Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

 

Aguarela Ilha Brava.jpeg

 

 

 

TERRA DE SÔDADE

 

 

(ARGUMENTO DE BAILADO FOLCLÓRICO EM QUATRO QUADROS)

 

 

 

A Manuel Velosa

 

Nem uma lenda, nem inteira criação de fantasia, o bailado “Terra de Sôdade“, colhido directamente na vida crioula, recorta apenas um aspecto da aventura do homem pelos caminhos do mar, com seu não raro tom de desenlace trágico. É na Brava – terra de sôdade como a chamou Eugénio Tavares, o seu poeta – que decorre a cena de todos os Quadros. Na ilha pequena e aconchegada, vestida de flores e sempre enovelada em bruma, o amor, sentido íntimo da vida humilde, ascende a religioso fanatismo, justifica o trato das gentes em morabeza, prende ao encanto da terra.

 

 Porém, o sangue marinheiro pulsa ao mágico da aventura que o Atlântico acena; mais forte do que o amor, atira os homens para a distância para a luta e para a ambição em terra longe… Deixando noivas e crê-cheus, partem os moços em veleiros ágeis para as Américas… Partem para um dia voltar. No coração das moças, o sonho do regresso prometido fica ardendo em vivas labaredas e cristaliza em lágrimas este sentimento especialíssimo que é a sôdade crioula. É essa a presença ausente que intimamente vibra no canto magoado das crê-cheus, das noivas, na sua expressão mais pura, mais alta, mais nossa – a morna da Brava.

 

Porque nem sempre a fortuna sorri aos emigrantes: A vida tem seus azares… o caminho do mar é duro, traiçoeiro… E muitas vezes a tragédia surge, cobrindo das sombras os corações da ilha pequenina…

 

 

PRELÚDIO

 

 

Procedendo de pouco a abertura da cena, o arranjo orquestral do prelúdio prepara o ambiente característico do bailado.

 

Sobre um forte motivo do mar, linha de fundo de toda a composição musical, murmura e se espraia a nota crioula de adeus e separação que sintetiza o drama:

 

Si no morrê

na despedida

Nhor-Deus na volta

Ta dano bida.”

 

 

PERSONAGENS:

 

JUCA, o marítimo – TITINA, a noiva – PITRA, o amigo de Juca –GUIGUI – MOÇAS – RAPAZES – MÚSICOS – EMIGRANTES – POPULARES.

 

 

QUADRO I

 

A SENHORA DE MONTE

 

 

Abril. Vencendo a névoa, as primeiras luzes do terral. Atmosfera pesada de eflúvios em que rosas desabrocham e cardeais rubros florescem.

 

Uma fonte rústica, donde a agua vai gotejando clara e fresca. No  pequeno terreiro, sobre um banco de pedra, Titina, moça do povoado descansa da caminhada.

 

Dezoito anos, frescura, simplicidade.

 

Descalça, saia presa pelo pano de ramagens, blusa clara; sobre o colo um cordão com uma pequena cruz de ouro. O loiro quente dos cabelos avulta no lenço de vermelho vivo.

 

A moça adormece e sonha.

 

Sonha de amor. Juca o crê-cheu, o mais alegre rapaz do “Campo”, vindo há pouco da América. Titina esboça movimentos, lentamente erge-se…

 

Sobre os promeiros passos da partidura, notas suaves, envocadoras do ambiente, prepassam na melodia da morna “Senhora do Monte”:

 

“M´ba Senhora de Monte

flor de Brava

más fresquinho…”

 

E esboça os primeiros passos do bailado. Passos indecisos, sonâmbulos, de invocação e de apelo.

 

Enquanto dança não se apercebe Titina da presença de Juca, que sobreveio e a espia agora.

 

De salto pela esquerda, aproxima-se da fonte e, bailando, contrapõe aos passos dela uma mímica expressiva de mútuo desejo.

 

Surge na partitura o fio melódico do“Mal de Amor”, morna de Eugénio Tavares:

 

“Oh mal de amor

Já bo matâm,

Oh mal de amor

Já bo dixam…”

 

O ritmo do bailado acelera-se. Aparecem mais moças, que vêm à fonte.

 

Juca rodeia Titina e, baixando-se, faz o gesto de lhe depor aos pés o coração.

 

Estendendo os braços, Titina atira-lhe beijos. Prometem-se. Será para Junho – o mês das festas e das bandeiras – o casamento, porque Juca, marítimo, apaixonado do mar, partirá em breve para a América.

 

Todas as moças bailam de roda do par.

 

Notas vivas, alacres, frisam a alegria do momento. A natureza acorda no crescendo luminoso da orquestração.

 

Titina, bailando, ergue o seu cântaro cheio, Juca segue-a irradiado felicidade.

 

 

QUADRO II

 

CRÊ-CHEU C’O MAR

 

 

No Campo. É a noite. O luar da Brava dilui-se na névoa que tomba.

