Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

 

CARICATURA.jpg

 Ovídio Martins, caricatura de H. Bettencourt Santos (Humbertona), 1973

 

 

Praticamente até ao século XX a diferença entre a prosa e a poesia era facilmente percebida, graças às convenções formais específicas de cada um desses modos de expressão e, em particular, à mancha tipográfica criada na página em branco pelo texto impresso[1]. Contudo, com o advento da prosa poética, do poema em prosa e do verso livre, essa diferença tendeu a diminuir, tornando-se cada vez mais ténues os limites tradicionais entre as duas maneiras de escrever.

 

O poema em prosa e o verso livre “personificam” a poesia. Por outro lado, os prosadores vêm lançando mão de recursos poéticos aproximando a sua escrita da arte do verso. Desse modo, não é raro encontrarmos insertos em textos em aparência “prosaicos”, elementos característicos da poesia e, por vezes, até mesmo fragmentos em verso.

 

Ovídio Martins, um dos mais marcantes poetas da Geração do Suplemento Cultural, é cultor da poesia em verso e da poesia em prosa onde parece sintetizar o mais elevado nível da língua.

 

LIVRO OVIDIO MARTINS.jpg

 POESIA EM VERSO

 

A poesia de Ovídio Martins – Caminhada (1962) e Gritarei. Berrarei. Não vou para Pasárgada (1973) – é “um canto de amor e de luta, ritmado por uma obsessão constante de libertação, que em todos os seus momentos dialécticos rejeita a solução conformista, reaccionária dos problemas que alastram a personalidade do africano insular de Cabo Verde”[2]

 

Ovídio Martins (1983:49) explica como na sua concepção e amor e a luta se confundem em acto único de afirmação, politicamente consciente:

 

“Luta-se para se amar livremente, libertada. Ama-se para, com ardor redobrado, se lutar pela nossa terra. O amor torna-se, assim, um acto de luta porque a luta se torna um acto de amor. Para amar”.

 

“Terra Dos meus Amores” (1973) é um poema que sintetiza esse amor-luta do Poeta-Combatente:

 

Terra dos Meus Amores

 

Terra dos meus amores

Ó terra da minha dor

Chora o vento na tua voz

O mar ameaça nos teus gestos

 

No fundo dos séculos sobe o rumor

De idade concreta – 500 anos

Do fundo dos séculos chora o vento

Na voz da terra – meu amor

 

O mar ameaça nos teus gestos

Ó terra da minha dor

Bloqueio mordaça bloqueio

Terra dos meus amores

 

Soluça o vento na tua voz

Ameaça o mar nos teus gestos

Bloqueio mordaça bloqueio

Na tua face de rompido espanto

 

Agora a luta ontem o desespero e dantes as lágrimas

Ó terra da mina dor

Estrela salgada de 10 braços

E em cada braço mil esperanças

 

No tocante à organização do sentido, todo o poema é percorrido pelo processo disfórico/eufórico. Não obstante o facto de o paradigma amor/dor constituir uma passagem do virtualmente eufórico para o disfórico, a presença constante do lexema “dor” assegura a permanência da disforia. Contudo, a componente disfórica cede lugar a uma componente potencialmente eufórica que se materializa na expressão “mil esperanças”. Trata-se do que se poderia chamar de um texto aberto para o futuro.

 

O poema dá conta da transformação de um passivo para um activo. A passagem de “chora” para “soluça” representa a transição do passivo para o virtualmente activo. Este soluçar (“desespero de ontem”) representa uma luta que dantes foi lágrimas, lugar onde o actual sujeito ainda não tem condições para agir. As lágrimas (“chora”) constituem um signo material da tomada de consciência total que culmina na luta.

 

Na quarta estrofe constata-se o desenvolvimento dum processo: de “soluça” a “ameaça”. Ou seja, a passagem do potencial ao real. Contra o soluço e a ameaça há um “bloqueio”. Este lexema que se repete significa uma constância. O bloqueio não surge, exige. A terra está bloqueada. O que começa por ser um choro passivo passa para uma reacção ameaçadora, “a terra ameaça nos gestos do mar”. Contra a ameaça da terra instala-se o bloqueio, o qual contém os conceitos “bloqueado” e “bloqueador”, apontando para um sentido de causa e efeito.

