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'Poemas de Baltasar Lopes' é o título de uma crónica de autoria do Escritor António Aurélio Gonçalves para o programa “Miradouro”, da Rádio Barlavento, São Vicente, 1955, cujos poemas foram declamados por Guilherme Chantre.

 

Uma nota de reconhecimento ao colaborar Artur Mendes pela recolha e cedência deste material.

 

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O comentário brevíssimo para servir de introdução a uma pequena colectânea de Poemas de Baltasar Lopes, que serão lidas por Guilherme Chantre, que foi escrito a convite de Jorge Barbosa, dar-me-á a matéria para a crónica de hoje. A colectânea que vai ser escutada, felizmente, dá-nos uma ideia exacta da arte do seu autor. Pela sua originalidade, pela sua profundeza, pela sua beleza e pelos problemas estéticos que a sua leitura levanta, estes poemas estão naturalmente destinados a um público educado no amor e na compreensão da poesia. São versos para serem meditados. A sua linguagem, o seu fundo de ideias e de sentimentos fá-los bem diferentes daquela poesia a que está acostumada a maioria dos poucos leitores que ainda se interessam por versos. Creio que a sua apresentação pela rádio não favorece a meditação que exigem. Mas isto, no fim de contas, constitui mais um motivo para que o ouvinte os escute com redobrada atenção.


Uma qualidade salta ao espírito, logo se toma conhecimento desta poesia: é a sua intensidade. Intensidade de expressão e intensidade de ideias. Focando o primeiro destes dois aspectos, desejo chamar a atenção dos ouvintes para a impressão, que nos fica à primeira leitura, de um poder de exprimir que já nos toca e impressiona pela força de choque de um jorro de água apanhado junto á nascente, quando o pensamento que enferma o poema ainda se não revelou claramente. Para muitos, quando se atinge este ideal de expressão fortemente e intensamente poética, já se criou a feição primacial da autêntica poesia. Era Mallarmé que ensinava a Degas que a poesia se faz com palavras e não com ideias.


Não nos deixemos vencer pela tentação de discutir e falemos agora da intensidade das ideias ou dos sentimentos, para a qual nos encaminha irresistivelmente, aliás, o primeiro aspecto já referido, pois que é raro que uma coisa vá sem a outra. “Poesia é o desenvolvimento de uma interjeição”. Assim falou Paul Valéry e quer-me parecer que nesta frase encontramos uma definição que se ajusta com singular felicidade à poesia de Baltasar Lopes. Um estado emotivo simples, um grito que se eleva e prolonga. Por via de regra, quando um poeta escreve, produz-se em nós a convicção de que há uma mudança de plano quando se passa da sua vida para a poesia. Aqui fica-nos a sensação diferente: a de que existe uma identificação entre a vida e a poesia, a sensação de uma poesia que foi captada junto à origem, logo no seu primeiro surto, e que conservou o vigor, a intensidade do seu primeiro instante. Para completar este brevíssimo esquisso, refiro-me agora a um aspecto, ainda em suspenso , mas o qual já o ouvinte arguto teria pensado. Qual, então, o aglomerado de sentimentos que se deposita e se exprime na poesia de Baltasar Lopes? Á medida que esta poesia se vai compondo e nos seus melhores momentos, vai-se organizando um grupo de ideias e de emoções, dispostas em torno de uma preocupação principal, que vem a ser sentimento de fraternidade entre os homens. Escutem estes três versos simples e belos, tirados do poema que tem por título “Só”:

 

…Ninguém sabe a paz que eu sinto
em ter este orgulho de andar sem ninguém
e com todos e em tudo…

 

E mais estes, respigados do poema “Capitão das Ilhas”:

 

… Fui ao seu enterro porque sou caçador de heranças
e queria confessar a minha gratidão
pela riqueza que ele me deixou,
pela sua dimensão desmesurada do mundo
(Quem sabe se a poesia não será, afinal, a gente
libertar-se das dimensões…)
e pela sua incorporação no veleiro em que todos
navegamos…

 

Última arcada e último exemplo, acrescentemos estes, colhidos em “Famintos”:

…Fui seu irmão e tive pejo de lhe confessar
que a mesma penumbra contornava
as nossas duas sombras fatigadas
desta caminhada sem itinerário…

 

Com toda a certeza, ouvinte caboverdeano, que não nos negaste hoje a tua atenção, que a beleza formal destes versos não te escapou. Em todos se manifestam dois sentimentos, aparentemente antinómicos, mas igualmente fortes, coexistindo e acabando por irmanar-se e por se completar: o orgulho da solidão, adoptada como defesa de um e cuja riqueza para se conservar, se deve manter secreto, e humildade de se sentir um homem entre os homens, de compartilhar de todos os aspectos da humanidade, de andar com todos e com tudo, de incorporar no veleiro em que todos navegamos, de ser uma sombra fatigada ao lado de outra sombra nesta caminhada sem itinerário. O todo que deriva da intima conjugação destes dois sentimentos – eis a matriz de onde emanam e que transmite a sua tonalidade a todos os sentimentos cantados por Baltasar Lopes na sua poesia.

 

- António Aurélio Gonçalves

 

in Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação, Maio de 1955

 

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