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Última Serenata – Estórias

Brito-Semedo, 16 Fev 16

 

SerenatahonoringMdNovas.JPG

Uma serenata em homemagem a Manel d'Novas, com Voginha no violão, Foto sodadeonline.com

 

 

Boa noite, Lalela! Faz tempo que não te dou uma fala. Mas hoje lembrei-me e passei só para mandar mantenha. Entretanto, e depois daquela conversa que tivemos, não sei se estás lembrado, de tempo em que serenata era coisa de respeito, não era mantchulada nem vluntaréza, recordei-me da estória de um grande tocador de violão de Mindel de diazá e um dos grandes cultivadores das “nossas” serenatas. Lembrei-me de Junzin de nha Djóca. 

 

Junzin de nha Djóca, desde que tinha perdido sua companheira – Xandinha de nha Mari d’Jesus, que tinha fugido com aquele tropa pa tchon d’Lisboa – que passou uns anos de tristeza, curada na boca d’garrafa, bebendo tud casta de coisa, desde que ficasse fusco dogód, para acordar já na segundo canto d’gol, compor cabeça com um bom copo d’grôg e ir, ainda meio dogod, pegar na trabói.

 

Quase que perdia seu trabói de marceneiro, fino, que ele tinha. Sorte foi Sr. Inginher que gostava dele e que foi fechando os olhos, enquanto tentava ajudar ele a largar vida de bibida. Até que um dia, Sr. Inginher disse para Junzin, com aquele ar trocista que ele tinha, com seu canhót espundród na boca, mas sempre apagado, que ele dizia que era para não esquecer o vício,  que Junzin não era capaz de fazer um violão como aqueles que vinham de stranger, só por causa de gata d’bibida, para ele poder voltar a sair a fazer serenata e tocatinas de estudantes, que ele tanto apreciava.

 

 

Malaquias-Costa.jpg

Grupo de serenata, com Malaquias Costa no violino, Foto Revista Nós Genti

 

 

Antigamente e antes de conhecer Xandinha, Junzin era tocador lá fora... basta, ele e seu violão eram companheiros de paródia, inseparáveis, de sexta-feira até domingo. Durante o resto de semana, Junzin tocava todos os dias, depois de jantar, para ocupar o tempo que sobejava e para contentéza d’vizinhança que se juntavam lá na pê d’porta e que as vezes, até um par, dava um pê d’bôi. Os seus amigos até gozavam, que ele não tomava mais do que um didal na serenata.

 

Mas depois que Xandinha sumiu na ar d’tempe, vida de Junzin mudou e foi por causa de queda numa madrugada em que regressava de paródia com uma gata daquelas de “bóca na tchôm, catchorre ta lambê”, que partiu seu violão, que seu tio tinha trazido de presente, para ele, de Sul, quando regressou de vez, das suas aventuras de marinheiro.

 

Junzin, naquele dia largou trabalho e foi para casa inguniado com aquela estória. Agora, Sr. Inginher não acreditava que ele, Junzin, marceneiro de fina água, não conseguia fazer um violunzin d’gaita, que não tinha mais servintia do que tocar num bói, na paródia e serenata...?! Akêlê! Ele, Junzin, hom mótche que ta b’stî calça e marceneiro de fina água, ia mostrar Sr. Inginher o que é que era violão.

 

Por acaso, Junzin até tinha guardado algumas peças do seu antigo companheiro de gata e paródia. O braço do violão tinha ficado inteiro e as ferragens também e começou a catar bocados de madeira, lá no estaleiro, depois de pedir autorização na Sr. Inginher e ficava sempre mais uns minutos, nos dia de semana e aos fins-de-semana o tempo todo, que durante um tempo, ninguém via Junzin em lado nenhum, que até Minduca e Denha seus amigos de boca d’garrafa estavam injuriados com aquele afastamento, assim, sem nem uma palavra – cumpanher d’parodia era d’junte até na morte – que justificasse essa ausência.

 

Eles até vinham dar conta das festas, naqueles bróck de Soncente onde nem Gongon conseguia entrar, festas com aquelas menininhas sabinhas, de cabelo cuscuz – quês serpintinha – sempre prontas para um bom boi d’pic-a-pele sem hora de findar, naquela sabura de vluntaréza de fraldas de Mindelo.

 

Era naquele tempo quando côsa rum inrocava fid’parida na camim para assombrar, assim como tinham feito com Junzin... foi côsa rum que levou Junzin para vida de bibida e sem servintia. Era mássisténça que tinha ele cangando d’riba, que nem esconjuro de Centro de nhô Alfred tinha conseguido limpar... afirmava Nhâ Doca, quando o via chegar naquele estado de dogadesa sem f’gura d’gente, em que a única palavra que se entendia da sua conversa, era o nome de Xandinha.

