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Neta e Avô França

 

 

Gostaria de começar por uma afirmação na qual acredito e que tenho ouvido, por entre várias palavras amigas de consolo, nos últimos dois meses.

 

O nascimento dos filhos é a única forma de driblar a morte. É através da família dos valores e do amor que se transmite de geração em geração, que permanecemos vivos no mundo, por muito tempo depois da nossa partida física.

 

Com esta afirmação, gostaria de vos contar uma história.

 

Em 1925, no dia 15 de Dezembro, nascia Arnaldo Carlos Vasconcelos França. O mais velho dos dois filhos do casal que viria a ser conhecido pela minha mãe e pela minha por Vovó Dulce e Vovô França.

 

Arnaldo começou por ser conhecido por Arnaldico. E porque não Arnaldinho? Porque já existia um…primo Arnaldo, também ele nascido em 1925! Perante este facto, a forma mais natural que se achou, foi chamar-lhe Arnaldico, para que de forma carinhosa, o amor começasse a ser dedicado àquele novo membro da família.

 

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Com a Graças de Deus pertenço a uma família sensata, que acabou por sabiamente constatar que Dico seria a solução ideal para uma alcunha tão pouco carinhosa.

 

Dico cresceu no seio de uma família tradicional, a mãe era responsável por cuidar dos filhos e da casa e o pai, oficial aduaneiro. Ainda em tenra idade, Dico iniciou as suas aventuras pelas ilhas de Cabo Verde, primeiro na Ilha Brava, para onde o pai foi transferido nos anos 30, depois para Boa Vista e São Vicente. Já na idade adulta, chegou a viver no Sal em missão de serviço das alfândegas naquela ilha.

 

Referi em cima, que a constituição da família e o nascimento dos filhos é a única forma de permanecermos vivos. Gostaria de acrescentar que a busca por semelhanças com nossos entes queridos é a forma de nos convencermos que quando já cá não estivermos seremos lembrados por um sorriso de uma filha, ou um esgar de um sobrinho. No meu caso com o meu avô, afirmo com certeza que esse ponto em comum era o sentido de humor. Meu avô era um assumido brincalhão daqueles que conseguem rir da própria desventura…retirar dos maiores dramas motivo para rir. E digo-vos com toda a convicção que é esta característica que permitiu ao meu avô atingir tantos ganhos a nível profissional e pessoal. A leveza de espírito que lhe foi conferida pela capacidade de tirar gozo das vicissitudes da vida, permitiram-lhe manter um espírito aberto, leve e curioso, capaz de absorver as suas vivências, a sua realidade social, o seu momento histórico…a sua vez neste mundo.

 

E é desta pessoa que vos venho falar. Para mim, mais do que um avô foi meu segundo pai. Meu avô, Dico, como gostava que o chamássemos, era o suporte da família. Era ele que mantinha a harmonia, ainda que com um jeito meio desajeitado, típico daqueles que ocupam a mente com vários assuntos, dando a entender que não se interessam por nada… quando na verdade são apenas almas inquietas cujo pensamento voa com facilidade para temas diversos. Uma Alma com um entendimento superior sobre as coisas e sempre com muita humildade no saber e sobretudo uma mente que queria acompanhar os tempos permanecendo sempre jovem.

 

Certa vez disse-me, “Sararaca sabias que os netos de José Saramago nunca o chamaram de avô? Sabes porquê? Porque a relação deles é mais próxima, não existe a imposição da sociedade que diz que netos devem temer os avós. Como vocês tratam-me por Dico, significa então que sou uma mente jovem. Significa que sou intemporal…” e eu ria-me…

 

Ele olhava para mim fingindo estar zangado e dizia: “Ka bu fazem tchacota!!”

 

E eu… “não Dico, as coisas que tu me contas!”

 

Mas na verdade ele tinha razão, Dico era jovem, amigo e ouvinte! Era o avô a quem eu podia dizer tudo!

 

Sempre que penso nele há uma torrente de memórias que me vêm à cabeça:

 

“Sararaca vai preparar-me um whisky, dois dedos de malte, duas pedras de gelo e água castelo até encher”;

 

“Sararaca, conta coisas!” “Diz qualquer coisa”.

 

Eu dizia: “Qualquer coisa, Dico”, a rir-me e ele respondia amuado:

 

“Vocês não sabem nada, podias contar mesmo que fosse mentira!”

 

“Mentir é feio Dico!”. Ele abanando a cabeça desistia e respondia: “Tens o dom da asneira!” E riamo-nos!

 

Ligava para mim quase todos os dias e dizia: “Sararaca, não consigo ligar o computador, posso ir buscar-te a casa e vens me ajudar? Estiveram cá a limpar e isto deixou de funcionar!”

 

“Sim, Dico, podes vir…” e ele respondia, “por isso és a minha bijagó!”

 

Lembro-me do meu avô às quintas e sextas à hora do almoço a esperar por mim no corredor, por causa do jornal. Lembro-me de ir comprar bananas com ele na esquina das Galerias. Lembro-me, depois da escola, de ir esperar por ele à pracinha da escola grande. Íamos comprar pão, brincávamos um pouco na praça e depois levava-me a casa. Lembro-me do carro dele, Nissan branco, a chegar devagar à esquina do meu prédio, eu descia a correr e brigava, “Dico estas atrasado, vou chegar tarde à escola”. “Não digas tolices”, retorquia ele, “ainda vamos a tempo”.

 

Tantas vezes dançamos a valsa ou o tango no corredor, tomámos tantos banhos de mar, foi ao colo dele que conduzi pela primeira vez.

 

Preocupava-se muito com o meu futuro, o meu bem-estar e felicidade. Aceitava-me tal como sou, apenas queria que eu tivesse um sustento, a minha independência e integridade. Ensinou-me que devia colocar tudo de mim em cada tarefa que realizasse….

 

Dico era tudo isso, e por ter sido Dico, foi possível vocês conhecerem Arnaldo França.

 

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Lena e Sara França, Mãe e Filha

 

Concluo afirmando que a base do homem é a família, são os valores que nos são transmitidos, a confiança, o amor e a dedicação, a motivação, a disciplina, as regras e os limites que nos abrem portas para sermos grandes Homens e Mulheres.

 

Seria impossível existir Arnaldo França se não tivesse existido Dico… é este homem por detrás do grande homem que todos conheceram que vos quis apresentar.

 

Foi este homem que eu perdi, este homem que não esta escrito em lado nenhum, que permanece apenas nas nossas memórias e naquilo que somos hoje.

 

Esta memória que se vai esbatendo com o tempo, mas que permanece viva em todos os que tiveram o privilégio de aprender com ele e que a vão transmitindo, ainda que inconscientemente, aos filhos, amigos, colaboradores…e por ai adiante.

 

Esta memória que permanecerá viva enquanto se souber quem foi Arnaldo Carlos Vasconcelos França, filho de vovó Dulce e Vovô França, casado com Maria Helena e pai de Maria Isabel e Lena França, Avô de Sara, João, Nuno e bisavô do César.

 

Assim continuaremos a driblar a morte, para que os nossos antepassados vivam em nós através das nossas lembranças!

 

Até sempre, França!

 

- Sara França Silva

 

 

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