 

Um terreiro ladeado de pequenas árvores copadas de verde. Pelos muros próximos, rosas trepadeiras, jasmins, cardeais rubros.

 

Ao fundo entre os casais humildes, distingue-se a silhueta da capelinha de St.º António, com sua cruz sobranceira.

 

Junho – o mês das bandeiras – acolhe o casamento de Juca e Titina.

 

Na orquestra o motivo musical vivo, em que se entremeia a cadência dos tambores da coladeira de St.º António.

 

Um borborinho festivo anima o rítmo do desfile que começa.

 

Ouvem-se foguetes.

 

Músicos de pau-e-corda à frente – violões e rabecas – de um canal desemboca no terreiro o grupo do noivado com o seu garrido cortejo de companhas. Coroada de jasmins, Titina faz esvoaçar nos passos alegres o véu branco de noiva. Juca vem em traje de festa: calças largas de pano azul, colete.

 

Moças loiras do “Campo” e rapazes  morenos da companha – noivos de amanhã – capricham na variedade policrómica dos trajes e no brilho ingénuo dos adornos, em que os largos chapéus de palha da Brava, floridos, frizam a nota campesina do conjunto.

 

Pitra, moço do “Campo”, que tem nos olhos o azul do mar, companheiro de Juca, traz pelo braço a crê-cheu Guigui. O desfile do grupo nupcial, ao som da música, transforma-se, no terreiro iluminado de lanterninhas e balões coloridos, numa sarabanda movimentada de baile crioulo.

 

Diversos pares contracenam bailando.

 

Introduz-se no motivo musical o dinamismo saltante da “Polca dos Amigos Portugueses”

 

Tudo no terreiro dança.

 

Mimando graciosas atitudes, Juca e Titina encontram-se no primeiro plano. Beijam-se. Nesse momento, o grasnido arrepiante de uma ave nocturna ouve-se próximo. Uma laterna desprende-se misteriosamente e cai estilhaçando, ao lado de Juca. Agouro.

 

Há um movimento sincopado de murmurio na companha. Titina, estremecendo, pede Juca que não vá para o mar. O coração pressagia desgraça. Mas ele partirá breve. A noiva de Juca, é a crê-cheu do mar.

 

Surge na orquestração a nota do mar, em crescendo, como um apelo irremissível:

 

“Oh mar eterno, sem fundo, sem fim

Oh mar de túrbidas vagas, oh mar

De ti, das bocas do mundo, a mim,

Só me vêm dores e pragas,oh mar!”

 

Avançando para a direita , Juca ergue a noiva ao alto e desaparece com ela, bailando. Os músicos seguem-nos. Também divide-se a companha e aos pares vai saindo pelos canais que ladeiam o terreiro da festa.

 

Balões e lanterninhas bruxoleiam.

 

O motivo musical sublinha a nota transida do agouro, sob a ameaça do mar, marulhando no fundo da orquestração.

 

Há uma pizzicato dolente de notas agudas, erradias.

 

O vento ramalha as árvores do terreiro. Na quadra, aos poucos deserta, o luar, húmido, cai frio, espectral.

 

Agouro…

 

QUADRO III

 

HORA DE BAI

 

 

O cais da Furna. Ao fundo, no porto , mastros de faluchos costeiros. Alvejam as grandes velas do “Santa Maria”, que vai largar para a América.

 

O terral risca de vermelho o horizonte.

 

Preludia a orquestra a nota do mar:

 

“Oh mar eterno, sem fundo, sem fim

Oh mar de túrbidas vagas, oh mar…”

 

Começa a encher-se de gente o terreiro junto ao cais. Moços, marítimos, populares.

 

É a partida dos emigrantes.

 

Bailando, entram aos pares, dos dois lados da cena, os crê-cheus que vêm à despedida. Juca, noivo de fresco, vai deixar a terra. E como ele, outros marinheiros. Pitra, o crê-cheu de Guigui, igualmente acompanha o amigo para a aventura da terra longe. Entre os moços e raparigas destacam-se, enamorados e saudossos,Titina e Juca.

 

A recreação musical do ambiente que vive na saudade da partida, atravessa  a partidura com a evoção rápida da melodia “Senhora de Monte” do primeiro quadro.

 

O borborinho, a azáfama destes momentos de embarque transmite-se nos passos vivos dos bailarinos.Trajando calças largas de marujo, camisolas e boinas, dão já os moços o ambiente da viagem.

 

Lenços bariolados avivam os rostos das moças, cujos trajes se casam à policromia do conjunto sobre o fundo azul do porto.

 

É enfim a partida.

 

Dançando, vêm ao primeiro plano Juca e Titina.Trocam-se juras. A distância nada poderá contra tão grande amor. Juca voltará breve... Beijando-o, Titina passa-lhe ao pescoço o seu colar com a pequena cruz de ouro.

