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Uma Estrela que Brilhou no Eden Park

Brito-Semedo, 24 Ago 15

  

 – Norina Alves, enfermeira chefe e especialista em saúde materna e obstetrícia

 

Este desafio do Lalela para escrever um depoimento sobre as minhas recordações do Eden Park fez desfiar uma avalanche de vivências que me enriqueceram ao longo dos anos vividos em Mindelo.

 

Comecei a frequentar as festas no cinema Eden Park muito cedo, porque me convidavam quase sempre por ter muitos amigos. Tanto festas de carnaval, em que poucas vezes me mascarei por não gostar, como da malta da Académica, porque namorava com um dos jogadores na altura, bem como as festas dos finalistas do liceu, mesmo sem ser finalista, e ainda assistindo aos eventos culturais e filmes que ali eram exibidos semanalmente.

 

Digo que desde muito cedo frequentei e participei nessas actividades porque a minha mãe dizia ao meu pai que me acompanharia, forma eficaz de mostrar ao meu pai que podia dar autorização sem problemas. Lá íamos e a minha mãe ficava sentada toda a noite na conversa com a mãe da Teté Alhinho, que também ia acompanhar as filhas. Nós dançávamos toda a noite com todos os nossos amigos, agarradas ou não, mas não "subíamos cuscús". Tínhamos o bufet ao lado mas não arredávamos pé enquanto a música, que era de conjunto musical, não parasse para intervalo ou parasse de vez.

 

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Manel Lima, Hermes Lima, Irene Lima, Nhix, Lurdes, irmã de Arlinda, Vera Duarte, Arlinda Santos, Alexandre Correia, Djô Santos, Djocolana, Norina, Ginau, Carlos Alhinho, Elíseo Coleras, Dulce Pires Ferreira, Zé Maria, Jopam, Bela Alhinho, Djê Lopes da Silva, Lena Alhinho, Lica d’ Mochim Mercone, Carlos Magalhães.

 

Íamos todas muito lindas, bem arranjadas, cabelo bem penteado, todas aprumadas, assim como os rapazes, que também iam de fato e gravata. Todas queríamos dançar com o rapaz mais bonito e cheiroso e, de preferência, que dançasse bem, e tentávamos fugir dos que tinham pés de chumbo. Felizmente eram todos conhecidos e fugir deles era fácil. De quando em vez um nos calhava, mas a malta também achava que era um momento de divertimento porque eles próprios entravam na gozação. Nalgumas vezes, as nossa mães já cochilavam e queriam ir para casa mas, com um esforço e mais um pedido de "só más um czinha" lá conseguíamos mais um pé de dança até ao final da festa, altura em que saíamos todos juntos e a pé cada um se encaminhava para a sua casa, sem esse medo pavoroso que a malta agora tem de andar de noite nas ruas de Mindelo, com receio que lhe seja dado algum cassubody.

 

Isto tudo se passa por volta dos anos 64/65/67. Em 67 vim para Portugal estudar e regressei em 69 a S. Vicente para tentar dar a volta ao meu pai para mudar de curso. Aí permaneci durante um ano, que foi em cheio porque reencontrei algumas das velhas amizades e adquiri outras.

 

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No palco, da esquerda para a direita: Lena Alhinho, Norina Alves, Rosa Melo, Lutcha Melo, Edite Borges,Teté Alhinho, Ângela Borges, Maguy Figueira e Mara Idalina.

 

As farras em S. Vicente estavam no auge e tinha regressado ao Mindelo uma cabeleireira cabo-verdiana, a Idalina Matos, filha do Manuel Matos. que queria experimentar os modelos de penteados trazidos de fora. Escolheu um número de jovens que ela considerou serem as que lhe poderiam fazer esse trabalho e organizou dois desfiles de penteados para apresentar ao público mindelense. As jovens eram a Lena Alhinho, Edith e Ângela Borges, Lutcha Melo, Zenaida Nogueira, Maguy Figueira, Zézinha, Rosa Melo, Maria Idalina, Teté Alhinho e eu. Os espectáculos foram apresentados em dois momentos, um no Eden Park e outro no Parque Mira-mar.

