Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Tudo é Claridade

Brito-Semedo, 18 Jan 15

 

os_rostos_da_claridade.jpg

 

 

O grito da independência literária de Cabo Verde foi lançado em Março de 1936 com a publicação da Revista de Arte e Letras Claridade[1]. O Movimento Modernista crioulo viria a processar-se em dois momentos distintos. O da libertação formal, impulsionado pela revista portuguesa Presença; e o da sintonização com as realidades locais, comandada pelo exemplo da geração de 1930 do Realismo Nordestino Brasileiro. Aliás, como mais tarde registaria Amílcar Cabral, que viria a ser fundador e líder do PAIGC:

 

“… Bruscamente, porém, opera-se a transformação. A Poesia Cabo-Verdiana abre os olhos, descobre-se a si própria, é o romper duma nova aurora. É a claridade que surge, dando forma às coisas reais, apontando o mar, as rochas escalvadas, o povo a debater-se nas crises, a luta do cabo-verdiano ‘anónimo’, enfim, a terra e o povo de Cabo Verde. Por isso, o carácter intencional – e felizmente intencional – do nome da revista que revela essa profunda modificação na Poesia Cabo-Verdiana: ‘Claridade’[2].

 

Claridade002.jpg

 

Reflectindo as contingências e as solicitações temporais, surgiram as gerações da Claridade, da Certeza, do Suplemento Cultural, do Seló e da Nova Geração, do Antes e do Pós-independência. O aparecimento de uma revista, folha da academia, suplemento cultural ou página dos novíssimos – conforme o veículo utilizado – é significativo.

 

Segundo Arnaldo França (1962), “por altura do aparecimento da ‘Certeza’ (1944) desenhava-se já no horizonte o triunfo das forças aliadas no campo da guerra europeia e mais pressentidos que conscientemente esperados desenhavam-se os fecundos tempos em que ainda vivemos” [3].

 

Em fins de 1958, publicava-se o único número do Suplemento Cultural ao Boletim Cabo Verde. Tratava-se de um grupo fixado em Lisboa, a maioria de formação universitária, convivendo de perto com outros africanos na Casa dos Estudantes do Império, que viriam a ser os fundadores dos movimentos de libertação das ex-colónias. Seló surge em 1962 – altura em que já se tinha desencadeado aluta de libertação nacional e a polícia política actuava de forma feroz – com um discurso de “revolta” da geração literária da década. Entretanto, chega a independência e a euforia dos primeiros anos, seguido de um certo impasse, ou mesmo crise, na produção literária. Desta última fase, se transcreve parte do poema em prosa “Ilha a Ilha” de Ovídio Martins (1983):

 

“Cá vamos nós reconstruindo o país. Devagar, é certo, mas avançando. Ilha a Ilha. Dor a dor. Livres os gestos, mas encontram-se ainda longe nossos jardins suspensos. Deixá-lo. Poesia é agora sentir o futuro-presente.

 

[…] Com que satisfação morreram as profecias sangrentas e os processos! A noite longa não se repetirá jamais.

 

Chamámos uma vez a Cabo Verde ‘estrela salgada de dez braços e em cada braço mil esperanças’. Se pusermos, hoje, em cada esperança mil certezas, ficaremos com uma ideia clara do espírito com que se enfrentam as dificuldades nesta prática do meio do mar” [4].

 

Em Março de 1936, dá-se a grande viragem na literatura com o surgimento da revista Claridade, publicada na cidade do Porto Grande em São Vicente, cujo núcleo fundador e dinamizador era constituído por Baltasar Lopes (São Nicolau, 1907 – 1989), Jorge Barbosa (Santiago, 1902 – 1971) e Manuel Lopes (São Nicolau, 1907 – 2005).

 

No aspecto formal, a Claridade significa o rompimento com as formas clássicas quanto à rima, métrica e gêneros literários e é uma afronta ao purismo da língua, devido à convivência do crioulo como português num hibridismo nunca antes pensado. Porém, a renovação formal só aprece como conseqüência e necessidade da adequação da língua a uma nova temática.

 

Embora sem um programa expresso, o movimento literário que surgiu com a revista Claridade, em 1936, irrompe com o propósito de “fincar os és na terra cabo-verdiana”. É evidente a alegoria de corpo inteiro: com a cabeça para pensar a literatura que deveria convir à terra que os pés pisavam. “Em contacto com a terra os pés se transformaram em raízes e as raízes se embeberiam no húmus autêntico das nossas ilhas”[5], como viria a escrever Manuel Lopes mais tarde. Ou por outra, ir-se-ia tratar os problemas do homem cabo-verdiano: as estiagens, a decadência do Porto Grande, o encerramento da emigração para os Estados Unidos da américa, a abertura do contrato para as roças de São Tomé. Para isso, os claridosos vão encontrar na literatura do Realismo Nordestino Brasileiro um modelo a seguir, como afirmou Baltasar Lopes: “Precisávamos de certezas sistemáticas que só podiam vir como auxílio metodológico e como investigação de outras latitudes”.

__________

[1] A revista viveu, melhor, sobreviveu, durante 34 anos, sempre com muita irregularidade e sobressaltos. Os dois primeiros números saíram em Março e Agosto de 36; o terceiro, em Março de 37; o quarto, em Janeiro de 47, com a indicação: “revista de arte e letras (não periódica) ”; o quinto, em Setembro desse mesmo ano; o sexto em Julho de 48; o sétimo em Dezembro de 49; o oitavo em Maio de 58; o nono em Dezembro de 60.

[2] Amílcar Cabral, “Apontamentos sobre a Poesia Cabo-verdiana”, in Boletim Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Ano III, n.º 28, Praia, Janeiro de 1952.

[3] Arnaldo França, Notas Sobre Poesia e Ficção Caboverdianas, Praia: Centro de Informação e Turismo, 1962.

[4] Ovídio Martins, Independência, Praia, Instituto Cabo-verdiano do Livro, 1983.

[5] Manuel Lopes, “O programa da Claridade era fincar os pés na terra cabo-verdiana”, in Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Ano XI, n.º 121, Outubro, Praia: Imprensa Nacional, 1959.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Ariel

    Muito bom o livro! 

  • Anónimo

    Muito obrigada por nos presentear com estas inform...

  • Léo

    Olá, realmente esse ritmo é contagiante, fico me i...

Powered by