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Os Fundadores da Literatura de Raiz CV

Brito-Semedo, 25 Jan 15

 

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Não é que professe o culto dos antepassados e, com estes escritos, queira depositar flores aos escritores que viveram antes de 1930, ou seja, antes do movimento modernista da Claridade. A minha intenção é compartilhar certos nomes indispensáveis para uma verdadeira compreensão e correcta avaliação das origens e caminhos da literatura que se fez em Cabo Verde a partir dos meados do século dezanove, pelos estudantes do Seminário de São Nicolau, cuja poesia e prosa se publicaram no Boletim Oficial e nos Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro (Lisboa, 1851-1932) e Almanach Luso-Africano (São Nicolau, 1895 e 1899).

 

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Se é bem verdade que, de uma maneira geral, aqueles poetas e prosadores não deixaram transparecer na sua literatura o real social cabo-verdiano e continuaram a usar formas clássicas rígidas, é igualmente verdade que tiveram o mérito de criar as condições necessárias para o surgimento de uma verdadeira literatura cabo-verdiana, quanto mais não seja criando e mantendo uma certa tradição e prática literárias.

 

Diz-se que a literatura cabo-verdiana não surgiu como a água da rocha de Moisés, isto é, do nada. Existe, de facto, um período anterior a 1936, infelizmente pouco conhecido porque pouco estudado ou votado ao esquecimento.

 

Ainda que correndo o risco de omitir algum nome, enumero os “pais” dos fundadores da literatura moderna cabo-verdiana: Antónia Gertrudes Pusich (São Nicolau, 1805 – 1883); Guilherme da Cunha Dantas (Brava, 1848 – 1888); Maria Luísa de Sena Barcelos, a “Africana” (Brava, ? – 1893) Joaquim Maria Augusto Barreto (Santiago, 1854 – 1878); Luís Medina de Vasconcelos (Praia, 1855-1891); João Augusto Martins (Sal, 1855 – 1915); Gertrudes Ferreira Lima (Santo Antão, ? – 1915); José Rodrigues Aleixo (Brava, ? – ? ); Luís Loff de Vasconcelos (Brava, 1861 – 1923), apenas para se referir aos anteriores a António Januário Leite (Santo Antão, 1865 – 1930); Eugénio Tavares (Brava, 1867 – 1930); José Lopes (São Nicolau, 1872 – 1962) e Pedro Cardoso (Fogo, 1883 – 1942).

 

Perguntado a Baltasar Lopes, por ocasião do cinquentenário da Claridade, se haveria outra razão, pessoal ou objectiva, que teria influenciado na criação da revista, para além da situação de miséria que se vivia em Cabo Verde, ele respondeu: “Não vejo… a não ser o peso, o peso relativo de certa tradição literária em Cabo Verde[1]”.

 

Para uma melhor compreensão do meio cultural dos homens anteriores aos da “geração da Claridade”, conforme o escritor cabo-verdiano Gabriel Mariano[2], fundaram-se, só na vila da Praia, de 1853 e 1892, treze associações recreativas e culturais, dentre estas o Grémio Promotor, a Sociedade Dramática Associação Igualdade, a Sociedade Gabinete de Leitura e a Associação Literária Grémio Cabo-verdiano.

 

No que toca às outras ilhas, havia um Clube Fraternidade, no Fogo, uma Sociedade Recreativa Fraternidade e uma Filarmónica de Artistas Mindelenses, em São Vicente, uma sociedade denominada Ilustração Africana, no Sal, e uma Sociedade Fraternidade, em São Nicolau. Para além disso, pelo menos a partir de 1860, já se estudavam em certas escolas cabo-verdianas o latim, o francês, o inglês, a filosofia racional e rudimentos de náutica.

 

Os estudos no Seminário-Liceu, após a reorganização de 1892, abrangiam os cursos do eclesiástico e do preparatório, tendo este uma fase complementar que compreendia dezasseis cadeiras, distribuídas por seis anos, durante as quais português, francês, inglês, latim, música vocal e instrumental. Por outro lado, era uso em algumas ilhas reuniões familiares em que se recitavam poemas de românticos portugueses e brasileiros, chegando-se até a musicar versos de Casimiro de Abreu.

 

Pelo que ficou dito, é de se perfilhar uma concepção unicista da literatura cabo-verdiana, entendendo que os poetas e os prosadores anteriores ao chamado movimento da Claridade se podem considerar como fazendo parte da mesma literatura.

 

______________

[1] Júlio Vera-Cruz Martins, “Baltasar Lopes: A Vida é um Complexo de Perguntas e Respostas”, in Tribuna, Órgão de Informação do Sector Urbano da Praia do PAICV, n.º 19, Ano II, Praia, Janeiro de 1986, pp. 6-7.

[2] Gabriel Mariano, Diário Popular de Lisboa, n.º 332, 23 de Maio de 1963.

 

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5 comentários

De Djack a 25.01.2015 às 10:14

Tenho, há cerca de um ano, os dois livrinhos. Confesso que são um luxo (e uma delícia para bibliófilos) que deveria estar em casa de cada cabo-verdiano. Esperemos agora pela segunda edição do book brito-semêdico que fala deles.

Braça à leitor,
Djac

De Djack a 25.01.2015 às 10:21

"Jack" em inglês, "Djack" no nosso crioulo, mas nunca o estapafúrdio "Djac" que saiu assim por gralha.

Braça Djéckica,
Djack

De Valdemar Pereira a 26.01.2015 às 10:30

Vamos esperar com ansiedade. O facto de estar longe não impede de partilhar as riquezas da nossa terra. Pelo contrario; o desejo é maior.
Braças e mantenhas

De Anónimo a 31.01.2015 às 17:02

Acrescentaria pelo menos mais três nomes, embora haja outros, à lista dos autores oitocentistas:
João Augusto Martins, Gertrudes Ferreira Lima e José Rodrigues Aleixo.

De resto, atrevo-me ainda a retirar desta geração o grau de parentesco mais ou menos distante, antes considerando-os os fundadores da literatura de raiz cabo-verdiana, muito pela posição verdadeiramente revolucionária que alguns destes autores tomaram na sua forma de ver a caboverdianidade em total divórcio com a potência colonial.

Abraços.

De Brito-Semedo a 31.01.2015 às 17:28

Caro Amigo(a), Obrigado por se ter encostado no Esquina e pela achega, uma mais valia para o  meu trabalho. Terei isso em conta, começando por acrescentar esses escritores no post. Braça e bom fim-de-semana.

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