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Dança de roda na Praça Nova, Mindelo. Foto Zepatta, Out. 2014

 

 

Tem uns dias que venho estando ardigod*... desde dia de Natal.

 

Sabes Lalela, Natal hoje é festa de gente bronque, antes, era festa de pobreza, pois se até Noss Sr. Jesus Criste era pobre!!... mas deixa pra lá.

 

Como te ia dizendo, tenho estado ardigod* rapaz por causa deste Sonsilvestre.

 

Desde que nasci que Sonsilvestre é que era festa lá de casa.

 

Basta que Vuzinha, que como tu sabes, era runha que nem faca de c'sinha, depois do Natal ficava mansinha que nem cabrit, a pensar na festa de Sonsilvestre. Desde fim de Novembro que todos os dias, depois de jantar, Vuzinha ia para casa de nhô Lela de Barronque, onde ela e o seu grupo se encontravam. Depois de ouvirem o noticiário no rádio a pilhas de nhô Lela, puxavam dos seus instrumentos e ensaiavam sobre as ordens de nhô Lela, para que tudo saísse afinadinho, na prima d'viola, regado com um pontcinho, que ajudava a clarear a voz.

 

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Recordai. Foto Zé Patta, Dez. 2014

 

Dia 31, depois dela chegar da casa daquela purtuguesa onde ela trabalhava, ela chegava logo a dar ord pa Mamã... ò Bioca, tratá de po quel jantar na lume, que hoje é dia de "flestria"*...

 

Depois corria para o quintal e ficava nú crã como sua mãe Mari dos'Onje a trouxe ao mundo e com uma celha de água fria, ela tomava seu banho. Depois, ia à sua mala onde ela guardava aquela roupa, que ela sempre dizia que seria a sua mortaia, e vestia-se com todo o cuidado para evitar qualquer vinco ou sujeza. Punha uma boa dose de banha de cheiro no cabelo, fazia duas tranças, para depois engolir duas colheres de cathupa fresque com uma cavalinha frit e ia logo logo, para casa de nhô Lela de Barronque.

 

Lá, onde já se encontravam, também, os amigos, tocadores de violão, Nhô Xico de Nh'Joana d'Bia, nhô Bertol de Capitania e o Djidjê de Mari Penha, com o seu cavaquinho, ela e nh'Armada de Maderal que levavam os seus "recordai" que só servia naquele dia, para acompanhar os tocadores e marcar o ritmo enquanto elas, boas cantadeiras iam cantando as Boas Festas.

 

Nós, meninos, nesse dia tínhamos autorização para sair e íamos na roda dos tocadores e das cantadeiras, pois gentes de morada, nesse dia davam sempre um pão doce, uma fatia de queque ou uma pirinha das'ilha. Alguns davam também um copo de orange e para os tocadores e cantadeiras, davam um cruzod, depois dos votos, quando gente chegava na porta de casa para dar Boas Festas... Vuzinha, nesse dia tomava o seu pontche, bem t'mod, que ela dizia que era para clarear a voz, mas eu sempre me pareceu que seria por qualquer outra coisa...

 

Só no outro dia, à conversa com Mamã, e falando precisamente desses tempos, Mamã me disse que Vuzinha fazia essa festa toda no dia de Sonsilvestre porque foi nesse dia que ela tinha sido p'tode na munde por um daqueles comerciantes manhente, de morada, daqueles que andavam de cabelo lustroso e água de cheiro - pai de mamã - que por vergonha, nunca deu nome pra ela, embora, enquanto viveu, deu sempre mesada para Vuzinha e deu escola para Mamã... uma vez, deu-me uma nota de 20$00, mas como Mamã sempre disse para não aceitar nada de gente estranha, eu sai correndo e fiquei até com medo dele...

 

Depois, quando pit tocava na Baía, Vuzinha ia até ponta de praia e lavava-se na água d'mar, como ela dizia para limpar do Ano Velho e entrar bem no Ano Novo... e logo pela manhã do dia 1 de Janeiro, lá ia ela, na frente da Banda Municipal a calcorrear as ruas de Mindelo, a dar as Boas Festas a todos, ricos e pobres, naquela sabura que só Soncente tem, na dia de Ano Novo...

 

Eu sou mesmo neto de Vuzinha que pa mim, Sonsilvestre é que é festa...

 

Boas Festa Lalela, bons One, Deus tchegon ote One com dia de hoje, com merecimento, maior gosto e alegria.

 

Mi é que é Jorge de má consciência, ondê c'um bá tira mais e deixa menos... Sonsilvestre é sabe...

 

Boas Festas e um Bom Ano para todos.

 

- Djô Banha

 

Oeiras, 2014/12/27

 

 

___________ 

*ardigod - agitado;

*flestria - festa desmedida;

*queque - bolo;

*pirinha das'ilha - rebuçado de fabrico local;

*gentes de morada - habitantes da cidade

*recordai - instrumento artesanal, feito de um pedaço de madeira, pregos e tampas de garrafa de refrigerante, que produz um som semelhante ao pandeiro, usado para acompanhar o cantar das Boas Festas (cantar as Janeiras);

*Sonsilvestre - São Silvestre;

*manhente - guloso;

*água de cheiro - água de colónia

*p'tode na munde - forma popular do crioulo de Mindelo para referir o acto de perder a virgindade, de uma forma menos "digna";

*pit - apito; 

 

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4 comentários

De Djack a 30.12.2014 às 21:03

Texto fotográfico... de fotógrafo. A gente não viu aquilo de que ele fala mas depois de o lermos ficamos a ver tudo. Texto a condizer com a data, que se agradece ao homem da objectiva e ao dono do blogue.


Um braça para ambos,
Djack

De Joaquim ALMEIDA a 23.01.2015 às 20:27

E bom lembrà sempre e sobretudo ness época d ' fim d ' one nôs tradiçao .Na época dos ( 70 80 ) houve uma tendência em influencia a memoria do caboverdiano empurrando o para uma; priguiça mental a nao se preocupar com os seus costumes sua tradiçao ,;em suma ; o valôr essencial do caboverdiano a sua cultura!..Felizmente essa tendência vai desaparecendo dia por dia , one por one !..Um feliz one pâ nôs tud e que nôs pove tâ lembrà sempre sê tradiçao !.;Um Criol na Frânça ;Morgadinho !..

De Valdemar Pereira a 31.12.2014 às 12:12


Um manera d' lembrà Dia de S.Sulveste màs sabe, qonde nô tava morà na Olte de Muralha, sentode na porta de casa, loe a lode de Nha Gaida de Papachim e de Nhô Delfim, c'oie na Baia d'Porte Grande ta uvi pit d'vapor na meia nôte justim.
Tcheu gente tava fca la até pit cabà.
Estranger ê sabe mà nôs S. Sulveste era màs sabe.
Boas Festa, Bons One c'vida e saùde.
Braça pa tude gente, grande e piqnim.

De Adriano Miranda Lima a 01.01.2015 às 22:06

Texto muito bem cutchid e peneirod  para noite de Sonsilvestre mindelense, tal como quel midje daquel cuscuz quent cujo cheiro invadia a noite olorosa da festa rubra. Estão aqui o peso e a medida certas para a evocação da genuína festa popular mindelense da noite de S. Silvestre.
Adorei ler, Djô.

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