 

Os dois últimos versos (retomados em “Ilha a ilha”, um texto em prosa poética) traçam a geografia da “terra dos meus amores”. Essa terra é um cosmos que engloba um espaço marítimo, terrestre e humano que se identifica como um corpo estrelar cujos braços são ilhas. O lexema “estrela” faz convergir os espaços marítimo (“estrela do mar”) e sideral (“astro”), realidade nocturna (que pode ser associada à mordaça) e representa um guia na escuridão. Por essa razão faz nascer a “esperança” de alcançar o rumo certo – a Liberdade. A esperança, por sua vez, associa-se à espera e esta, ao porvir. Por outro lado, a associação do lexema “estrela” à expressão “10 braços” vem identificar o sentido, isto é, dar a ideia clara do número das ilhas.

 

No plano semântico ou da configuração, todo o poema constitui a alegoria de um processo histórico. A primeira metáfora confere um sentido humano à terra – tem face, voz, gestos, sente dor, chora. Importa, a esse respeito, salientar a existência de uma relação metonímica entre os lexemas “voz” e “gestos”. Várias outras metáforas traduzem a reacção da terra contra a situação que a oprime: “soluça”, “ameaça”, “espanta”, “desespera” e “luta”, como se tudo o que ali existe fosse um ser vivo. A expressão “do fundo dos séculos” põe em relação “chora o vento” com “sobre o rumor”. Assim, o rumor que sob ao longo dos séculos é u choro do vento.

 

O penúltimo verso constitui uma alegoria pequena dentro de uma maior composta por duas metáforas, “estrela” e “braços”, uma hipérbole, “10 braços”, e a conotação, “salgada”. A colocação do adjectivo “salgado”, lado a lado com “estrela” atribui àquele um valor semântico que ultrapassa o seu emprego normal (sinédoque do lexema “mar”).

 

POESIA EM PROVA

 

Mesmo quando Ovídio Martins faz incursões na prosa, nos casos de Tchutchinha (1962), contos e Independência (1983), crónicas, a ligação com os seus poemas é permanente e a temática constante.

 

Independência, “uma recolha de crónicas do quotidiano nacional ainda na clandestinidade, do canto da independência adquirida e das realizações nos dois anos imediatos”, insere no fim uma das mais lindas prosas poéticas:

 

Ilha a Ilha

 

“Cá vamos nós reconstruindo o país. Devagar, é certo, mas avançando. Ilha a Ilha. Dor a dor.

 

Livres os gestos, mas encontram-se ainda longe nossos jardins suspensos. Deixá-lo. Poesia é agora sentir o futuro-presente.

 

Foi riscado das nossas estradas a percorrer, o caminho de perdição do serviçal-escravo-contratado. Os capatazes de escravo perderam o emprego.

 

Cabo Verde está a levantar-se, na força das suas dez ilhas, seus dez versos, suas dez esperanças […].

 

Chamámos uma vez a Cabo Verde ‘estrela salgada de dez braços e em cada braço mil esperanças’. Se pusermos, hoje, em cada esperança mil certezas, ficaremos com uma ideia clara do espírito com que se enfrentam as dificuldades nesta prática do meio do mar.

 

Devagar, a reconstrução nacional avança. Ilha a ilha. Dor a dor. Amor a Amor”.

 

Ao longo deste texto a oposição geracional e ideológica é evidente. É a “Geração do Suplemento”, com um discurso directo e de revolta versus a “Geração da Claridade”, com um discurso metafórico e de denúncia. Por outro lado, é possível isolar fases ou expressões significativas nesta prosa e encontrar a sua referência no plano da intertextualidade.

 

Se se tiver em conta que a intertextualidade literária é ”um processo de absorção e transformação mais ou menos radical d múltiplos textos, que se projectam (prolongados ou rejeitados) na superfície de um texto literário particular” (Reis, 1992:128), todo o texto de “Ilha a Ilha” se constrói como mosaico de citações do próprio autor, identificadas no seu primeiro livro de poesia (1962) e de outros poetas anteriores a ele ou seus contemporâneos.

 

As expressões identificadas são, entre outras: “gestos livres”, “lamento do mar”, “madrugadas de sonhos, utopias e pasárgadas”, “desespero e desesperança”, “caminho de perdição do serviçal-escravo-contratado” e “dez ilhas, dez versos, dez esperanças” que, com a independência, sofre mudança semântica.

 

Gestos livres. A liberdade dos gestos é um tema tratado, primeiramente, no poema “Não me aprisionem os Gestos” – Não me aprisionem os gestos/ que uma ave sem asas não é ave – e depois retomado em “O Único Impossível”, dedicado a Baltasar Lopes – Mordaças/ A um Poeta?!/ Não me façam rir!.../ Experimentem primeiro/ Deixar de respirar/ Ou rimar… mordaças/ Com Liberdade.

