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Prosas Soltas - Capa.jpg

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros”

Aos Romanos, cap. 13, versículo 8

 

Esta tem sido a minha filosofia de vida recebida pelos ensinamentos da Bíblia através da Igreja Protestante e por via da educação austera dos princípios de pobreza honesta transmitida pela Ma Liza, que Deus a tenha na sua Glória. Cultivo e sigo isso escrupulosamente e tentei transmiti-lo aos meus filhos: não dever nada a ninguém.

 

Tenho, ou melhor, tinha uma dívida com a Escritora e Amiga Fátima Bettencourt há já bastante tempo, que me vinha tirando o sono (agora entendo porque durmo mal!). Explico. Aqui há uns anitos, depois de uma excelente apresentação de livro, eu disse à Fátima Bettencourt que, quando “crescesse” eu escreveria um livro para ela fazer uma apresentação igual. Mas ela não me levou a sério… Aliás, não sei por que as pessoas não me levam a sério. Talvez seja por causa deste meu ar e fama de m’nine buzóde.

 

Por pirraça, encostei-me à Esquina do Tempo, muni-me de uma mão cheia de crónicas e convoquei a Fátima Bettencourt, não uma, mas duas vezes para fazer a apresentação das Crónicas de Diazá, em 2009, e das Crónicas de Mindelo, em 2014.

 

– Manel, chegou a hora de pagar a dívida, disse-me a Fátima Bettencourt, não por estas palavras ou com este tom, mas foi mais ou menos isso. Como é meu princípio, “A ninguém devais coisa alguma”, não tinha como recusar ou esquivar. Sim, e ainda vou com sorte se for dispensado de pagar a segunda parcela da dívida, com o argumento de que este Prosas Soltas é equivalente em número de páginas aos meus dois livros de crónicas. E porque é fim d’óne, as dívidas deste ano não devem transitar para o próximo. Se assim não for, já-m psû nhondénga. M ca tem come pagá.

 

Finalmente já posso dormir descansado e voltar para o ano com um novo livro de crónicas para assinalar os meus 65 anos de idade e 20 de publicação. Para variar, a apresentadora dessa vez vai ser a Escritora Dina Salústio! (Eu e as minhas mulheres-apresentadoras na Esquina!) Aproveito que a minha Amiga Dina não está presente para fazer o anúncio, quase declaração de amor público.

 

Prosas Soltas - Conntracapa.jpg

Nunca fui tão delicadamente desautorizado como quando pedi ao meu Amigo Germano Almeida para escrever o prefácio do meu segundo livro da Esquina do Tempo e ele, do alto da sua autoridade e dos seus quase 2 metros de altura e 100 e tal quilos de peso, na sua ironia sarcástica, teve a lata de registar no meu livro o seguinte:

 

“E agora a minha vingança sobre o Brito-Semedo. É que ele não deve saber que a Fátima já é de há muito a minha cronista de eleição, sempre adorei a forma despretensiosa como escreve, como se estivéssemos a ouvi-la discorrer na sua voz graciosa, no tom uma leve sombra irónica que a palavra escrita não afoga” (p. 12).

 

Pois bem, é esta Fátima Bettencourt, radialista, cronista, contista e conferencista, que se mostra de corpo inteiro neste seu livro Prosas Soltas. Título despretensioso este para quem já nos habituou a outros mais sonantes e criativos como Semear em Pó, contos (1994); Um Certo Olhar, crónicas (2001); Mar – Caminho Adubado de Esperança, contos (2006); Lugar de Suor, Pão e Alegria, crónicas (2008). Mas o título só é pretensamente despretensioso. Na verdade, o livro compõe-se de textos soltos, num total de 32, apresentados em tempos diferentes, espaços diversos e dirigidos a públicos díspares, arrumados em 4 secções: “Mestres”, “Conferências”, “Mulheres” e “Apresentações de obras literárias, ensaísticas e pictóricas”. O resultado final é este trabalho bem costurado, apresentado agora com outra roupagem e novas funções.

 

Não sei porquê, ou melhor, sei, a organização destas Prosas Soltas da Fátima Bettencourt fez-me recuar no tempo, à minha infância – vou ali à Esquina do Tempo e já volto – quando a Mãi Xanda, limitada pelo meio e por uma questão de economia – as mães são criativas e sempre lançaram mão da reciclagem como um recurso – passava horas à luz do candeeiro a petróleo a costurar à mão.

