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Passeio de fim de tarde – Estórias

Brito-Semedo, 17 Mai 15

 

SV.jpg

S. Vicente, vista parcial 

 

 

Boa noite d'Deus, Lalela, como vai a vida, Rapaz? Diazá gente não se encontrava, mosse... nem para distrair numa conversa. Bom, eu, é verdade, nem tenho ido até Rua d'Lisboa dar aquela saranda, como faço normalmente,quase tud dia... sabes, por via dessa dor na rabada que não me tem deixado andar muito... bidjiça a entrar como caruncho na madeira de caixote.


– Mas como vai isso, gente de casa, como vai? Tudo de saúde?

 

Mas olha mosse, hoje, depois de sair da repartição, para aliviar esse calor d'infer que tem na tchom de Soncente, com nem um sopro de vento para aliviar um pobre d'Crist, fui dar uma voltinha desde Rob' Salina, subi direcção de Monte e segui, para D'ji Sal até Cova d'Inglesa, na procura de um fresco. Zona de Cova d'Inglesa é sempre mais fresco. Leva com aquele ar d'mar que vai varrendo Porto... mas sem grande sorte, que hoje não corre nem um araja na tchon d'Soncente.

 

De camim passei, na porta de C'ad Massong e lembrei aquela estória de Junzin de Nhanha DJodja... fiz aquele caminho a rir-me que gente que passava por mim deve ter pensado que estou a dar pancada d'tchoca... mas lembrar Junzin de Nhanha Djodja é mesmo só para dar risada.

 

 

Junzim apareceu lá na Placa já na idade de ir para escola d'Rei. Ninguém se lembra dele nem na Fantilin, nem na Fantilona, nada. Diziam que era filho de um massong, que tinha inrocód Xandinha de Nhanha DJodja, no caminho, num dia em que ela vinha de Caizin onde tinha ido deixar uma lata de noviora... que era um trabalho que normalmente Nhanha DJodja é que fazia, mas naquele dia por via de uma dor de dente ela não conseguia carregar aquela lata, que era d'casa de Sr. Administrador... lata fina mas mais pesada, que gente rico faz serviço mais pesado que pobreza... normal, não é,? que eles comem tud casta de coisa e pobreza, é só uma cathupinha, isto é, às vezes tem dia que nem isso.


Mas voltando ao Junzin, ele era esperto, tão esperto que diziam que tinha nascido "butiod" de sete meses e que por via de ser filho de Massong era feito pacto com "Aquele Hom pelo s'nal Santa Cruz" – não é para mentar nome – que tinham levado ele e só voltou de sete anos sem falar uma palavra de Deus, que foi preciso Nhanha Djodja fazer xixi d'riba dele e passar ele sete vezes debaixo de sua saiona... que ele ficou de língua solta a falar tud casta de linga que nem cicerone de Baia conseguia entender.


Levaram ele para Centro para tirarem espírito que tinha cangado nele desde que nasceu... só mintira...


Sr. Administrador tinha era feito filho na Xandinha e como Xandinha ainda era menina nova, mandaram ela para Santo Antão, lá para uma propriedade de famílias do Sr. Administrador, até que Xandinha morreu de febre rum. Então, mandaram Junzim para Soncente para donde sua Man'dona, Nhanha DJodja... de vergonha veio essa estória de ser filho de massong e de ser butiod... só crendices daquele tempo que charuteira também inrocava gente no caminho, principalmente quando tinham tomado 1/4 litro de Grog...

 

Certo, certo, é que quando eu passei lá na porta de Cad'Massong, persignei-me e invoquei nome do Altíssimo... depois veio essa vontade de rir.

 

Manhã vou tê Fontinha ver jogo... tu não queres vir?... sempre gente conta umas partidas e põe conversa em dia.


Então, tê manhã. Mantenha pa gente d'casa.


Oeiras, 2015/05/16
D'Joe

 

 

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7 comentários

De Valdemar Pereira a 17.05.2015 às 10:26

Esta segunda brincadeira do Djô deve ser cultivado, incentivado, tanto por nos levarem àqueles tempos genuinos sanvicentinos como pela sua riqueza literària.
Lembro que, casualmente e graças ao Nuno Marques (que tanta falta faz), o jornal-on-line "O Liberal" apresentava duas vezes por semana (Sextas e sàbados) estorinhas. Pena que tudo desapareceu com o jornal. Mas o Djô começou aqui e deve continuar. O pior era começar...
Bom vento, bons contos.
Braças e mantenhas.

De Jorge Martins a 17.05.2015 às 11:32

Um abraço Valdemar e mantenhas
Djô

De Valdemar Pereira a 17.05.2015 às 16:01

Retribuo o abraço, Jorge, esperando ter o prazer de te ver aqui
Braças e mantenhas

De José F Lopes a 18.05.2015 às 07:01

Uma curta e linda história  cujo pano de fundo é S Vicente, uma época tão próxima mas que parece já muito distante da realidade da ilha . Os personagens representam o povo desta ilha nesta época

De Jorge Martins a 20.05.2015 às 18:54

Um abraço e obrigado pelo comentário.


Mantenhas

De JOSÉ MANUEL FARIA DE AZEVEDO a 19.05.2015 às 09:55

Caro Djô, adorei, adorei, como agora se diz...Por breves minutos a tua máquina do tempo levou-me, de volta, aos sítios da minha mocidade e - não tenho vergonha de o dizer - os meus olhos marejaram-se daquelas teimosas lágrimas temperadas pelo sal da saudade...Lindo texto, meu amigo, falado naquele delicioso "criolês" que é musica autentica para os nossos sentidos!
Forte abraço...
Zito






De Jorge Martins a 20.05.2015 às 18:53

Caro Zito,


Agora, deixaste-me sem muito para te dizer... eu que me habituei a ver o mundo, através dos teus programas de rádio... Sem palavras para além de um grande, enorme  Obrigado, uma braça pertod e mantenhas pa gent d'casa.

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