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Senhôra, não...!!! – Estórias

Brito-Semedo, 1 Ago 15

 

Bote.jpg

 

 

Boa tarde, Lalela, tud drêt ma bô? Naquele outro fim de semana fiquei à tua espera lá na Comp Nov para ver aquele joguinho, rapaz!


Foi um bom jogo para um jogo de reservas, Shell contra Micá, deu empate 4x4 parecia gol a gol. Linha de Cadémca tem lá uns dois bons rapazes, mas sabes como são quês mosse de Micá, sempre na brincadeira, parece jogo de d'zinfada.

 

Quem encontrei lá foi Sr. Lilin. Diazá não via ele, ainda está rijo e sempre a gritar pâ Shell... como ele diz, ele era director geral... estória de cabeça leve. Passava o dia sentado lá na porta de Shell, na rua d'Praia a dar orde pâ esquérda, orde pâ dreita, fazendo estivadores dar rizada, mas sempre divertia aquela gente durante quel traboi duro.

 

Rapaz, agora, lembrei-me daquela estória que contavam, daquela vez que ele foi servir de tist'munha de seu sobrinho, Zizin d'Paúl, que era negociante de Baía, mas mas conhecido por abastecer tud butquim de Soncente daquel bom grog, passod de contrabond, lá pa zona de Matiota, para fugir aos guardas d'Cuptania, que estavam sempre atentos para apanhar algum passador de contrabond, principalmente grog... e grog de Zizin era trap'tchod lá na Paúl mesmo.

 

Tribunal.jpg

 

Zizin tinha três bote de 10 remadores, mais capton, que iam para Sintanton e trazia tudo casta de negócio. Queijo, pom d'caldeira, banana e bitche também. Trazia muito pelada para vender na plurin d'virdura e cabritos, também. Mas na altura de Lua Nova era semana de passar grog... falta de Lua dava bom jeito e em vez de descarregarem lá na caise d'alfândega, levavam para zona de Matiota, ou davam volta para descarregar na Jon d'Ebra e até Salamansa, d'zid...

 

Conta-se que naquela noite, mar estava rum, rum aquelas noite de mar d'Canal... que faz nufragar qualquer um, ondia quase engolia os botes, que um dos botes encalhou na ponta de Jon Riber. Comandante de guarnição de Jon Riber é que veio com milícia para ajudar a tirar gente de mar... teve de fazer relato da ocorrência e bote estava registado na nome de Zizin... deram parte na Cuptania e intimaram Zizin para aparecer para fazer auto de notícia mais um candad de papel azul de 25 linha, com carimbo e trapaiada por lá, com sinatura reconhecida e tud inquanto.

 

Zizin teve de procurar tistemunha de abonação mas como ele tinha mau feitio e era passador d'pau, na falta de melhor, deu seu tio, nhô Lilin como testemunha abonatória - aquelas tistmunhas que só vai dizer que sim sr., que conhece flano de tal, que é fidje de gente dret, respeitador, aquelas coisas que só mesmo justiça é que acredita - avisando logo ele, que era só para responder pergunta de Sr Dr. Juiz, dizer a verdade, que do resto, tratava ele. Avisou também que na tribunal não havia história de falar crioulo, era lugar de autoridade e de respeito. Que nhô Lilin tinha de falar seu melhor portguês, gramaticalmente.


Nhô Lilin ficou perturbado... falar purtguês, tud bom filho de Stº. Anton fala... é só falar um c'zucuc más devagar. Mas problema era, aquele gramaticalmente, que ele já não se lembrava de ouvir falar quando esteve lá na escola de Menina Perpétua onde andou, mas que não conseguiu tirar 2.º grau, por via de uma febróna que quase matava ele. Até dizem que que foi esse febre que deixou ele de cabeça leve.

 

Bom, dia de julgamento chegou e nhô Lilin vestiu sua mortaia. Seu fato preto, camisa branca e até calçou sapot, mas desistiu, que naquela mania de usar só samatá, pé tinha dado de si, que já não cabia na sapot. A calça do fato estava um pouco larga mas com o cinto, ele sacornou a calça bem sacornód na cintura e saiu cedo para não chegar atrasado. Ficou, depois de passar na Nhô Anton Spater, para ver se punha o sapato na forma, para alargar um bocado, pelo menos para não apertar a dedona de pé quando morresse.

