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Já dizia Bertholt Brecht que “um homem só está morto quando ninguém mais pensa nele”.

  

“Filho de Mário de Macedo Barbosa e sobrinho do poeta Jorge Barbosa”. Esta é a forma como o investigador João Nobre de Oliveira apresenta Amaro João no seu A Imprensa Cabo-verdiana (1820-1975), (Macau, 1998), referenciando-o e enquadrando-o a partir de pessoas nossas conhecidas das lides literárias. Forma interessante e muito nossa porque dos meios pequenos onde todos são parentes ou conhecidos, onde toda a gente tem laços de parentesco ou de conhecimento entre si.

 

- Conheces Fulano de Tal? Não?!... Ele é filho de… que foi filho ou neto de … casado com…  pai de … tio ou padrinho de… que trabalha no lugar tal… em tempos foi… mora em … Ah, já sabes agora a quem me estou a referir?! Pois, como dizia, Fulano de Tal...

 

Excelente referência, essa do Nobre de Oliveira, sobretudo agora que Jorge Barbosa foi popularizado em nota de 500$00. Contudo, muito poucos saberão quem é ou quem foi Mário de Macedo Barbosa, ou sabendo, de apenas ouvir dizer porque não tem livro publicado.

 

Tive o meu primeiro contacto com o Poeta Mário de Macedo Barbosa através da sua colaboração, “Caco-Lecó”, no número 7 da revista Claridade, de Dezembro de 1949. O suficiente para o aquilatar enquanto poeta na língua materna:

 

Caco-lecó

gal djâ cantá,

nhôs dã nha pó –

burro selado.

 

Lua na Monte,

poti sim águ,

camim di fonti,

bórta ê di tardi.

 

Caco-lecó,

gal djâ cantâ,

nhôs dâ nhâ pó,

nhôs dã pilom.

 

Cutruz-cutruz,

midjo quebrado,

gò-sim cuscus,

logo catcupa.

 

Caco-lecó,

gal djâ canta,

nhôs dã nha pó –

moça robada.

 

………………….

 

Ê ca só castigo

ês canto ’l galo.

tambêm ê prigo

nâ trâ di casa…

 

Posteriormente haveria de voltar a cruzar-me com ele ao ter acesso a uma brochura com, eventualmente, os seus últimos escritos, Dôs poema d’ imirgéncia. Dois poemas de emergência, datada de Agosto de 1966, com os poemas “Um poeta doenti – que crê sarbâ” e “Um poeta que sofre e se quer salvar”:

 

Poesia amiga –

Musa querida:

 

Sabes que sofro,

Mas sofro muito –

E que dia a dia o meu mal se agrava,

Minando mais o meu organismo.

 

………………….

 

Não te detenhas e vai dizer

À GENTE AMIGA da nossa TERRA,

Que um poeta sofre, mas sofre muito,

De doença grave, mas talvez curável,

E que não quer partir ainda!

 

Que quer ficar!

 

Que quer viver!

 

Artur Vieira, o escritor da ilha Brava a viver no Brasil, explica que em 1966 Mário de Macedo Barbosa tinha começado a compilar os seus escritos para editar em livro, “Djarfogo Arto” (Ao Alto a Ilha do Fogo), mas esse propósito não se concretizou por motivo de súbita doença que o forçou a embarcar para Lisboa, vindo a falecer meses depois.

 

Após isso, um grupo de amigos movimentou-se no sentido de perpetuar a obra do Poeta, mas inexplicavelmente seus escritos haviam desaparecido, presumindo-se, a esta altura, terem-se perdido.

 

Segundo o filho Amaro João Barbosa, Mário de Macedo Barbosa, com uma poesia viva e clara, foi incompreendido durante a sua existência e o seu nome ficado no esquecimento depois da sua morte. “Mas eu fui o teu legado, e de ti herdei o dote para te continuar… poetizando!”, escreveu.

 

Fixando-me em JOMAR, filho e sobrinho dos poetas já referenciados, que, segundo Artur Vieira, “Ainda em precoce idade, a Inspiração o privilegiou e disso já se esperava, sendo herdeiro de Mário Macedo Barbosa, um dos mais destacados escritores da fase modernista em Cabo Verde. Configura-se, portanto, Jomar, como um exponente nato da Literatura”.

