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Não podendo oferecer uma rosa a cada cabo-verdiana, deixo a cada uma este meu texto com o qual brindo um Março de amor.

 

Fátima Bettencourt

 

 

 

Semeei na poeira árida do tempo para colher um poema ardente. O meu chão escalavrado foi fecundado pelo sémen de um amor eterno, sobrevivente de décadas de pó, guerras, utopias, revoluções, sonhos, ideais, hinos, bandeiras, cravos, espigas, ameaças atómicas, derrocadas, muros, cortinas, vulcões, maremotos, dilúvios, secas, fomes, desolação, dor e morte.

 

A terra prenhe me devolveu, embrulhado no poema, um arco-íris, um buquê de mal-me-queres, uvas di Chã di Mostero, passarinha di pena azul, néva detado na terra de Eugénio, ternura, mormaço, sol e maresia. Foi a festa! É a festa que partilho com as mulheres do meu país.

 

Manhã cedo saio à rua e no orvalho sereno das plantas reconheço uma força cósmica e me invade a certeza de que faço parte dela.

 

Manhã cedo, enquanto caminho pelas bermas, a vida me anima e me segreda madrigais.

 

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Tijolo - Crónicas

Brito-Semedo, 9 Nov 15

 

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Há por vezes alguma dificuldade em definir a crónica. Por isso ela tem tantas definições, pois que cada um lhe inventa uma, todas em competição de originalidade. Mas a crónica não passa de um tijolo e não se veja nisso nenhum sinal de menosprezo, pelo contrário, eu própria sou fabricante incorrigível de tijolos.

 

Ora, tijolo porquê? Tijolo no sentido de pedra edificadora, aquela que em conjunto ergue catedrais. Não podemos negar que tijolo isolado tem muito pouca utilidade, quando muito servirá para usos menos nobres tais como tranca de porta, pisa-papéis, suporte de prateleira, enfim usos comezinhos que não dignificam mas dão jeito.

 

Mas nem sempre é assim. Um tijolo conheci eu, em Boston, que sozinho se ergueu em monumento à saudade, à identidade, à afirmação duma diáspora que galgou a pulso os degraus da integração em meio hostil.

 

Almoçava eu na Brown University onde chegara integrando uma comitiva cultural tendo como missão específica apresentar um dos meus livros de contos sobre a emigração. Numa mesa redonda, tinha do lado esquerdo Onésimo Teotónio Almeida que eu já conhecia de outros encontros e duas cadeiras à direita uma senhora forte, mulata clara, de olhar simpático e riso caloroso a quem o Ministro Manuel Veiga abraçara efusivamente à chegada ao vetusto e nobre edifício da Brown. Percebi que o apelido era Andrade e que era emigrante de terceira geração.

 

 

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Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

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