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Tambores.jpeg

 

 

ao engenheiro Humberto Fonseca

 

 

Tropel de cavalos velozes
que fogem em pânico
ao longo de planícies ressequidas

 

rebombos
de nuvens tempestuosas

 

roncos de ondas
que rolam
erguidas em espuma
sobre os areais
das praias desertas da ilha

 

bater
rouco de pilões
pelas alvoradas

 

fragores
heróicos de batalhas
que vêm de longe
no peito do vento
bátegas
de chuva brava
engrossando ribeiras

 

enxurradas
desmoronamento de rochas
estrépidos

todos
esses ruídos e ecos

são afinal
os tambores de São João
que seguem pela estrada
a caminho
da Ribeira de Julião.

 

Vai o povo também
vai trás a dançar
a dança alucinada
do choque
violento dos abdómens

 

entre apitos
gritos
e delírios
ao compasso da toada apressada
e guerreira dos tambores.

Tocadores de tambor
no vosso caminho
parai por instante
à porta do cemitério.

Com as vossas mãos acrobáticas
e rápidas
rufai
a mais ruidosa toada
com tropéis
rebombos
fragores
desmoronamentos

tocai
para os que estão lá dentro
no fundo húmido dos covais

para as mulheres e homens
antigos das ilhas
para os que morreram cedo
para os que foram
os defensores do povo
e pronunciaram discursos políticos
que naquele tempo havia
no coreto da Pracinha

 

tocai para os antigos jogadores
do football e do cricket
das tardes vibrantes do Largo da Salina
com a banda municipal
entoando no Pavilhão
metálicas marchas triunfais.

À porta do cemitério
rufai tocadores
os vossos tambores
      sentidamente
      violentemente
para ser ouvido no fundo da terra

tocai para os trovadores
os cantadores das mornas
(dai um toque especial
rapidíssimo
secreto
no meio da vossa música
      - uma lembrança um recado
      para Salibana
      António Xixo
      Bêléza...)

 

tocai para os tocadores da viola
do violino do violão do cavaquinho
que eles eram a alma das nossas festas
e faziam lentas serenatas
pelas noites luarentas de Mindelo.

      (Ah tocadores de tambor
      não há mais serenatas
      elas foram proibidas
      e parece que até o luar
      foi também proibido...).

Tocai para os trabalhadores de carvão
na época feliz do Porto Grande
para os tocadores
de tambor como vós
para os boémios
os noctâmbulos
as mulheres de vida
das noites turbulentas do Cavoquinho
com a polícia a distribuir espadeiradas
nos marinheiros bêbados estrangeiros.

À porta do cemitério
rufai tocadores
nos vossos tambores
tensos e vibráteis
a mais desesperada toada
para os que estão fechados
no fundo dos covais.

      (Ah tocadores de tambor
      tão triste assim
      e fria é a morte
      - o fundo negro dos covais
      ou dos abismos do mar)!

Segui depois tocadores
com os vossos tambores a rufar
entre apitos e gritos
do povo a dançar
a dança alucinada
do choque violento dos abdómens
segui pela estrada
da Ribeira de Julião.

Tambores de São João
tambores de São
João tambores
de São João
tambores

de São
Jo
ã
o
.
.
.

 

in Obra Poética por Jorge Barbosa, 2002

 

San Jon.jpg

 Fotos Associação Terra Tambor, Junho.2013

 

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1 comentário

De Djack a 19.06.2015 às 21:12

Belíssimo poema do grande vate das ilhas.


Braça barbósica,
Djack

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