 

Nos bastidores, iam acontecendo muitas peripécias. Ao vestir ou ao mudar de fatos, porque mudámos umas duas ou três vezes, umas em cima das outras porque o espaço era pequeno e não havia grandes condições, os collants a que algumas ainda não estavam habituadas romperam-se com a pressa de as enfiar. A Idalina Matos, mais nervosa que qualquer uma de nós, pois no fundo a artista era ela, ia dando retoques aos penteados elaboradíssimos, com um monte de ganchos e outros acessórios, e ia-nos dizendo:

 

– Tchegá li, Norina, tchame pobe esse colar; Lutcha, tchame enrolá esse caracol, um ka divia ter puste bo massagem pôs esse cabel ti ta descaí dmás de lise; unhamanhe, oh mnins, dismola bsote comportá dret, oiá quel sala ta chei de senhoras dret de Soncent.

 

 

 

 

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À frente, Norina Alves, no meio, Rosa Melo e, a seguir, Edite Borges.

 

Foi assim, com umas dores de barriga pelo meio, umas canelas a tremer, sorrisos nem pó. A Idalina pediu-nos que não olhássemos para o público para não nos distrairmos. Eu, a Lena, a Maguy e a Maria Idalina, as mais descaradas do grupo, lá soltávamos um sorriso à plateia ou entre nós uma risada. Tínhamos uma enorme vontade que tudo acabasse rápido para irmos todas embora e ouvir os comentários. No dia seguinte, seríamos decerto as estrelas de Mindelo, que não nos poupou elogios. Éramos nós a passear na praça ou sentadas na esplanada do Hotel Porto Grande e os rapazes de volta de nós a dar-nos os parabéns pelo nosso êxito.

 

Durante o espectáculo, que foi acompanhado por um conjunto musical, também descemos do palco e passeámos entre o público, que nos aplaudiu fortemente, comentando em voz alta as nossas brutas mini-saias que descontraidamente vestíamos. 

 

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À frente, Norina Alves, Paulo Machado, cantor angolano, Lena Alhinho.  Atrás, o grupo "Os Caites": Djosa de Nho Jack d´Câmara, na viola; Carlos Pudjim, na bareria; Jorge Borges; na viola e no baixo; e Pxote, na guitarra (falta o Hermes que era o vocalista). No som estão o Johnny Estêvão e o Sr. Evandro Matos.

 

Quanto aos espectáculos musicais, íamos assistir aos ensaios porque eu tinha amigas que namoravam elementos dos grupos. Em 1970, o grupo “Os Caites” deram um espectáculo aproveitando a estadia de férias em S. Vicente do cantor angolano Paulo Machado, que era vocalista de um grupo musical em Portugal e que namorava com a Lena Alhinho. Assim, eu e a Lena fomos convidadas para apresentar o espectáculo e o Paulo foi o artista convidado. Nem sei onde fui buscar tanta lata, assim como a Lena, mas foi um êxito total. A Teté Alhinho também foi cantar juntamente com o Hermes Morazzo, que era o vocalista dessa banda.

O interessante é que não posso falar muito do cinema, porque para mim o Eden Park foi mais para este tipo de actividades, que podia frequentar porque a minha mãe me podia acompanhar, embora tenha visto muitos filmes em Mindelo, como todos os meus amigos. Entre eles, vi repetido o filme “Aviso aos Navegantes”, assim como “Zorba o Grego”, “Cantinflas”, “Gianni Morandi”, “Lawrence d'Arábia”, etc. Como todos os jovens da minha geração, cheguei a estar sentada com os meus namorados e, quando as luzes se apagavam, dar uns beijinhos no escurinho do cinema e comer umas mancarras, uns pastéis, umas sucrinhas e doces de côco ou uns drops ou chocolates.

 

É com muita emoção que vou relembrando estas recordações, vividas intensamente junto aos meus amigos, com quem ainda hoje mantenho fortes laços de afectividade. O Eden Park faz parte dessas recordações e é com nostalgia que penso no destino que lhe está a ser traçado, o que implicará que uma fonte importante da memória da cidade de Mindelo será tristemente apagada.

 

Lisboa, 19 de Setembro de 2010

 

 

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9 comentários

De Trêza a 23.09.2010 às 15:43

Olá Brito-Semedo :)

Na Esquina do Tempo está em destaque na homapage do SAPO Cabo Verde em http://sapo.cv e na homepage do serviço de Blogs do sAPO Cabo Verde em http://blogs.sapo.cv :)

Continuação de excelente trabalho!

De Brito-Semedo a 23.09.2010 às 15:59

E com as inovações introduzidas no blog, ficando agora um "sideblogado" ou um blogsideado", e as Memória do Eden Park - Depoimentos, Álbum Fotográfico e Filmes - o chamariz é ainda maior, hihihi! Encostámo-nos no "Na Esquina do Tempo" para apreciar e partilhar! Obrigado!

