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São Vicente de Cara para o Futuro

Brito-Semedo, 27 Jan 17

 

Porto Grande - Foto Cecílio Lima.jpg

 Foto Tchitche Lima

 

A mitologia romana teve em Jano, o deus das portas e das passagens, que deu nome ao mês de Janeiro, o primeiro mês do ano e, por conseguinte, o mês de passagem de um ano para o outro, do passado para o presente e que anuncia o futuro.

 

O deus Jano é representado por um corpo com dois rostos, um, olhando para a frente, vigiando as entradas, e outro, olhando para trás, conferindo as saídas. E é nesta dupla perspectiva de Jano que, neste dia de aniversário de São Vicente, 555 anos, se deve pensar a cidade/ilha e reflectir sobre a sua vocação, face aos desafios futuros.

 

Êss ê qu’ê Mindelo nôs querido cantim

Terra que Deus derramá sê ligria

Terra de B.Léza, terra de Salibana

Êsse ê que’ê São-Cente coraçon de Cabo Verde

 

Mindelo

……………………………….

Deus ta dá-no vida e saúde

Pâ n’oío-be na bó franco progresso

 

JOTAMONT (1913 – 1998)

 

Porto Grande - Foto Hélder Doca.jpeg

Foto Hélder Doca
 

São Vicente, Percurso, Adversidades e Conflitos

 

22 de Janeiro de 1462, o dia da descoberta de São Vicente pelo navegador português Diogo Afonso, é a “hora inicial” quando “começou a cumprir-se / este destino ainda de todos nós”, na expressão poética de Jorge Barbosa, a propósito do “prelúdio” destas ilhas.

 

Por quase quatro séculos, São Vicente ficaria desabitada e durante muitos anos relegada ao esquecimento.

 

Em 1795 iniciou-se o seu povoamento, tendo então chegado os primeiros colonos a São Vicente: vinte casais e cinquenta escravos, trazidos da ilha do Fogo. Uma dúzia de barracas e cabanas foram então erguidas no local onde hoje se localiza a Pracinha da Igreja, constituindo a Aldeia de Nossa Senhora da Luz.

 

Em 1819, não tendo São Vicente mais de 120 habitantes, o governador António Pusich (1818-1822), apercebendo-se das potencialidades do Porto Grande, traz mais 56 famílias de Santo Antão. Sonhando com a criação de uma cidade, rebaptiza a povoação com o nome de Vila Leopoldina, em homenagem à Maria Leopoldina de Áustria, esposa do príncipe D. Pedro, herdeiro do trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

 

Em 1838, a companhia inglesa East India estabelecia em São Vicente o primeiro depósito de carvão, ao mesmo tempo que na metrópole o Marquês de Sá da Bandeira decretava que a povoação na baía do Porto Grande adoptasse o nome de Mindelo, em memória do desembarque do exército expedicionário de D. Pedro IV nas praias perto da localidade do Mindelo, em Portugal.

 

A partir dessa altura a economia da ilha passa a depender, quase na sua totalidade, das actividades relacionadas com o Porto, principal fomentador do comércio da região. São Vicente enche-se de oficinas de toda a espécie. A vida fervilha por toda a ilha.

 

Mindelo torna-se num importante centro cultural agregador de culturas dos mais diversos pontos da Europa e da América do Sul, com especial relevo para a música, a literatura e o desporto. São Vicente conhece uma hegemonia que contrasta com as outras ilhas do arquipélago.

 

Seguiu-se, a partir de 1930, a decadência do Porto Grande e, na sequência, o declínio da ilha.

 

São Vicente, de Cara para o Futuro

 

O Censo de 2010 dá conta que a ilha de São Vicente tinha uma população de 76.107 habitantes. Desses, 69.904, ou seja, pouco mais de 90%, vive na cidade, numa área total de 72 km², o que faz do Mindelo um dos espaços mais densamente povoados do país (970,88 hab./km²). Ainda segundo fontes do INE, a taxa de desemprego em 2012, era de 28,9%, ou seja, muito superior à média nacional, de 16,8%.

 

Para uma população com esse perfil e apesar deste quadro pouco animador, São Vicente tem de ter a cara virada para o futuro e não olhar para o passado com nostalgia ou para o seu umbigo como o centro do mundo.

 

É preciso pensar-se a ilha sobre o que se quer dela a curto, médio e longo prazo, o que propor, que recursos são necessários. Urge reflectir sobre as decisões que se está a tomar, como elas impactarão as novas gerações, com que olhos as futuras gerações as verão e como julgarão as gerações de hoje.

