não têm.

 

O sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, conhecido pela sua contribuição fundadora para a teoria do “sistema-mundo”, no seu livro O Sistema Mundial Moderno (1974) desenvolve a ideia de uma “economia-mundo” com base numa estrutura histórica da economia mundial capitalista. Nesse seu trabalho, Wallerstein explica o conceito de “periferia duma economia-mundo”.

 

Trago isto à colação para dizer que, neste seu romance, Germano Almeida faz a análise de uma micro-sociedade periférica, que é a cidade da ilha do Monte Cara, uma unidade básica de convivência, e eleva-a a uma totalidade macro, a uma “sociedade-mundo”. Na verdade, o "mundo do entre portas” de SonCent.

 

O livro estrutura-se na lógica de um olhar fílmico ou fotográfico que impõe um olhar analítico, um olhar seleccionador, um olhar julgador e não um olhar distraído. Ele é também um olhar caminhante, na medida em que a sua narrativa é feita com avanços e recuos temporais, baralhados pela emoção e pela memória em que o mais importante é a estória e não a ordem em que ela é contada.

 

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Avenida Marginal. Foto Fonseca Soares

 

O espaço geográfico é o da cidade-ilha do Monte Cara, “meio Morada meio fralda”, uma espécie de fronteira entre as duas, a zona onde nasceu e cresceu Pepe, a personagem geradora de todas essas estórias.

 

Esta forma de narrar caminhando permite às personagens atribuir uma ordem a eventos dispersos e criar uma continuidade entre o passado e o presente e ou entre o presente, o imaginado e o passado.

 

“Desde há muito que Pepe é meu companheiro matinal de passeio pela marginal. Encontramo-nos na Matiota e começamos a descer Moave abaixo, entrada do cais acostável internacional, a seguir chegamos ao cais de cabotagem, um bom bocado mais abaixo o antigo e agora renovado cais de alfândega que serve a marina”, p. 169.

 

As conversas destes dois homens são as estórias dos amores e dos desamores das personagens deste Do Monte Cara Vê-se o Mundo. “Pepe conta-me esses passados enquanto quase pachorrentamente caminhamos Lajinha-Enacol”, p. 41.

 

Como diz Pepe, “A vantagem ou desvantagem desta terra é conhecer-nos todos uns aos outros […] sabermos da vida de cada um quase em pormenor”, p. 95.

 

E porque “as pessoas de S. Vicente são no geral gente de uma paz bem-humorada, dados à brincadeira, aos dichotes, sempre de gargalhada fácil, preferindo levar todos os assuntos para o campo da paródia”, p. 109, essas estórias são divertidas e contadas de forma risível porque burlescas. Dei-me conta muitas vezes de, sozinho, mesmo em espaço público, estar a ler e dar sonoras gargalhadas.

 

Recordo, por exemplo, a estória de Pepe que achava que a sua “energia d’ homem” tinha ficado afundada na baía do Porto Grande derivado a uma pancada de um remo que o tinha atingido no meio da perna, justo no seu “corpo d’ homem”, e lhe platchou[4] os ovos ficando sem serventia senão para fazer xixi, p. 47. “A princípio Pepe julgava que o remo o tinha deixado sem serventia d’ homem. Depois tinha constatado que afinal não, ainda podia apanhar praia, porém fazer filho certamente que não […]. Porém, ao ouvir que ia ter um filho da mulher que ele amava […] exultou-se”, p. 388.

 

Outra estória burlesca é a do faniquito do Sr. Pedro, pai do Pedrinho Trampinha e da D. Aurora, que “tinha morrido ali sentado, sem se mexer, uma estátua humana com uma chávena de café com leite a meio caminho entre a mesa e a boca e sem despejar uma única gota quer na mesa quer na sua roupa, até na hora da morte ele tinha sido cuidadoso com a sua obsessão pelo asseio”, p. 221, e toda a peripécia para, na posição de deitado, fazer-lhe baixar o braço com a mão esticada.

 

E que dizer da dramática aventura de Norberto arrastado por uma onda gigante e de como se salvou agarrado à grade de batatas vazia, p. 242, ou do susto dado à D. Aurora? “Tome, pois, muito cuidado, a sua cara está um bocado inflamada, como suponho não será do uso da bebida, só deve ter a ver com essa doença [uma embolia nas pernas], eu no seu lugar procurava ser vista com urgência por um cardiologista, está correndo sério risco de um dia cair morta desta coisa abaixo e ficar por cá sozinha e à mercê dos cachorros sem dono”, p. 177.

