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"Rosas em Agosto", de António Barbosa

Brito-Semedo, 30 Mar 17

 

Rosas em Agosto.jpg

 

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”

– Eclesiastes, Capítulo 3, versículo 1

 

 

Há coisas que estão escritas nas estrelas. Eu sempre acreditei que o Rev. António Barbosa Vasconcelos haveria de publicar um livro e também sabia que, no dia em que isso acontecesse, pela nossa relação de amizade de diazá na munde, do meu tempo de aluno da Escola Dominical, de empregado da Editora Nazarena, de estudante no Seminário Nazareno e do Pastorado, e pela afinidade intelectual, eu seria chamado para “botar discurso”. Dito e feito! Ai do Carlos Elias se não me tivesse convocado para a festa!

 

 

tempo de plantar

 

Todo o percurso de vida de António Barbosa Vasconcelos, daquele menino de Ponta Verde na ilha do Fogo, que aos nove anos fica órfão e se muda para a cidade da Praia para viver com uma tia, da necessidade de cedo começar a trabalhar na Imprensa Nacional, de ter de fazer sacrifício para estudar à noite, à luz de candeeiro, ao jovem que vai para São Vicente trabalhar, continuar os estudos secundários e formar-se no Seminário Nazareno como Pastor, foi um tempo longo e difícil, mas um tempo de plantar.

 

Ordenado presbítero em 1967, chefiando os serviços das edições da  Editora Nazarena e leccionando no Seminário Nazareno, onde tive o privilégio de o ter como Professor, é a partir de 1971 que Barbosa Vasconcelos exerce o pastorado em tempo integral tendo trabalhado na ilha do Maio, Porto Novo, Praia e Lisboa, com uma paragem na Achada de Santo António, voltando à sua base em São Vicente, à Editora Nazarena, à escrita e aos livros. Este foi um tempo também difícil, de novas e experiências mas também um tempo de plantar.

 

… tempo de colher

 

Diz-se que todo o homem (ser humano) antes de morrer deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Na verdade, precisa-se, depois disso, viver o tempo suficiente para ver a árvore crescer e desfrutar da sua sombra e frutos, ver os filhos a ter esse mesmo ciclo de vida e ver os netos a brincar debaixo dessa árvore e a ler esse livro.

 

Ao Rev. António Barbosa Vasconcelos, aposentado, a beirar os 82 anos, com trabalho feito (árvores plantadas), 3 filhos formados e bem encaminhados, meia dúzia de netos e já com um bisneto, faltava a publicação de um livro para a realização pessoal ser completa. Agora é “tempo de colher”, de desfrutar do que a vida lhe tem dado e continuar a escrever livros, sim, porque filhos já não vai ter de certeza, eventualmente nem plantar mais árvores, mas livros, sim, enquanto puder e a competência não lhe falta para isso.

 

… Rosas em Agosto

 

Simbologia da Rosa

 

A simbologia é uma das linguagens que nos dá chaves para a abertura de portas que nos conduzem ao mundo dos sonhos, do oculto e do sagrado. É um instrumento fundamental para aqueles que já despertaram para a necessidade de “ver além” e, por já não se contentarem com rótulos e aparências, precisam de um entendimento mais profundo da realidade, pois sabem que a vida tem uma essência filosófica e espiritual, e que esta essência não está exposta e sim envolta em segredos e mistérios, cabendo ao ser humano, através da consciência, desvendá-los e conhecê-los, cada um a seu tempo.

 

Uma das minhas fontes de estudo da simbologia é o livro Dicionário de Símbolos – mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editora José Olympio, 1995.

 

A Rosa Crística do ocidente, equivalente à Flor de Lótus oriental, é considerada a flor mais perfeita entre todas. Exala um perfume delicado e suas pétalas colocam- se em espiral, simbolizando o esforço de aperfeiçoamento. É a vida eterna que se renova constantemente e ressurge ao final de cada volta: RENOVAÇÃO/ RENASCIMENTO.

 

Para se chegar à rosa é necessário primeiramente subir e colher os espinhos (guardiões): CAMINHO HUMANO.

 

No seu centro, os pistilos amarelos, significam EQUILÍBRIO e SABEDORIA e surgem ao término de seu sacrifício, quando as pétalas, de fora para dentro, morrem para poder deixar finalmente, ressurgir o centro, a ESSÊNCIA.

 

A Rosa, como a Flor de Lótus, representa o CAMINHO DE AUTO-APERFEIÇOAMENTO. Elas vêm do escuro da terra (ou da lama, no caso do Lótus) e sobem para respirar o ar subtil da vida espiritual e ao abrir suas pétalas ao Sol, oferecem o sacrifício do próprio perfume em entrega: DEVOÇÃO e SERVIÇO à VERDADE.

 

Rosas em Janeiro

 

Os da minha geração lembram-se de um texto da 4.ª classe, a lenda do “Milagre das Rosas”[1], da Rainha Dona Isabel de Aragão, esposa de El-rei D. Dinis.

 

Talvez valha a pena relembrar para as gerações mais novas a trama que dá forma à ancestral lenda de que o rei D. Dinis terá sido informado, de modo malicioso e deliberado, das acções beneméritas e caritativas levadas a cabo por sua esposa, D. Isabel de Aragão.

 

O mensageiro em causa baseia a sua acusação no facto de a rainha esbanjar, em esmolas aos pobres, uma parte substancial do tesouro do reino português. Assim, e movido por essa desconfiança, D. Dinis surpreende a rainha nas suas caminhadas matinais para distribuir dinheiro e pão aos mais carenciados.

