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Os 80 anos da 'Claridade'

Brito-Semedo, 10 Out 16

 

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Surgida em Março de 1936 na cidade do Mindelo, a Claridade – revista de artes e letras completou os oitenta anos. É nosso propósito assinalar esse facto, enquanto marco de uma viragem na literatura cabo-verdiana, e homenagear o seu núcleo fundador e dinamizador constituído por Baltasar Lopes (São Nicolau, 1907 – 1989), Jorge Barbosa (Santiago, 1902 – 1971), Manuel Lopes (São Nicolau, 1907 – 2005) e João Lopes (São Nicolau, 1894 – 1979).

 

No aspecto formal, a Claridade significou o rompimento com as formas clássicas quanto à rima, métrica e géneros literários, ao mesmo tempo que foi uma “afronta” ao purismo da língua, devido à convivência do crioulo com o português num hibridismo nunca antes pensado ou ensaiado. Porém, a renovação formal só aparece como consequência e necessidade da adequação da língua a uma nova temática.

 

Embora sem um programa expresso, o movimento literário que surgiu em 1936 com a Claridade, irrompeu com o propósito de “fincar os pés na terra cabo-verdiana”. É evidente a alegoria de corpo inteiro: com a cabeça para pensar a literatura que deveria convir à terra que os pés pisavam.

 

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Legenda - Da esq. para dir.: Jaime de Figueiredo,  António Aurélio Gonçalves, Guilherme Chantre, Manuel Serra, Jorge Barbosa e Baltasar Lopes.

 

“Em contacto com a terra os pés se transformaram em raízes e as raízes se embeberiam no húmus autêntico das nossas ilhas”, como viria a escrever Manuel Lopes. Ou por outra, ir-se-ia tratar os problemas do homem cabo-verdiano: as estiagens, a decadência do Porto Grande, o encerramento da emigração para os Estados Unidos da América, a abertura do contrato para as roças de São Tomé.

 

Para isso, os claridosos vão encontrar na literatura do Realismo Nordestino Brasileiro um modelo a seguir, como afirmaria Baltasar Lopes: “Precisávamos de certezas sistemáticas que só podiam vir como auxílio metodológico e como investigação de outras latitudes”.

 

Convém destacar que o movimento literário cabo-verdiano da Claridade não brotou como água da rocha de Moisés, ou seja, que tenha surgido do nada. Antes dos anos trinta tinha-se desenvolvido em Cabo Verde um ambiente propício a anseios literários.

 

Nos meados do séc. XIX tinha sido iniciada a generalização da instrução e criada a imprensa, a qual veio a conhecer o seu período áureo nos primeiros anos da República Portuguesa.

 

É desse período que remontam nomes de poetas e prosadores que angariaram audiência e prestígio, tais como Guilherme da Cunha Dantas (Brava, 1849 – 1888), Joaquim Augusto Barreto (Brava, 1854-1878), Luiz Medina e Vasconcellos (Praia, 1855 – 1891). Nas primeiras décadas de novecentos há ainda a registar os escritores Luiz Loff de Vasconcellos (Maio, 1861 – 1923), António Manuel da Costa Teixeira (Santo Antão, 1865 – 1919), António Januário Leite (Santo Antão, 1865 – 1930), Eugénio Tavares (Brava, 1867 – 1930), José Lopes da Silva (São Nicolau, 1872 – 1962) e Pedro Monteiro Cardoso (Fogo, 1883 – 1942).

 

Apareceram, igualmente, em Cabo Verde, nos anos vinte, alguns números da Presença – Folha de Arte e Crítica (Coimbra, 1927-1940), que foi a primeira força catalisadora do novo surto literário modernista. Contudo, foi o conhecimento do modernismo brasileiro e do romance nordestino dos anos 30 e 40, face à realidade das ilhas, que dinamizaram o surgimento de uma genuína literatura cabo-verdiana.

 

Em Março de 1936, porém, foi lançado o grito da independência literária de Cabo Verde. A Claridade desfralda a bandeira do regionalismo e, no frontispício do seu 1.º número, apresentou três textos poéticos da tradição oral registados em língua crioula – "lantuna & 2 motivos de 'finaçom' (batuques da ilha de Sant'iago)”.

 

A revista Claridade viveu, melhor, sobreviveu, durante 34 anos, sempre com muita irregularidade e sobressaltos. Os dois primeiros números saíram nos meses de Março e Agosto de 36; o terceiro, em Março de 37; o quarto, em Janeiro de 47; o quinto, em Setembro desse mesmo ano; o sexto, em Julho de 48; o sétimo, em Dezembro de 49; o oitavo, em Maio de 58; o nono, em Dezembro de 1960.

 

Em 1986, o Instituto Caboverdiano do Livro (ICL), ao tomar a iniciativa de comemorar o cinquentenário do aparecimento da revista Claridade, reeditou os seus nove números, em edição fac-similada organizada pela ALAC – África, Literatura, Arte e Cultura, do escritor Manuel Ferreira, uma obra fundamental e de consulta, que se encontra esgotada há muito.

 

Ainda por essa ocasião, o ICL patrocinou uma publicação comemorativa, um número extra-série da revista, organizada por Arnaldo França (Praia, 1925 – 2015), mas que só saiu em 1990 e encontra-se igualmente esgotada.

 

Depois da experiência inédita entre nós e bem-sucedida de distribuir com o jornal o romance Chiquinho, o “Expresso das Ilhas” assinala os 80 anos da revista Claridade disponibilizando aos homens da cultura e às novas gerações os nove números dessa revista em edição fac-similada, nessa mesma modalidade.

 

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Fonte:

  • Claridade – revista de artes e letras, Praia, ICL/ALAC, 1986.
  • Publicação Comemorativa do Cinquentenário de Claridade – Revista de Arte e Letras, Praia, ICL/ALAC, 1990.

 

 Manuel Brito-Smedo

 

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