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O Seminário-Liceu de S. Nicolau

Brito-Semedo, 12 Dez 16

 

Semináriio-liceu.jpeg

 

Como cabo-verdiano e patchê refiro-me, bastas vezes, por escrito e em conversa, ao Seminário-Liceu, por variadas razões, entre as quais a de sermos o que somos, bastante sui generis, no mundo lusófono, no contexto da colonização, do povoamento e da cultura, sem esquecer que o crioulo se inventou em Cabo Verde. Digo sui generis porque o cabo-verdiano nasceu do chamado melting pot de povos de várias origens e culturas, africanos e asiáticos trazidos à força, europeus - alguns destes, cristãos-novos (judeus) com cultura e saberes, fugindo à Inquisição - num ambiente pobre que, pela irregularidade das chuvas e ausência de riquezas naturais como ouro, marfim e especiarias, não permitia a grande exploração agrícola e fixação de estruturas reinóis de domínio como aconteceu na Guiné, S. Tomé, Angola, Moçambique e Timor. A seca, a fome, o vento leste, o mar, o paludismo e a ausência de recursos naturais foram factores que condicionaram a sua existência. Outrossim, como a população de Portugal era pequena nessa época, desistiram do seu povoamento como se fez nos Açores e na Madeira com reinóis e outros europeus, e, para a sua sobrevivência, esses povos levados para Cabo Verde e deixados quase ao deus dará, condicionados pelo prazer que une os corpos e o sofrimento comum que aproxima as almas, pondo de lado preconceitos, entrelaçaram-se, criando uma nova sociedade, originando o cabo-verdiano, que não existia antes, por os descobridores portugueses terem achado as ilhas desabitadas. Como o colonialismo é a sobreposição violenta de uma cultura por outra, o que não aconteceu em Cabo Verde, primeiro por as ilhas não serem habitadas aquando do seu achamento, depois, porque a sociedade cabo-verdiana que entrementes se constituiu não o permitiu, até porque as ascensões sociais do escravo foram mais por alforrias. Como escreveu Almerindo Lessa, a miscigenação foi uma necessidade histórica, considerando o mestiço alguém que favoreceu o património genético do homem, portanto, um “método positivo na dinâmica das populações”. Por outro lado, a Igreja, para evangelizar, necessitava que as pessoas tivessem o mínimo de instrução, soubessem ler e escrever, fazer os trabalhos domésticos e a lavoura, a chamada ladinização do escravo, empenhando-se muito mais do que o poder civil nessa missão, dado que o padre formado no Seminário-Liceu, quando ia para a sua paróquia, além de ensinar o Evangelho ensinava a ler e a escrever. 

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Palacete Senador Vera Cruz.jpg

Palacete do Senador Vera-Cruz, primeiras instalações do Liceu Nacional de Cabo Verde 

 

 

Em homenagem ao Senador Augusto Vera-Cruz e ao Povo do Mindelo

 

 

1. Passou completamente despercebido entre nós a efeméride dos 150 anos do Seminário-Liceu de São Nicolau de Cabo Verde[1], cuja lei da criação foi promulgada a 3 de Setembro de 1866 pelo então ministro e secretário de estado interino dos negócios da marinha e ultramar, o Visconde da Praia Grande:

 

“Sendo uma das maiores necessidades da religião e do Estado a devida educação do clero, para o que, pela lei de 12 de Agosto de 1856, foram mandados estabelecer seminários nas dioceses ultramarinas;

 

Considerando que, pela citada lei, podem os seminários eclesiásticos suprir a falta de liceus, pois que nas suas aulas de estudos preparatórios poderão utilmente aprender os mancebos que, não se destinando ao estado eclesiástico, desejem contudo seguir estudos superiores, ou receber uma educação literária e científica;

 

Tendo em consideração o que me propôs o Bispo de Cabo Verde, e a consulta do conselho ultramarino de 24 de julho deste ano:

 

Hei por bem, em virtude do disposto na citada lei, determinar provisoriamente o seguinte:

 

Art. 1.º – É criado o seminário eclesiástico da diocese de Cabo Verde, na conformidade da lei de 12 de agosto de 1856 […]”.

 

O Seminário-Liceu de São Nicolau, que viria a funcionar por meio século, ficará registado como um dos acontecimentos mais marcantes da história de Cabo Verde. Dele partiu a “luz que mais intensamente iluminou Cabo Verde”.

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