 

Outros emigrantes, bailando, despedem-se.

 

“Hora de Bai” entrelece-se na tessitura temática em notas graves, dolentes.

 

Nos gestos das moças que ficam pinta-se a dor da despedida. Braços ao alto, invocam a proteção divina para os perigos do mar.

 

Notas de adeus e ausência na partidura sobre o fundo marulhente do mar.

 

 

QUADRO IV

 

MÁ-NOBA

 

 

O mesmo cenário do terceiro quadro.

 

Tarde de Novembro. Alguns mastros de faluchos baloiçam.

 

Com ar de quem prescruta o horizonte e interroga, começam passando pela a cena alguns populares.

 

Esperam-se a toda a hora os emigrantes; há muito saíram da América de os veleiros. O “Santa Maria” regressa.

 

Expectativa ansiosa no rosto e nos gestos dos populares: há os terriveis temporais do Golfo…

 

A nota do mar na partitura. Prepassam trilhos do forte sibilar do vento nos cordames.

 

Surge de vez em quando, enterlaçada no motivo a toada do “Mar eterno”.

 

Súbito, de um cutelo ouve-se: “Selô, selô!”

 

Alegria. Estão à vista os veleiros. Vem entrando o “Santa Maria”.

 

Anima-se a cena. Correm populares de um para outro lado. Moças, rapazes do último quadro, aparecem bailando.

 

Segue-se o movimento característico do desembarque.

 

A orquestração acompanha a sarabanda alacre que é o desembarque dos emigrantes.

 

Os emigrantes e marítimos que desembarcam vêm ao primeiro plano da cena. Bailando, exibem nos passos a alegria fundo do regresso. Em gestos ondulantes, descrevem as peripécias da travessia do Golfo. Houve desgraça. O “Santa Maria” regressa desmantelado, ferido do temporal. O mar levou homens, sacrificou vidas moças à sua fúria. Arrebatado por uma onda em plena manobra, Juca foi depois apanhado moribundo.Pitra, de volta, narra o acontecido.

 

A má-noba começa a circular pelos grupos de populares.

 

Entre a nota do mar, que avulta no partitura, vão infiltrando-se motivos errantes de tristeza. Os acordes da hora ”Hora de Bai”, de Eugénio, surgem em rápidas notações que, depois, se fundem no conjunto:

 

“Se no morrê

Na despedida,

Nhor-Deus na volta

Ta dáno bida...”

 

Entrando pela esquerda da cena, Titina, de branco, a reatar o noivado interrompido, traz o seu véu que flutua ao vento. Outras moças sobraçam rosas para os crê-cheus que voltaram.

 

Ignorante da desgraça que a feriu, e na alegria de encontrar os braços de Juca, Titina baila – um bailado de pura evocação dos dias felizes do breve noivado.

 

Entre os emigrantes compadecidos, ninguém ousa perturbar essa exaltação amorosa dos seus passos.

 

É, porém, forçoso revelar-lhe a tragédia. E os marítimos avançam em dois grupos para ela, recuando de um mesmo movimento de hesitação.

 

Corresponde esse movimento às notas errantes do motivo do dolorido da“ Hora de Bai”.

 

Interrogativa, ela situa agora no centro da cena. Sobre o fundo, que se adensa de populares, Pitra, o companheiro de Juca, destaca-se bailando, a entregar a Titina o cordão com a pequena cruz de ouro arrancado ao cadáver lançado às ondas.

 

Começa a escurecer. A névoa desce.

 

Compreendendo, e louca de dor, Titina ergue-se num salto, corre pela cena, vacila e cai em síncope, de braços abertos. Está morta.

 

Moças e rapazes correm para o corpo inerte. Espalham à sua volta as rosas dos crê-cheus.

 

Escureceu quase de todo.

 

As lágrimas das raparigas descem compadecidas pelas faces. À roda do corpo da noiva de Juca, a crê-cheu do mar, apenas um foco, uma auréola, irradiando sobre a cena.

 

Agora, os passos finais do bailado são graves, hieráticos, ressumantes de tristeza. Mãos ao alto em oração, as moças todas ajoelham piedosamente.

 

No tema que domina a partitura, “Hora de Bai” em pianíssimo é um fio de lágrimas, fio dolente que atravessa a distância e parece mergulhar no Mar – o Mar que trágicamente embala o destino das ilhas crioulas...

 

O foco luminoso, à roda de Titina, vai aos poucos diminuindo, diminuindo...

 

 

PANO

 

– Jaime de Figueiredo

 

in Sep. de Revista Atlântico, n.º 3, nova série (1947), pág. 109-116

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • joão

    Amigo de Mindelo, sabe "o que é ser inventor"? Enc...

  • Sandro

    Amei esse "BAÚ" só tem preciosidade! 

  • Gilson

    Musicas muito bonitas, acho muito legal musicas ap...

Powered by