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Legenda (esq. para dir.): Senhora de Osvaldo Custódio, o Poeta homenageado, Presidente da República, Presidente da Academia Cabo-verdiana de Letras e Professor Brito-Semedo

 

 

Coube-me a grande honra, que foi simultaneamente um enorme prazer, proferir o elogio do homenageado, o Poeta Oswaldo Osório, considerado um “caboverdiamadamente construtor da palavra”.

 

(Dis)corri sobre os nomes do homenageado – o atribuído e de registo civil e o pseudónimo poético adoptado, que acabou por se sobrepor ao nome verdadeiro – na relação com a sua obra literária. Assim, (i) Osvaldo Alcântara Custódio, Fadado para ser Poeta; (ii) Oswaldo Osório, Sailor em mares de papel; (iii) Oswaldo Osório, Poeta diferente entre os pares; (iv) Oswaldo Osório, Poeta da luz interior.

 

1. Osvaldo Alcântara, Fadado para ser Poeta

 

Mindelo, Nome atribuído e registado a 25 de Novembro de 1937.

 

Porque gostava da poesia de Osvaldo Alcântara, o pai, Joaquim Custódio, aluno de Baltasar Lopes (São Nicolau, 1907 – 1989), deu-lhe esse nome. O destino viria a pregar-lhe a ele, ao seu professor e ao filho uma grande surpresa. Longe estava o pai de saber que este viria a ser poeta e que lhe criara dessa sorte um problema, porque havendo já um poeta com tal nome, este seria levado a usar um pseudónimo.

 

Oswaldo Osório.jpg

 

Assim, o verdadeiro Osvaldo Alcântara, aquele que o é no registo civil, torna-se, para a poesia, a partir da sua revelação na página literária ‘Seló’, em Maio de 1962, Oswaldo Osório, sendo o nome adoptado em homenagem a Oswald de Andrade (São Paulo, 1890 – 1954), escritor, ensaísta e dramaturgo e um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro, e Osório de Oliveira (Açores, 1900 – 1964), ficcionista, poeta e crítico literário, que se tornou, desde os anos trinta, um dos maiores divulgadores da literatura cabo-verdiana e defensor da aproximação literária entre Portugal e o Brasil. E Baltasar Lopes, aquele que o é na poesia, e só na poesia, Osvaldo Alcântara. O curioso é que escolheu tal pseudónimo apenas porque eram poucos os que colaboravam na revista Claridade e, para dar a impressão de haver mais um colaborador, passou a assinar os seus versos dessa maneira.

 

1. Oswaldo Osório, Sailor em mares de papel

 

Mindelo, Pseudónimo poético adoptado a 25 de Maio de 1962.

 

Nessa data, na cidade do Mindelo, um grupo de jovens estudantes integrado por Arménio Vieira, Jorge Miranda Alfama, Margarida Mascarenhas, Mário Fonseca, Oswaldo Osório e Rolando Vera-Cruz Martins, procurando manter o testemunho e a chama dos homens da Claridade, edita, no Notícias de Cabo Verde (S. Vicente, Março.1931-Agosto.1962), a folha literária ‘Seló – Página dos Novíssimos’ (25.Maio e 28.Agosto), sob o apadrinhamento do Dr. Manuel/Manecas Duarte (Praia, 1929 – 1982).

 

Conforme Oswaldo Osório, o nome da página foi imaginado por Jorge Miranda Alfama que, em férias na Brava, pela primeira vez ouvira o grito que anuncia a chegada de navio, ‘Seló! Seló!’ A palavra vem do inglês “Sail off”, significando “navio à vista, velas à vista”.

 

‘Seló’ representou para a época uma importante contribuição dos jovens que na altura tinham 20 a 24 anos para ultrapassar o marasmo que se vivia tanto em S. Vicente como na Praia.

Honra-nos saber que, mais de 50 anos depois, a geração da ‘Seló´, ou os “Sailors em mares de papel”, como alguém apropriadamente os classificou, se afirmou no panorama das letras cabo-verdianas, vindo um dos seus elementos, Arménio Vieira, a ser distinguido com o Prémio Camões 2009.

 

3. Oswaldo Osório, Poeta diferente entre seus pares

 

Praia, Percurso iniciado em 1975.

 

Poeta com várias obras publicadas e de sensibilidade particular, Oswaldo Osório editou: Caboverdiamadamente construção meu amor (1975), O Cântico do Habitante Precedido de duas Gestas (1977), na verdade, o primeiro livro a ser escrito, Clar(a)idade Assombrada (1977), Cantigas de Trabalho, Tradições orais de Cabo Verde (1980), Emergência da Poesia em Amílcar Cabral – 30 poemas (1988), Contos Os Loucos Poemas de Amor e Outras Estações Inacabadas (1997), Nimores e Clara & Amores de rua (2003).

 

É o próprio Poeta quem explica a sua motivação e caracteriza a sua escrita: “Escrevo para fugir à ditadura do tempo e tentar marcar a minha época cultural com a marca da minha diferença entre os meus iguais” (2007).

 

4. Oswaldo Osório, Poeta da luz interior

 

Praia, Poeta da luz interior, desde Março de 2004.

 

Osvaldo Alcântara explica que sempre conviveu com a cegueira, já que é um problema de família. Seu pai, sua mãe, tios, primos, todos conheceram este problema.

 

No seu caso pessoal, deu conta desta situação nos anos 60. Fez tratamentos, mas de repente a perda de visão sofreu uma evolução pela negativa. Foi a Portugal em 1998, mas tivesse ido um pouco mais cedo, poderia ainda ter sido operado. Em Março de 2004 ficou completamente cego.

 

Quando se poderia pensar que Oswaldo Osório iria deixar de escrever e ou de publicar, eis que o Poeta dá à estampa, em 2007, um novo livro de poesia, A Sexagésima Sétima Curvatura, tendo-me convidado para escrever o prefácio, que é um seu percurso pelas margens do tempo, sempre diferente ao longo da sua trajectória.

 

Em 2016 Oswaldo Osório volta a surpreender com a publicação de um romance, anunciado havia mais de quarenta anos, As Ilhas do Meio do Mundo, uma “sagarela” – a designação é do próprio autor para se referir a uma saga pequena – do seu percurso de vida de escritor e de combatente da liberdade da Pátria. Este romance é, a meu ver, o seu culminar, enquanto escritor, que o consagra como romancista.

 

Mais surpreendente ainda foram as palavras de agradecimento no acto de apresentação desse seu romance terminando com uma frase de esperança e de confiança no futuro: “até o próximo livro!”

 

“O poeta da luz interior” foi a expressão de Paulo Cunha e Silva, médico português, crítico de arte, curador de arte e vereador na Câmara Municipal do Porto, para classificar Oswaldo Osório quando, em Janeiro de 2015, o conheceu aqui na Praia. Nada mais sábio!

 

Longa vida ao Escritor Oswaldo Osório, “o poeta da luz interior”, para que continue a enriquecer as letras cabo-verdianas!

 

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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