 

Surpreendida, a rainha tenta disfarçar no regaço as oferendas que tão prodigamente distribuía; mas perante a insistência do rei, Dona Isabel insiste que o que transporta no seu regaço são rosas para ornamentar os altares do mosteiro de Santa Clara.

 

Incrédulo com a resposta, o rei força-a a desvendar os tesouros que leva no seu regaço, insinuando que em Janeiro não há rosas que floresçam. Assim, Dona Isabel, perante os olhos atónitos de todos, solta do seu regaço belíssimas pétalas de rosas deixando, pois, o rei, austero e iracundo, rendido a uma evidência que decorreu frente a seus olhos.

 

O pão transformara-se em rosas, e isso não só motiva um pedido de desculpas do monarca, como funda a história deste milagre prodigioso que correu a cidade de Coimbra e contribuiu para que a rainha fosse proclamada, mais tarde, a Rainha Santa Isabel de Portugal.

 

Rosas em Agosto

 

Existe no “Milagre das Rosas” uma relação simbólica entre o pão e a rosa, uma vez que o pão é alimento para o corpo e a rosa alimento para a alma, corpo e alma num só ser. Mas, se rosas em Janeiro da Rainha Santa é um caso muito estranho, que dizer das Rosas em Agosto, de António Barbosa Vasconcelos?

 

Já passou a primavera

e no mês de agosto

não se desabrocham rosas

nem lírios,

nem açucenas.

 

Mas eis que se abrem

quais flores exalando aroma,

as pétalas dos nossos corações

a envolver os irmãos das ilhas

com todo o nosso carinho

expressando a mais cândida alegria.

 

Rosas em Agosto pode ser comparado a um bouquet de sete rosas, que é, de alguma forma, a selecção do melhor da produção poética de António Barbosa Vasconcelos (ou não seria o sete o número da perfeição) cultivada ao longo de muitos anos. No caso, as rosas são as secções do livro – (i) Canto Confidente, (ii) Minha Mãe, (iii) Do Céu Desceu…, (iv) Versos das Ilhas, (v) Devoções de Fé, (vi) Mensageiro da Boa vontade e (vii) Canto Aberto para Ti – e as pétalas, os poemas, 44 ao todo.

 

A primeira rosa é para a Mãe, a Sra. Dona Maria do Livramento Vasconcelos, vulgo Tchubinha, e as pétalas são a memória nostálgica da infância – “Dessa infância, donde vêm as imagens e as emoções que norteiam a vida” (sic.) – Fragmentos de recordações/ retalhos de experiências…

 

O Poeta português Manuel Alegre, no seu livro Alma (1995), explica essa ideia com uma metáfora que considero muito feliz: “Toda a vida: não há flecha que não tenha o arco da infância”.

 

Senhor,

quisera regressar à infância

para me acolher com confiança

nos braços da minha mãe:

para lhe explicar o que sinto,

para lhe mostrar minhas lesões e cicatrizes

e ser por ela compreendido.

 ………………….

 

Senhor:

quisera voltar à infância

para contar à minha mãe o que me aflige.

Mas Tu que sondas os recônditos da alma

e entendes o íntimo do homem,

que nunca ficas indiferente

e podes acalmar as ansiedades,

aceita o peregrino

que se lança nos Teus braços

e Te deseja um Confidente!

 

Segue uma outra rosa com 7 pétalas, essa também para a Mãe.

 

Três pétalas se desprenderam

de um horizonte incógnito.

Transportadas por uma brisa profunda,

elas se fizeram rodopiar

na máxima doçura.

………………..

 

M–ISTÉRIO é o nome de uma delas,

……………..

A–MOR se chama a pétala,

………………

E–TERNIDADE é o nome da terceira,

………………

pelas letras da palavra Mãe!

 

As restantes 5 rosas do bouquet são dádivas de um ser que procura viver entre a espiritualidade da rosa (“Do Céu desceu…”, “Devoções de Fé”, “Mensageiro da Boa Vontade”), a materialidade do pão (“Versos das Ilhas”) e o reconhecimento/manifestação de afecto (“Canto aberto para ti”), cujas pétalas são dedicadas a António Barbosa da Silva, Primo Poeta; Oswaldo Osório, Amigo e Compadre Poeta; Margarida, Esposa, pelo 50.º Aniversário de casamento; e Tia Ilda, Rosa Centenária.

 

Feita a entrega da encomenda, as minhas mãos ficaram com o cheiro do perfume das Rosas de Agosto.

 

___________ 

[1] MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962], Volume IV, pp. 291-294.

 

 Manuel Brito-Semedo

 

 

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2 comentários

De Lidia Vasconcelos a 30.03.2017 às 22:04

Um abraco bem grande e muito obrigada pela apresentacao desta obra. Quisera eu voltar a minha terra e poder abracar o meu pai neste dia tao desejado por nos, seus filhos. E ai do Carlos Elias que nao se lembrasse... :-) havia tambem de se ver comigo. Obrigada tio, de coracao! 

De Carlos Elias Barbosa a 31.03.2017 às 09:40

Obrigado, tio Brito. Devo dizer que foi genuíno, brilhante. Nāo poderia ser de outra maneira. Acima de tudo, a amizade. Está explicada a razão pela qual eu não poderia me esquecer dos elementos mais importantes para a festa. 
Rosas em agosto é, sem dúvidas, um livro que preenche. De poesias profundas. E a apresentação que temos aqui dá-nos uma vontade enorme de visitar este livro vezes sem fim.

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