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Sendo nós originários das ilhas e vivendo em meios pequenos e, convenhamos, acanhados, onde a relação de parentesco é uma teia emaranhada, por vezes complexa, sem a possibilidade de anonimato e onde a vida e as estórias das pessoas e das famílias são praticamente do domínio público, os leitores são facilmente levados a identificar as narrativas e as personagens de qualquer obra literária, forçando-as e ou colando-as mesmo a pessoas concretas e a factos do seu conhecimento. Chamo a este tipo de personagens de “personagens vivas”, porque autênticas, podendo existir fora da obra e com elas tropeçar-se na rua, salvo seja.

 

 

Sobre meios pequenos, meios grandes, meios acanhados, recomendo dois belíssimos textos de Manuel Lopes – Os Meios Pequenos e a Cultura, Açores, 1951[1], e “Reflexões sobre a Literatura Cabo-verdiana ou A Literatura nos Meios Pequenos”, in Colóquios Cabo-verdianos, Lisboa, 1959[2].

 

Embora se saiba que a criação literária é um produto da imaginação, convém dizer que ela é feita de reminiscências que a ligam à realidade, experiências directas e às colhidas em relatos orais ou escritos fornecidos por outrem. Assim, a palavra invenção não tem um significado absoluto já que nada se traz do nada.

 

A personagem principal do Sobrevivente é em si próprio um signo pleno, indexivo e referencial – António Aristides da Fonseca Pires – que nos remete para a história política do país e seus Presidentes da República, ainda que não tenha acontecido por essa ordem, que estrutura a narrativa.

 

A estória do Doutor Fonseca Pires é apresentada como a estória do homem cabo-verdiano, a “biografia de um crioulo” e sua sina – de Antoninho de Dona Lígia ao mais alto Magistrado da Nação – “um sobrevivente de muitas fomes, carestias e ameaças mil, sem recursos próprios”, que se confunde ou é confundida com a estória de pessoa conhecida e identificada.

 

“Sem acesso a uma bolsa de estudo e estando-lhe vedada a entrada para a função Pública, opta por emigrar para São Tomé e Príncipe, sob contrato”, muda-se depois para Angola e dali para a Escandinávia, mais propriamente, a Suécia, onde obtém o grau de Doutor em Ciências Políticas. De regresso às Ilhas Afortunadas e depois de ser Burgomestre da sua cidade e Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário numa capital da Europa, candidata-se à Suprema Magistratura da Nação.

 

Tinha sido assim também com o romance anterior Silêncio Cúmplice, 2014, cuja personagem principal e trama, crime de um membro do governo, é a ficção de factos e acontecimentos conhecidos, mas o leitor vulgar convence-se que essa personagem é copiada daquele modelo real.

 

O facto de se alertar explicitamente de que “esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com factos – pretéritos, presentes ou futuros – é mera coincidência”, reforça ainda mais essa ideia de “personagens vivas” e, longe de desestimular essa associação suscita ainda mais essa colagem e convicção. Chega-se a questionar muitas vezes se o que se lê é descrição de uma realidade ou ficção..

 

Com essa declaração o autor procura salvaguardar-se, mas ficcionar sobre factos e memórias recentes em meios pequenos e acanhados tem dessas, irrita alguns e desagrada outros.

 

Com este Sobrevivente estamos perante um romance de personagem, uma modalidade culturalmente prestigiada, em que o Doutor Fonseca Pires é o eixo em torno do qual gira a acção e em função do qual se organiza a economia da narrativa.

 

Convenhamos, há personalidades que, pela sua história e percurso de vida dão um livro ou mesmo um filme!

 

As epígrafes “Biografia de um Crioulo”, Morna de Manuel d’Novas; “Hora di Bai”, Morna de Eugénio Tavares; e “Sina de Cabo Verde”, Morna de Gabriel Mariano e Jacinto Estrela, Parte II, esboçam pistas de leituras no plano semântico e pragmático sobre a infância e a juventude do protagonista, a vida na emigração e o seu regresso à terra natal, narradas em flash-back, em jeito e na técnica do filme da sua vida em retrospectiva.

 

A estória começa de uma forma cativante, uma eleição presidencial num ano de todas as eleições – legislativas, autárquicas e presidenciais – em que o Doutor Fonseca Pires, octogenário, é um dos candidatos e sai vencedor logo na primeira volta.

 

O assalto e a agressão ao Doutor Fonseca Pires na madrugada das eleições, quando regressava a casa, deixa-o ferido, ultrajado e em estado do coma.

 

Perante essa situação, o Mandatário Nacional tem um desabafo: Outro Tancredo Neves! Referindo-se à maior das figuras políticas do período em que o Brasil era governado por generais. Tancredo Neves (1910-1985), eleito presidente da República, adoeceu e só entrou no Planalto morto.

 

Já agora, e num à parte, não deixa de ser irónico o senador mineiro Aécio Neves do Partido da Social Democracia Brasileira, candidato às Presidenciais do Brasil de 2014, adversário de Dilma Rousseff, presentemente no centro do furação político que grassa o Brasil, ser neto de Tancredo Neves!

 

Segue-se o flash-back da vida de Antoninho de Dona Lígia.

 

120 dias depois de sair do coma, Doutor Fonseca Pires desaparece do Hospital quando ia ser apresentado a uma Junta Médica. A não tomada de posse do Presidente Eleito e sua morte levantam questões não apenas de ordem constitucional mas, sobretudo, de segurança, ou da falta dela, e da violência gratuita numa sociedade dita da morabeza.

 

Esta obra é dedicada aos “sobreviventes das ilhas que, sem nunca esmorecer, dão o melhor de si para a realização dos seus sonhos de vida”. E os Sobre-viventes são a Sobrinha, o Director da PJ, o Director do Hospital Central, os meninos que viram o crime … e todos os cabo-verdianos que lutam no dia-a-dia para que este país exista, seja seguro e progrida.

 

Um livro para se ler de um fôlego, numa leitura agradável e cativante. Recomenda-se.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

__________

[1] Manuel Lopes, Os Meios Pequenos e a Cultura, Açores, 1951, in Manuel Lopes. Rotas da vida e da escrita, Lisboa, Instituto Camões, 2001.

[2] Manuel Lopes, “Reflexões sobre a Literatura Cabo-verdiana ou A Literatura nos Meios Pequenos”, pp. 1-22, in Colóquios Cabo-verdianos, Lisboa, Junta de Investigação do Ultramar, Estudos de Ciências Políticas e Sociais, 22, 1959.

 

 

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