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Ontem Revi o Orfeu Negro

Brito-Semedo, 26 Ago 15

 

- Jorge Martins, Fotógrafo

 

Muito se tem escrito e falado sobre o destino que terá o edifício do Cinema Eden Park, visto já ser voz corrente que o espaço foi, ou vai ser, vendido.


Tudo o que eu possa aqui dizer, a favor da continuação desse marco indelével da cultura Mindelense e por força, Cabo Verdeana, já foi dito e escrito, por gente bem mais abalizada do que eu e com peso reconhecido em questões de cultura da Nossa Terra.


O motivo deste meu atrevimento, deve-se, a tudo o que já foi afirmado por todos os que, como eu, abriram os olhos para outros mundos através dessas duas salas de espectáculos, Eden Park e Park Mira Mar, que, durante décadas, divertiram e educaram muitos amantes da 7ª arte - o Cinema - mas também do Teatro e da Música, não esquecendo os saudosos “Bailes de Carnaval” que, à época, eram ponto de passagem obrigatória para todos os foliões do Mindelo.


Mas o meu motivo mais forte, prende-se com esta pequena “estória”, para a qual peço que tenham um pouco de paciência e leiam até ao fim.


Embora fosse um dos que tinha a possibilidade de pagar um bilhete para poder assistir a uma das numerosas “fita” que essas saudosas salas apresentavam, nem sempre tal era viável, pois os porteiros eram muito rigorosos com as questões da idade que permitia o acesso a esta ou aquela maravilha da 7ª maravilha.


Esgotadas todas as artimanhas para poder entrar, só me restava uma forma. Encontrar alguém que sem esse tipo de limitação que a idade tem nessas alturas, pudesse calmamente assistir ao espectáculo e, depois, me fizesse um relato tão fiel quanto possível da “fita” tão desejada.


Não podendo recorrer ao meu saudoso Pai que, com reserva garantida para todas as Estreias do Cinema, não perdia patavina do que se passava nessas telas, só me restava uma solução, que era a empregada que trabalhava lá em casa, de seu nome Romana Semedo Cabral.


Mulher vivida, como ela costumava dizer, com 11 filhos paridos em seis partos, dois deles nas Roças de São Tomé.


Ora, a Romana pelava-se por uma boa “fita”, daquelas com Sport, M’nina d’Sport, bons, maus, bandidos ou ingénuos. Simples histórias de amor ou as mais gritantes injustiças sociais, daquelas que a censura da época lá deixava passar, a uma divertida comédia do Charlot ou do Bucha e Estica.

 

Cinema_Eden-Park.jpg

 

Encontrada a salvação, só tinha de arranjar forma de canalizar uns parcos 2$50 (dôs e quinhente), para que ela pudesse adquirir o ingresso para, assim, no dia seguinte eu ter um relato de todas as incidências da “fita”, sem omitir as cenas mais chocantes.


Não deveria também esquecer-me de subtrair ao meu Pai, vítima privilegiada, dois cigarritos, pois a Romana não fazia a coisa por menos. Fumadora do seu Falcão, era também apreciadora de um bom cigarro inglês ou americano, o que só era possível, numa incursão aos bolsos do Titino como ela ternamente tratava o meu Pai, com todos os riscos inerentes a tal aventura - no mínimo um fim de semana sem futebol e/ou sem ir passear na Praça, penas demasiado severas. Mas valia bem correr esses riscos, pois no dia seguinte, durante a tarde, enquanto era suposto eu estar em casa a fazer os trabalhos do Liceu, sentava-me perto dela, enquanto ela passava a roupa a ferro e, qual projector de Super 8, pela boca da Romana, via as cenas desenrolarem-se à minha frente, muitas vezes com um colorido ainda mais pitoresco do que a própria obra, pois ela não se coibia de enfeitar as cenas, com a sua própria forma de as entender.


E sabem, qual o filme que mais vezes vi, através desse cinema privado?

 

Orfeu Negro.jpeg

 - Orfeu Negro - filme brasileiro que anualmente era figura, quase obrigatória, de cartaz em Mindelo - com direito às músicas e a um ror de lágrimas que ela nunca conseguia conter, num final, que me comovia também.

 

Tenho saudades da Romana, que já faleceu, e tenho saudades do Eden Park. Tenho pena se um dia esse espaço desaparecer da minha cidade, Mindelo.


Agradeço o vosso tempo e, desde já, o vosso empenho para salvar Mindelo de ficar mais órfão.

 

Oeiras, 18 de Março de 2010

 

 

 

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1 comentário

De Brito-Semedo a 16.09.2010 às 20:10

A amiga Alice Matos não conseguiu fazer o seu comentário, pelo que o fez no FB , com autorização para ser transferido para aqui.
Oi, Jorginho. Não ouvi a "tua" Romana contar o "Orfeu Negro", nem a vi chorar de emoção, mas li a tua enternecedora narrativa sobre esta contadeira de filmes. Do princípio ao fim. Reli-a, para recordar a minha tb ternurenta contadeira de filmes. Lerás sobre ela, um dia destes. Gosto do que escreves, amigo.

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