 

Eu via o empenho que ela punha em desmanchar uma das suas saias para, com esse pano, fazer um “vestidinho novo” por ocasião das Festas para a filha pequena. A Mãi Xanda cortava o tecido, servindo-se como molde e medida um outro vestido já usado. As sobras seriam depois aproveitadas para fazer roupa de boneca. Colocava o dedal no dedo médio para melhor empurrar a agulha e a linha e ficava pronta para o trabalho. Alinhavava, voltava a conferir as medidas e só depois começava a costurar com pontos certos e miudinhos – com ponto atrás para ficar firme e não descoser, explicava ela. Sempre que era preciso, cortava a linha com os dentes, que depois cuspia para o chão. Por fim, colocava o colchete ou a mola e as duas fitas para o laço na cintura e arrematava, tudo à mão.

 

Eu a observar esse trabalho, noites seguidas, a querer enfiar a agulha e a recolher os restos de tecido que caíam ao chão, até ficar ensonado e a esfregar os olhos de cansaço. Aí a Ma Liza intervinha e mandava-me ir lavar os pés sujos de terra e ir para a cama. Ordem essa que não admitia “resmunganço” ou ficava com o toutiço quente com uma pescoçada.

 

Pois bem, a Fátima Bettencourt, mulher experiente, mãe e avó, tem dois livros de contos, dois de crónicas e um de conto infanto-juvenil. Com esse material solto em mãos, e depois de um tempo de decantação, decidiu, em boa hora, reaproveitá-lo costurando-o em formato de livro, seguindo uma técnica que faz lembrar a Mãi Xanda no seu labor de artesã cuja habilidade residia em não deixar ver a costura. E o resultado está aí. Agora podemos ler aquele texto que alguma vez ou em uma ou outra circunstância ouvimos e quisemos ter uma cópia, para voltar mais tarde, mais calmamente, a desfrutá-lo.

 

A Fátima Bettencourt tem uma pena que é uma leveza. Vejam este exemplo, entre muitos outros, de prosa poética:

 

“Mas a mulher cabo-verdiana com o simbólico sopro bíblico se anima, recolhe no regaço os grãos que vai atirando à terra atrás do companheiro, alimenta os homens na monda e apanha das flores, depois da colheita espalha o milho para secar e de novo no regaço debulha-o passando por ele as mãos repetidas vezes, deleita o olhar no matizado das suas cores e o brilho virgem do milho novo, extasia-se com o som cacarejante dos grãos rolando uns sobre os outros, com o mesmo amor afaga os cabelos do filho encostado às suas saias e levanta-se direita ao pilão. Com um pão de metro e meio, quase a altura dela, bate-lhe com força borrifando-o com água de vez em quando até separar o grão do farelo” (p. 90).

 

Que escrita! Eu queria saber escrever assim! Até faz inveja.

 

E que dizer do prefácio da Simone Caputo Gomes, amiga de muitas andanças e cumplicidades? É uma leitura de uma Professora de literatura da Universidade de São Paulo, profundamente conhecedora e uma autoridade na literatura cabo-verdiana que, “num jato de escrita e vivendo fortes emoções”, faz uma análise lúcida sobre estas Prosas Soltas e as recomenda vivamente por considerar o livro “fundamental para quem quer conhecer e amar Cabo Verde”.

 

A terminar, uma nota sobre a capa, uma linda pintura de Nelson Lobo, artista cabo-verdiano, natural de Santa Catarina de Santiago, onde nasceu em 1952, presentemente a viver em Mindelo, que perseguiu a autora por longo tempo à espera de ser rosto de livro.

 

Deixei propositadamente para o fim o que vem no início, uma referência aos Poetas Mário Fonseca (1939 – 2009) e Corsino Fortes (1933 – 2015), nomes maiores da poesia cabo-verdiana a quem Fátima Bettencourt presta uma homenagem dedicando este seu trabalho.

 

Leitura recomendável, sobretudo para a camada estudantil pela riqueza de informações sobre os Mestres da nossa literatura, pelas reflexões sobre as questões de identidade e etnologia de Cabo Verde, pelas reflexões sobre a mulher cabo-verdiana e pelas apresentações dos livros. Juntando a isso tudo, uma bela prenda para esta quadra festiva.

 

Recomenda-se, com os votos de um Feliz Natal. Boas Festas a todos!

 

Manuel Brito-Semedo

 

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