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'Terra Ocre – Da terra e do ocre'

Brito-Semedo, 13 Jul 16

  

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O extremo norte da Ilha de Santiago é um finisterra, onde os limites se transcendem entre os infinitos do oceano e do céu, e a terra se ergue em escarpadas falésias de rochas vulcânicas que ocultam intocadas praias de areia prateada. Sobre esta paisagem a minha vida acontece e encontra significado no contacto com todas as outras.


A passagem do tempo e a memória são os elementos que trabalho. Procurando a decomposição e a metamorfose. Desconstruo a acção, que a passagem do tempo exerce sobre a matéria e sobre memória. Utilizo a terra como matéria e a observação como potência criadora. As obras que constituem o corpo da exposição Terra Ocre, são imagens desse passar do tempo, dessa memória que como os caminhos não usados se vai apagando, transformando o que era real num conto recontado que lentamente se torna numa fantasia, numa lenda. A cerâmica transporta consigo a intemporalidade, talvez seja um dos poucos materiais que aguenta a passagem do tempo, contudo esse tempo marca, desgasta, fica.

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Os caminhos e trilhos marcados no chão pela passagem das pessoas, deixam na paisagem linhas e traços que observados desde o cume dos montes e do alto das falésias, revelam um conjunto de sinais que formam uma linguagem visual extremamente bela. Serpenteiam e ondulam por entre as casas, ligando os lugares, desaparecendo por vezes atrás de uma rocha ou pelo meio de um conjunto de espinhosas acácias. São misteriosas e parecem esconder segredos. Há caminhos que chegam ao destino, outras há porém que se apagam lentamente, conduzindo-nos a lugar nenhum ou a lugares que deixaram de o ser. São conjuntos de casas abandonadas, pardieiros solitários sem telhado, sem gente, abertos ao céu e ao constante e interminável passar do tempo. O contacto com a água, com o vento, com as gentes, deixa registos na cerâmica. São exactamente essas possibilidades que me atraem e fazem pensar uma obra de arte criada a partir do barro.

 

Da terra extraio o barro que trabalho com as mãos, para de seguida, talvez numa tentativa de sentir a ancestralidade da matéria pintar com o ocre. Exploro as suas tonalidades, numa transcendência que me remete para a arte mágico religiosa das pinturas e gravuras rupestres. Depois a alquimia do fogo, que faz o fumo ascender e a terra cozer, a terracota, que liberta o barro da fragilidade do seu estado crú. Levo dentro de mim todos os sons que escuto, todas as coisas que vejo, as gentes que existem e as histórias daquelas que deixaram de existir, para experienciar aquilo que não sou nem sei, porque o que verdadeiramente pretendo é transformar os padrões da realidade em vontades metafóricas e expressivas.

 

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Concebi uma série de três painéis em cerâmica, que chamei de cartografia imaginária da antropologia poética, relacionando a observação com o mundo das ideias e da criação artística. São mapas onde a minha memória antropológica se materializa em poemas visuais, recriando o imaginário resultante das deambulações, observações e partilhas que efectuo pela paisagem humana e natural do território de Trás os Montes, no finisterra do extremo norte da Ilha de Santiago.

 

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'Nhô Ku Nhá' é uma escultura composta por duas peças, divididas em quatro partes. Possuem formas antropomórficas, sendo uma representativa do gênero masculino e a outra do feminino. São sobretudo símbolos da presença humana e da humanização de um território. Utilizei duas das peças mais icônicas da tipologia tradicional da olaria de Trás os Montes, o moringo para o homem e um pote, em crioulo Jara, palavra do gênero feminino, para a mulher, o que resultou nos nomes: Nhô Moringo e Nhá Jara. Esta escultura é uma imagem das relações entre o homem e a mulher e da sua presença estabelecedora de hábitos, de usos e costumes num lugar. A identidade surge quando num determinado lugar as gerações se vão multiplicando de tal forma que se perde a noção do tempo, algo imemorial acontece, criando todo um conjunto de gestos, de formas de fazer e de entender, ou seja acontece a técnica a arte e a língua, ou seja nasce uma cultura.

 

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Um conjunto de três azulejos que representam detalhes do cotidiano, sendo estes, uma Briga de Galos, a banheira de uma vendedora de peixe, ou as expressões dos mais variados rostos das gentes. São instantâneos, momentos captados num olhar e materializados no barro. Talvez sejam metáforas para fotografias que não fiz, porque são pequenos detalhes que me ficam na memória, e de tão belos serem os esgrafito no barro e pinto a cores do ocre.


Um pote como suporte para uma intervenção plástica. Transgredi as suas formas, na busca de uma metáfora para a ideia de seca, da falta de água, da ausência de chuva.


Os espinhos dominam a paisagem, ferem o solo e quem por ele caminha. Um pote furado, a água que secou e o sangue da terra que espera de novo a abundância das chuvas metamorfoseando o sangue da seca em água da fertilidade.


Pedro da Conceição

 

 

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