 

Durou mais de seis meses até que um dia, numa sexta-feira, Junzin acabou de encordoar sua obra, puxou brilho mais uma vez com aquele pano – um pedaço de uma blusa que Xandinha deixou para traz naquela pressa de fugir – e disse pa el mesmo:

 

– Hoje um ta tocób, té um morrê ou Xandinha parcê...!!!

 

De caminho e antes de sair do estaleiro, passou lá na escritório para mostrar o violão pa Sr. Inginher... pa mostrar ele quem era Junzin, hom motche que ta b’sti calça e marceneiro de fina água... que aquele violão tinha som doce como voz de Xandinha quando ainda m’nininha de 17 anos, lhe tinha pedido:

 

– Junzim, condê que bo tâ fazem um serenata... pa cantam quel morna Xandinha...?

 

Junzin chegou a casa e depois de tomar seu banho e vestir roupa limpa, tirou seu violão de dentro do saco de larau em que ele trouxe sua obra para casa, afinou bem afinadinho e saiu... na procura de companhia para uma boa tocatina, daquelas antigas, de viola e bick...

 

Afastado da vida de paródia como ele andava, diazá foi parar lá para zona de Lombo onde sabia, de ouvir dizer, que havia muito estrangeiro que pagava para ouvir música de Terra, enquanto iam acariciando as carnes das d’mocratas que mais no fim da noite, os haveriam de levar para um qualquer quarto mais esconso e tirar-lhes a frieza de mar e falta de mulher, que vida de marinheiro tem.

 

Quando Junzin entrou, logo Minduca deu fé e depois de um abraço e de lhe estender logo um cálice, que Junzin emborcou dum centada, falaram e Minduca ficou espantado com o violão que Junzin trazia... “ond’ê que bô compral?

 

Junzin não se alongou em pormenores e sentou-se na roda da mesa onde uns jovens tocadores estavam reunidos e perguntou se davam licença... pediu um “prima” para afinar e... ficou tudo espantado... som... beleza e aquela forma de tocar de gent’intig e fez-se silêncio para ouvir... os primeiros acordes de Xandinha...

 

“bos odjos Xantinha, tem duçura di mel

tem magia di Sol, tâ camba na mar azul...

assim um ta pidí Deus, pa na hora q’um morrê

dixam na nhâ dispidida, odjâ bos odjos Xandinha“

 

... por momentos, o encantamento tomou conta de todos... o violão de Junzin gemia, de dores e amores em tamanho sentir que aqui e ali havia quem não contivesse uma lágrima.

 

Na confusão chegou Denha também, entre abraços de boas vindas e mais uns grogs Junzim olhou para a entrada do botequim com a sensação de estar a ser observado... parou por momentos... levantou-se e de violão apertado no peito, caminhou cantando...

 

“é câ Lua, é cá Strela

é câ pérola di mar

é câ feitiço, é cá sodade...

é madrugada na bôs odjos

é só bos odjos Xandinha”

 

... cantando para a Xandinha, que dengosamente apoiada na ombreira da porta do botequim,  o escutava... a sua Xandinha, desiludida por um amor de ocasião que não resistiu aos frios de Lisboa, tinha regressado ao seu Soncente...

 

 

Soncente... Terra de morna e de serenata.

 

Bom, Lalela, vou indo que já é hora de ir para casa para evitar dar de cara com Gongon. Mantenhas pa gente de casa. No t’oiá um qualquer dess dias para um convirsinha mais demoród.

 

Lisboa, 2016/02/14

D’Joe

 

 

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6 comentários

De Valdemar Pereira a 16.02.2016 às 11:31

Um daquês estorinha sabim  q'fazê sodade de nôs tempe d'mucidade.
Ess li ê pa fcà e nunca d'vida ele ta ser traduzide nôte linga qualquer.
Braça pa Djô e Lalela, mantenha pa tude gente

De Jorge Martins a 16.02.2016 às 20:23

Obrigado Valdemar. Um rijo abraço

De Jorge Martins a 16.02.2016 às 20:34

Um agradecimento à Esquina do Tempo e ao Brito Semedo, pela publicação. Um rijo abraço e mantenhas.

De Djack a 16.02.2016 às 22:41

Aprovado!
Saudado!
Aplaudido!
Braça
Djack

De Jorge Martins a 19.02.2016 às 11:48

Obrigado Djack. Mantenhas

De Joe DoArt a 23.02.2016 às 10:24

À todos os crioulos de gema bem como à todos os outros crioulizados por afinidade,
Ess ê que nha terra cretcheu

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