 

Lamento do mar. A referência é feita ao mar nostálgico e dramático do poeta claridoso Jorge Barbosa em “O Mar” (1935) – Ai o cântico/ estranho/ do Atlântico,/ que não se clã em nós! – e “Poema do Mar” (1941) – O drama do mar,/ o desassossego do Mar,/ sempre/ sempre/ dentro de nós! – por oposição ao mar agora visto como esperança e progresso.

 

Madrugadas de sonhos, utopias e pasárgadas. Estes conceitos da ideologia marxista são aqui apresentados, não como uma fuga à realidade ou algo a ser alcançado num futuro distante mas, como uma realidade já presente. Dão conta disso os poemas “Labirinto” – Eu ainda era noite/ e já sonhava madrugadas/ Eu ainda era inverno/ e já sonhava primaveras/ eu ainda era botão/ e já sonhava flores – e “Anti-Evasão” – Gritarei/ Berrarei/ Matarei/ Não vou para Pasárgada.

 

O poema “Anti-Evasão”, sendo em si uma síntese, indexa para o poema-tese de Osvaldo Alcântara, “O Itinerário de Pasárgada”. Por outro lado, Ovídio Martins, ao dedicá-lo a João Vário (i.e. João Varela), essa dedicatória entra no plano da intertextualidade pois reflecte as opções ideológicas de ambos que interferem nas estratégias literárias por elas adoptadas.

 

Desespero e desesperança. A raiva de ontem contida no poema “Para Além do Desespero” – Para além do desespero…/ Também minha revolta/ Com cadeados nos pulsos – e a descrença do “Desesperança” – As promessas viraram cansaço/ e já nem as luas acreditam – vão sendo palavras estranhas no vocabulário da independência.

 

Caminho de perdição do serviçal-escravo-contratado. É uma referência directa aos poemas sob o título genérico de “Caminho da Perdição” – Caminho sem dia/ caminho sem fé/ Roças de S. Tomé/ Caminho longe… ou Há a noite de S. Tomé…/ e homens vendidos que partem/ e bocas com fome atraiçoadas – e uma referência aos poemas de Gabriel Mariano, “Caminho Longe” – Caminho/ caminho longe/ ladeira de São-Tomé/ devia ser de regresso/ devia ser e não é e “Comissários Ad Hoc” – Não os vês seguindo/ nos porões seguindo?/ [..]/ nos porões dormindo?/ […]/ nos porões comendo?/ […]/ nos porões cantando? O caminho perdição “foi riscado das nossas estradas a percorrer”.

 

Nosso destino a cumprir. Segundo Jorge Barbosa, em “Prelúdio” (1955), Quando o descobridor chegou/ […]/ nessa hora inicial/ começou a cumprir-se/ este destino ainda de todos nós. Em Ovídio Martins desaparece a locução temporal ainda e o destino a cumprir é outro “dar a Cabo Verde outro mar, outro céu, outro homem”.

 

Mares muros. O mar-muro que em Jorge Barbosa separa e isola – as grades também da minha prisão – é visto em Ovídio Martins como mar-laço em “Unidos Venceremos” – Estendemos as mãos/ desesperadamente estendemos as mãos/ por sobre o mar/ As ondas não são muros/ são laços/ de sargaços/ que servirão deleite/ à grande madrugada.

 

Dez ilhas, dez versos, dez esperanças. A transcrição é directa do poema “Terra dos Meus amores” – Estrela salgada de dez 10 braços/ E em cada braço mil esperanças. Cada esperança multiplicada por mil certezas da independência dá a ideia mensurável do espírito com que se enfrenta as dificuldades “nesta pátria do meio do mar”.

 

Ovídio Martins, combatente-poeta, dedilha a sua lira e entoa, em prosa ou em verso, um canto de amor e de luta ritmado por uma “obsessão constante de libertação”.

 

Manuel Brito-Semedo 

 

__________

[1] SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e, Teoria da Literatura, Coimbra, Livraria Almedina, 1993.

[2] SILVEIRA, Onésimo e SANTOS, H. Bettencourt, in contracapa de Gritarei. Berrarei. Não vou para Pasárgada. Prefácio de Onésimo Silveira e Humberto Bettencourt Santos, Rotterdam, 1973.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

Powered by