 

Algumas sociedades indígenas do continente americano diziam não tomar decisões até consultar a 7.ª geração. Por outro lado, defendiam que não se deve considerar a terra, o território, como "nosso", mas como um empréstimo dos nossos bisnetos. E como todo o bem que foi cedido por empréstimo, precisa ser bem cuidado, aprimorado e devolvido em bom estado; de preferência em melhor estado do que foi recebido.

 

São Vicente, Inédito pode ser viável

 

Embora não sendo economista, a minha contribuição é no sentido de reflectir sobre a economia do conhecimento, à semelhança do papel que foi exercido pelo Liceu Nacional no passado, de que se comemora o seu centenário, lugar que é hoje ocupado pela universidade no desenvolvimento de São Vicente e do país.

 

Existe a necessidade do reforço da instituição de ensino superior público na região norte do país para dar uma resposta de proximidade a todas as ilhas do norte e do barlavento: Santo Antão como ilha agrícola e turística; São Vicente como ilha do Porto Grande, da pesca e do turismo; São Nicolau como a ilha das pescas, da indústria conserveira de peixe, agrícola e turística; Sal como ilha de mar, aeroporto e turismo; e Boa Vista como ilha de mar e turismo; será de se pleitear por uma escola forte, com qualidade, com diversos níveis de formação, desde a profissionalizante à investigação, que atenda às suas vocações e especificidades socioeconómicas e culturais.

 

Nesse propósito, uma Universidade Pública na região norte do país precisaria ser dotada de autonomia administrativa, financeira e científica, constituindo-se numa espécie de Pólo de Desenvolvimento Tecnológico em associação com o Instituto do Mar e da Meteorologia (com eventual junção do Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas e o Observatório Oceanográfico de Cabo Verde), constituindo-se num Campus do Mar.

 

Na verdade, a política de expansão da Universidade Pública teria como ponto de partida as áreas definidas pelo Governo como estratégicas para o desenvolvimento sustentável do país e, como compasso, os indicadores de crescimento da população, em particular, da população estudantil que termina o ensino secundário.

 

Toda essa capacidade formativa e de prestação de serviço, existente e potencial, com laboratórios e equipamentos sofisticados, adquiridos no âmbito da parceria internacional, e oficinas relativamente bem apetrechadas, poderia ser rentabilizada pensando nos estudantes dos PALOP, como acontecia quando era Centro de Formação Náutica, e nos países da CEDEAO.

 

Apesar dessa capacidade do ex-ISECMAR, parece não existir internamente uma cooperação efectiva entre as empresas das áreas referenciadas e a Universidade Pública, parecendo caminhar em linhas paralelas ou estando de costas viradas. Um exemplo é o Parque Tecnológico do Lazareto para o qual a universidade poderia contribuir com capacidade técnica para a sua viabilização.

 

Em conclusão, a política de expansão da Universidade Pública na região norte, poderia passar pela concentração da sua missão de ensino e investigação nas áreas definidas como de suporte ao desenvolvimento, nomeadamente, nas áreas do Mar, TIC, Energias, Engenharia Civil, Ciências Agrárias e Ambientais, deixando as outras áreas para as Instituições de Ensino Superior Privadas, e pela criação de condições de acolhimento de estudantes da região do barlavento, de todo o país e da costa ocidental de África.

 

Os resultados poderão ser grandes ganhos para a economia da ilha, para a região norte e para todo o país.

 

Já nos acostumamos com a ideia de que certas coisas são impossíveis de acontecer. São os tais “inéditos viáveis”, expressão cunhada pelo educador Paulo Freire para se referir ao futuro a ser construído. Nunca se fez, mas poderá existir!

 

 

Manuel Brito-Semedo 

 

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1 comentário

De Arsénio de Pina a 27.01.2017 às 21:10

Apreciei imenso o artigo S. Vicente de cara para o futuro e muito particularmente a entrevista televisiva do amigo Brito Semedo, por ele estar de acordo com o facto de todo o intelectual ter como preocupação básica dizer a verdade e expor as mentiras, isto é, exercer a sua responsabilidade através da racionalidade e do exercício da coragem e integridade. Só é pena essa responsabilidade assumida por Brito Semedo, e por bem poucos intelectuais da nossa praça, não ser altamente contagiosa, até porque passámos a viver num Estado não totalitário, o que permite posturas contrárias ou cépticas sem temer pela integridade física ou outra, nem por retaliações drásticas do poder estabelecido. O intelectual, citando Chomsky, só atinge importância histórica quando actua à margem do poder estabelecido.

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    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

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    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

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