De Trêza a 24.09.2010 às 08:34

Foi com muito gosto :-)

De Ernestina Santos a 23.09.2010 às 15:50

Nory, obrigada pela partilha das tuas lindas recordações. Bons tempos em que os bailes eram animados ao som de um conjunto musical, o que faz toda a diferença! Estas "partes" de querer dançar com o mucim más bailador ou más sportom estão uma delícia, traduzindo a candura que então animava as adolescentes, vigiadas bem de perto pelas mães. Vim de Mindelo "adolescentina", como diz uma sobrinha minha, mas ainda tive o prazer de "fazer parte" de cenas iguais, pelo que te agradeço ter-me reavivado as lembranças, já que recordar é viver.
 
Admirei a vossa "lata" em ter desfilado no palco como modelos pois, com essa idade, eu era mais tímida que sei lá o quê. Já em Lisboa, fui abordada em plena rua (aquelas micro-saias não poderiam ser mais curtas, haha) por um representante da Toyota, que me desafiou logo para ir fazer publicidade para essa marca de automóvel. Eu? Só de me ver na pele de uma "gatinha" a esticar-se toda a ronronar em cima de um carro fazia-me calafrios, haha. Ou, como me aconteceu em Londres, onde me abordaram na rua e me quiseram convencer a ser modelo fotográfico... Ah, as recordações que fazes despertar são imensas...
 
Ao Lalela, mais uma vez os meus parabéns pela ideia tão oportuna de escrever sobre a importância que o Éden Park teve na vida dos são-vicentinos e de ter desafiado os amigos a trazer as suas lembranças desse tempo tão bom. Ainda espero ver acabar esta série com chave de ouro!

De Brito-Semedo a 23.09.2010 às 16:05

Menina, já a falar no acabar desta rubrica?! Vira a boca prá lá! O "Na Esquina do Tempo" retomará a sua programação normal (sim, porque o Eden Park tirou o lugar às outras rubricas!), mas enquanto houver uma Amig@ de Diazá a querer partilhar as suas memórias e saudades, este espaço estar-lhe-á reservado e com o destaque merecido! E não me/nos façam nenhuma desfeita, hihihi!

De Ernestina Santos a 23.09.2010 às 16:25

E eu a pensar que me perguntarias se tinha alguma ideia a sugerir e afinal puxas-me as orelhas? JÁ, não, mas na vida tudo tem um fim e o tema será substituído por outro... Mas o final com chave de ouro será imprescindível! O planeamento tem de ser feito atempadamente, não é?

De Brito-Semedo a 23.09.2010 às 16:40

Sorê, Amiga, É que como está tudo tão sabin", que quero que se prolongue! A intenção não era "puxar-te" as orelhas. Desastrado, eu! Bato no peito, hihihi! Venham daí as ideias, que têm sido sempre muito boas! Nada de birras agora! Estamos juntos e muito obrigado pela deferência!

De Alice de Matos a 27.09.2010 às 21:17

Cara Nory
De tanto me cruzar com elas , quando N ta txi pa Moráda, esta morada virtual, de encontro e de partilha das nossas lembranças, vi, vezes sem conta, as fotogradias que ilustram o teu depoimento. Tão autêntico! Sinto-o como a legend...a perfeita para este filme com tantas "meninas de sport". Eu estive, estava lá, na plateia, a aplaudir! Dancei também, nesse "Jêrál" transformado em salão de baile, e vezes sem conta teremos cruzado olhares eloquentes, no aperto dos passos, num txá txá descontrolado ou numa morna que queríamos nunca acabasse! Palavras para quê, quando o dançarino não vai lá? Palavras, para quê quando voamos, leves e confiantes, nos braços do mais eximio e, por isso, o mais pretendido? Mas de ti falo, hoje, e deste depoimento, para aplaudir, agora, com uma doce nostalgia, estoutro filme, o dos acontecimentos acolhidos nesta que foi a casa de todos nós, este Éden Park, cuja história, cada um, de acordo com o registo que guarda, vai contando a Cabo Verde e ao mundo... Queria tanto estar a viver o intervalo de um filme, e não o seu fim! Éden Park precisa de voltar, pujante, ao nosso convívio.

De José F Lopes a 23.08.2015 às 18:45

Vou seguindo os artigos. Dispensa comentar esta  excelente iniciativa no timing certo

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Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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