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Esta minha intervenção assemelha-se mais a um trabalho de campo em que alinhavei algumas notas despretensiosas com registos, informações e reflexões sobre as práticas relativas ao meu ofício de antropólogo/etnólogo. Diferencia-se, portanto, das actividades executadas dentro de um “laboratório de pesquisa”, mais rígidas e com um suporte teórico selecionado e consistente. A Antropologia dá essa possibilidade e permite, por isso, ser mais flexível, adaptável e inovador.

 

Esclareço que a minha abordagem é na linha da antropologia interpretativa (por vezes classificada de hermenêutica) do antropólogo estadunidense Clifford Geertz (1926 – 2006), segundo o qual as culturas são como como textos literários à espera de interpretação antropológica.

 

ANTROPOLOGIA NA UNI-CV

 

É já prática na Uni-CV que as disciplinas oferecidas no âmbito das Ciências Sociais – Sociologia, Ciência Política e Antropologia – constituam o tripé de formação para um profissional cientista social.

 

Na estrutura do curso, nos dois primeiros anos, o chamado tronco comum, são oferecidas três disciplinas de teoria antropológica – “Teorias antropológicas clássicas”, “Teorias antropológicas contemporâneas” I e II – e uma disciplina ligada à realidade de Cabo Verde – “Formação social cabo-verdiana”.

 

Já nos três percursos – Sociologia, Ciência Política e Antropologia (3.º e 4.º anos) – é ministrada uma matéria comum, “Tópicos Especiais em Estudos Cabo-verdianos”.

 

O percurso Antropologia, que não está a ser oferecido (terá sido ministrado uma única vez), diferentemente de Sociologia e Ciência Política, faz com que a antropologia seja uma área com menor peso e o parente pobre do curso. Prevê-se, nesse percurso, o grosso das matérias da antropologia – “Antropologia Cultural”, “Antropologia do Corpo, Saúde e Sexualidade”, “Introdução à Etnologia da África Subsaariana”, “Antropologia da Política”, “Antropologia Rural”, “Antropologia Económica” e “Antropologia Urbana”, para além das unidades curriculares opcionais, de aprofundamento teórico e instrumental.

 

Nesse âmbito, tenho trabalhado quase que exclusivamente na lecionação, sobretudo com as disciplinas do tronco comum. Tudo isso faz com que a minha prática antropológica seja voltada mais para a sociedade do que para a academia, fazendo de mim um homem essencialmente da cultura. Será isso bom ou mau?!

 

EXPERIÊNCIA DE VIDA / PRÁTICA PROFISSIONAL

 

Do alto dos meus sessenta anos de vida e cerca de quinze como antropólogo/etnólogo, constato que em Cabo Verde a participação de homens de pensamento na vida pública, nos debates públicos, religiosos e de ideias, se tem esfumado. Os membros da academia parecem estar confinados à sua disciplina e ou aos seus afazeres particulares e de costas viradas ao “compromisso” cívico ou moral com a sociedade.

 

Dado ao facto de haver um empobrecimento das ideias como força motora da vida cultural, paralelamente ao seu trabalho de investigação, académico ou criativo, o antropólogo/etnólogo, no meu entender, deve influir no acontecer político e social da sociedade onde está inserido.

 

NOTAS DE TRABALHO DE CAMPO

 

Falo da minha experiência em que o meu tipo de etnologia tem como interesse de estudo e de intervenção "memória" e "identidade", não para me vangloriar, mas para mostrar o que é possível fazer com uma pós-graduação numa área das ciências sociais, num contexto em que as ciências económicas e as ciências e tecnologias são de longe mais valorizadas e as funções políticas muito mais atraentes, sobretudo para gente mais nova.

 

Regressei a Cabo Verde em 2004 e em finais de 2006 publique a minha tese de doutoramento em livro, A Construção da Identidade Nacional – Análise da Imprensa entre 1877 e 1975, que vem sendo utilizado por estudantes das áreas da literatura e da cultura cabo-verdiana, jornalismo e ciências sociais. Na decorrência, organizei um romance inédito do primeiro escritor cabo-verdiano, Guilherme Cunha Dantas (Brava, 1848 – 1888), Memórias dum pobre rapaz. Seguiu-se Pedro Monteiro Cardoso (Fogo, 1883 – 1942), com a recuperação dos seus textos jornalísticos, Textos Jornalísticos e Literários – Parte I, Praia 2008; e o jornal O Manduco (Fogo, 1923-1924), edição fac-similada, Praia, 2016.

 

Em 2009 iniciei o projecto “na esquina do tempo”, que já vai em cinco produtos, tendo havido o seguinte desenvolvimento: do livro para o blogue, do blogue para o livro e do blogue para o jornal. Assim, a publicação dos livros Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá (Crónicas Autobiográficas), Praia, 2009, e Na Esquina do Tempo – Crónicas de Mindelo (Crónicas Memorialistas), Mindelo, 2014; do bloque “Esquina do Tempo”, um magazine cultural a divulgar Cabo Verde desde 2010, que se constitui num verdadeiro repositório da cultura cabo-verdiana, já com 2.000 posts publicados e centenas de milhares de visualizações de página, provenientes de mais de 100 países de todos os continentes. Mais recentemente, o “Esquina do Tempo” passou a ser página cultural do semanário Expresso das Ilhas.

 

Ligado a isso, venho publicando artigos e capítulos de livros em edições académicas nacionais e estrangeiras e participando activa e frequentemente em múltiplas actividades culturais, nomeadamente como apresentador de livros e de discos, e também como comentarista e crítico na rádio, no jornal e na televisão.

 

Tenho igualmente participado como professor convidado em instituições de ensino superior estrangeiras no Brasil, Portugal, Angola e na República Checa.

 

Ultimamente venho reflectindo sobre o ensino superior, o seu desenvolvimento e sobre os caminhos futuros da universidade pública.

 

CONCLUSÃO

 

O meu ofício de antropólogo/etnólogo virado para fora da academia tem-me levado a ser activo e crítico e com alguma mediatização, sobretudo nas áreas da cultura e do ensino superior.

 

 Manuel Brito-Semedo

 

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NB - Este post é o n.º 2.000!

 

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