 

Depois daquelas cerimónias todas de tribunal entraram todos para a sala e sentaram-se, até que o oficial mandou levantar que Sr. Dr. Juiz estava a entrar. Entrou, era um Dr. Juiz que tinha chegado havia poucas semanas a Soncent e nhô Lilin ainda nem tinha visto ele direito. Só sabia que ele era muito de mania de cumprir lei e mandar para Furtin sem pensar duas vezes. Dizia sempre que as leis da Pátria eram para se cumprir, do Minho a Timor, e aplicava sentença sem levantar cabeça de uma data de livrónas que tinha pa diante dele e que lia de um para outro dizendo mais números de artigo tal e tal, referente a artigo tal e tal, que só mesmo de pedra de conta para saber somar bem, que gente ficava a perceber qualquer coisa. Só mesmo:


- Condena-se o réu a tont dia de prisão ou tont palmatoada.

 

Depois da leitura do relato de ocorrência, Sr. Dr. Juiz perguntou a Zizin se ele era culpado de contrabónd, e Zizin disse logo que não, pois não havia prova de que trazia grog pois garrafãos tinha dód na pedra e não havia prova de contrabónd. Sr. Dr. Juiz perguntou se tinha tistmunha... tinha sim, nhô Lilin.


Agora nhô Lilin estava dentro de sua mortaia a rever suor pa tud ponta de corpo, até na sua natureza d'om, que ele sofria de calor e andava sempre sem roupa d'boxe, também por via de sua natureza ser forte - conforme dizem - que até meninas d'vida fugiam dele sima diabo da cruz paquê elas ficavam escaderód depois de fazer serviço ma nhô Lilin. Diziam que era mais folgód fazer servintia num vapor que na nhô Lilin.

 

Sr. Dr. Juiz olhou bem para nhô Lilin e perguntou:

 

- O que é que a Sr.ª testemunha tem a declarar?

 

Nhô Lilin regalou os olhos, deu pégáda na sua natureza e disse alto e bom som enquanto agitava o volume da mesma:

 

- Senhôra non... mi, Senhôra? Mi mi non!!! Mi, mi é hom que ta b'stí calça, e Óçê oá, Óçê sei lá fora que no ta falá, agorinha més... Óçê bêm, Óçé toá...

 

Gargalhada geral na assistência que foi necessário Sr. Dr. Juiz dar umas boas martelada para impor ordem ameaçando mandar evacuar a sala..

 

Sr. Dr. Juiz pegou no seu martilin deu duas pancadas na mesa e disse:

 

- Por desrespeito a este tribunal, condena-se a Sr,ª Testemunha a cinco dias de prisão, sem direito a recreio. Está terminada a sessão e após cumprimento da pena será de novo presente a este Tribunal para prestar depoimento. As Leis da Pátria são para ser cumpridas, do Minho a Timor!

 

Polícia prendeu nhô Lilin e levou para Furtin e na semana seguinte, trouxeram nhô Lilin directamente para o tribunal. Entretanto, já tinham avisado o Juiz que nhô Lilin era assim, como dizer, não entendia muito bem o português, pelo que, desta vez, a pergunta já foi feita de outra forma:


- O que é que o Sr. tem a declarar a favor do réu?


Nhô Lilin, pigarreou e disse:

 

- Sr. Dr. Juiz, faz favor de suplinar meu subrin, muito bem suplinod, que eu estou farto de dizer pra ele pra cabar com essa estória de contrabond de grog, que inda puriba ele é uzer e vezer na trênçêl só pa g'nhá mas d'nhér...

 

Zizin foi condenado a seis meses de prisão com arresto dos botes e pagamento de multa... boa testemunha.

 

Quando já fora do tribunal perguntaram a nhõ Lilin se era assim que ele era testemunha abonatória, ele, encolheu os ombros e disse:

 

- Zizin el'nê d'zém, pam d'zêss só verdade?

 

Oeiras, 2015/07/08
D'Joe

 

 

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4 comentários

De João Sá a 03.08.2015 às 04:38

Bom dia Estimado,


Adorei a Estória e achei que daria uma boa leitura para início de semana, 

O post está em destaque no "Cenas na net" na homepage do SAPO Cabo Verde (http://sapo.cv).

Relembro, nunca é demais, também para quem o segue, que poderão sempre ver o histórico dos destaques na homepage dos Blogs: http://blogs.sapo.cv/.

De IVEN a 03.08.2015 às 08:28

Muito bom. Gostei 

De Helena a 07.08.2015 às 12:59

bom texto, de leitura dificel mas morri de rir

De Cent a 05.12.2016 às 02:24

Parabéns, texto muito bem escrito e com um humor agradável.

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