 

Não posso deixar de me referir à cena e à proposta abrupta de Miguilito à Júlia – ah, a Júlia, a personagem que por si só justifica ler as mais de quatrocentas páginas Do Monte Cara – “quero ir para cama contigo uma última vez. Júlia deu uma gargalhada, Se nunca fomos uma primeira vez, como queres ir uma última? Mas Miguilito não se deu por achado: A última vez que fomos para cama como marido e mulher ainda no Gabão, foi há mais de cem anos, mas lembro-me perfeitamente de ter elogiado aquela tua característica sexual que me encantava e deve encantar qualquer homem, a capacidade que tens de transformar o teu sexo numa ventosa e chupar com ele o instrumento masculino”, p. 346.

 

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Praia de Bote, ZP Art & Nature Photography

 

Uma peculiaridade da escrita de Germano Almeida é o seu tipo de linguagem que oscila entre a ironia e o sarcasmo, com muita malícia à mistura, o que faz com que a leitura seja agradável e estimulante. Uma linguagem sem pudor, de gente grande, de voluntaréza e coisa de non pode ser[5] pelo meio, que um sem-ciénça[6] como eu – como alguém me chamou certa vez numa apresentação de livro – não tem coragem de partilhar com o público. Assim, têm que adquirir o livro para saberem do que estou a falar. Felizmente que a amiga Ana Cordeiro não teve de passar por esse meu constrangimento, não de ler, claro, mas de falar disso em público. E terá sido por isso que ela não está cá nesta apresentação.

 

As personagens Do Monte Cara Vê-se o Mundo não são todas desbocadas e assertivas como a Yara, que é jovem e com um estilo e uma postura de mulher livre, mas mesmo a arrecatada Júlia e os seniores como o Pepe e o Norberto ou a Professora Ângela e a própria D. Aurora, falam da sua vida privada e sexual de forma natural e sem pudor, mesmo sabendo que isso vai ser escrito em livro, ou precisamente por isso.

 

Sendo que são essas estórias que enformam o livro, não pensem, contudo, que é só disso que se trata pois são uma forma disfarçada ou enviesada de falar de outras coisas. Num olhar mais atento apercebemo-nos que, o que é feito é um retrato falado da história do Mindelo, cidade nascida parasita do Porto Grande, e das suas gentes. “É evidente que te falam de Mindelo de hoje em dia exactamente como se sonha a Mindelo do passado, naqueles gloriosos tempos ditos de abundância e fartura geral”, p. 168.

 

Uma característica simpática do estilo de Germano Almeida é um entrecruzar ou a migração de personagens já nossas conhecidas de uma outra obra. No caso concreto, algumas personagens Do Monte Cara Vê-se o Mundo – o Oceano, o Norberto, a professora Ângela – vêm do Mar na Lajinha (p. 246) fazendo daquele quase que um prolongamento, uma extensão e um aprofundamento deste. Eu ousaria dizer até que essas duas obras se complementam como parte I e parte II do tema geral “O Mundo do entre portas que se vê do Monte Cara”.

 

E mais não digo. Boa leitura!

 

  

Mindelo, 21 de Outubro de 2014

 

[1] Propositadamente.

[2] Bazófia.

[3] Petulância.

[4] Esmagou, espremeu, espapaçou.

[5] Sexo.

[6] Incompetente.

 

 

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1 comentário

De Djack a 06.11.2014 às 09:40

Não consigo perceber como é que ninguém comentou um texto destes, sendo escrito por quem é e sobre quem é... Não consigo descortinar estes mistérios internéticos. Se o B-S em vez de o ter colocado aqui tivesse escrito apenas uma linha a dizer: "O político Tal é um sacana" tinha havido 347 comentários daqueles que achavam que não, mas como o texto é sobre um dos livros mais divertidos dos últimos anos escrito por cabo-verdiano sobre São Vicente, nada. Grandes mistérios, grandes mistérios... De qualquer modo, não vou dar o prazer aos "mudos" de fazer o meu comentário ao book. Ele foi feito nos lugares devidos. Quanto ao texto semedense, só posso dizer que atingiu o elevado nível que eu previa e as circunstâncias exigiam.

Um braça do cume do Monte Cara,
Djack

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