 

Retalhos de um Autodidata é uma compilação dos escritos de JOMAR, organizado por Nominanda Fonseca, sua companheira de muitos anos, para que esses escritos sejam conhecidos e a memória do seu autor não se perca.

 

O título fez-me reportar ao livro Retalhos da Vida de um Médico (Lisboa, 1966), do escritor português Fernando Namora, detendo-me no fragmento “retalho” – parte de uma coisa que se retalhou, pedaço ou porção de tecido que sobra de uma peça – e fazendo-me recordar as lindas colchas de retalhos, verdadeiras peças de artesanato local, feitas pelas senhoras da Brava e do Fogo de antigamente.

 

Em boa verdade, os textos agora reunidos no Retalhos de um Autodidata são, a meu ver, retalhos de memória, fragmentos literários (poesia, contos, textos jornalísticos), registos de sentimentos de diferentes vivências em diversos espaços geográficos – Cabo Verde (Brava, Santiago e São Vicente), Angola (Malanje), Estados Unidos (New Jersey) e Portugal (Lisboa) – escritos nas línguas cabo-verdiana e portuguesa e dados a conhecer em diferentes meios de comunicação (revistas, jornais, rádio), num tempo relativamente longo, iniciado quando JOMAR tinha dezasseis anos de idade e era estudante na Secção do Liceu Gil Eanes na Praia, identificando-se, assim, duas fases: a “Era Colonial” e a “Era Nacional”.

 

Nasci na Furna

Cresci no Mindelo

Corri as ruas da Praia

E hoje, cá estou!...

 

A cabo-verdianidade de JOMAR é expressa no seu apego às raízes, à sua ilha Brava, ao seu ninho Furna, e na expressão desse seu afecto através da língua materna, o crioulo de Cabo Verde, às suas tradições e festas de romaria, a Festa de Nhô Sandjon, de que “tomou bandeira” em 1998, com “a intenção de festejar o dia da Brava, em 1999, ‘com toda a morabeza do djabrabense sempre morábi’”, mas que não chegou a acontecer devido à deterioração do seu estado de saúde. De referir ainda a escrita de letras para morna, algumas musicadas por Niná e Manuel de Novas.

 

Termino estes breves apontamentos em tom de festa e de devoção que JOMAR imprime ao longo de todo o livro:

 

Seló! Seló! Nabiu na canal,

toquis, fogueti e ligria,

nhos bem, nhos bem odjam,

é nabiu qui perdê dja tem dias.

 

Rabuliço na porto di Furna,

tê batcha gentis di pabaçon,

es trazê nhô Sandjon na Furna

pabem ta dudo gentis bençon.

 

Abrido barril di vinho,

dançado morna ma coladera,

contenti ‘sta tudo nôs povinho,

pamô libra di morti, ca brincadera.

 

Já dizia a Professora Lúcia Lepecki que toda a contribuição é válida para o estudo futuro, não só do autor como da cultura em que ele se integra.

 

Bem-haja, pois, este Retalhos de um Autodidata, em boa hora organizada.

 

“Um homem só está morto quando ninguém mais pensa nele” – Bertholt Brecht.

 

Retalhos de um Autodidata

Amaro João Pereria Barbosa

Edições Fénix, 2015

 

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1 comentário

De Amelia do Sacramento Monteiro a 06.10.2015 às 14:00

Também li o livro do meu primo direito Amaro João Pereira Barbosa, o pai Mario Macedo Barbosa foi um  grande poeta. È irmão  da minha mãe.
O Amaro João não é sobrinho do poeta Jorge Barbosa, sim sobrinho por afinidade pois o poeta Jorge Barbosa casou com Ida Feijóo irmã da mãe do Amaro.
Mas o poeta Jorge Barbosa é primo direito de Mario Macedo Barbosa. Foi pena terem desaparecido os escritos do meu tio Mário Macedo Barbosa.
Desculpem o atrevimento mas achei por bem esta pequena explicação.
Que o Amaro repouse em Paz, bem como os poetas Mario Macedo Barbosa  e Jorge Vera Cruz Barbosa.

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