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Despedida do Dr. Baptista de Sousa

Brito-Semedo, 9 Set 11

 

Dr. Baptista de Sousa no Hospital de S. Vicente

 Partida do Dr. Baptista de Sousa acompanho pelas forças vivas do Mindelo

Dr. Baptista de Sousa levado no andor no meio de "Cotche de gente" (da Praça Nova onde morava até ao Cais de Alfândega) a dar vivas ao "Engenheiro Humano", título da morna do Maestro Jotamont
 
Vaporim a dar de banda, tal a quantidade de gente a querer acompanhar o Dr. Baptista de Sousa na sua despedida
Dr. Baptista de Sousa no botim em direcção ao vapor "Guiné"
Dr. Baptista de Sousa no seu último adeus ao povo de S. Vicente

 

Notas:

  

1. Fotos do dia 10 de Setembro de 1944. Arquivo do Colaborador e Amigo Valdemar Pereira, que gentilmente fez a sua legendagem.

 

2. Abaixo, um excerto da conferência proferida pelo Colaborador e Amigo Adriano Miranda Lima na Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, em Carnide (Portugal).

___________

 

Elegi como um dos momentos mais altos da minha narrativa a despedida apoteótica de Baptista de Sousa, o que significa que vou começar pela última cena da sua passagem pela nossa terra. É como fazem alguns cineastas. Apresentam primeiramente o momento de maior densidade dramática e depois arrancam com o início do filme.

 

Vamos então focar aquele dia 10 de Setembro de 1944. Rezam as crónicas que naquele dia a cidade de Mindelo parou em peso para acompanhar o doutor Baptista de Sousa ao cais de embarque. O povo concentrou-se em massa formando alas entre a residência do médico, na Praça Nova, e o cais de embarque, afluindo de todas as partes da cidade e seus arredores. As janelas se escancararam e os passeios estavam pejados de gente, algumas pessoas alcandoradas em pontos dominantes para lograrem uma observação mais vantajosa. Valdemar Pereira refere o seguinte testemunho coevo que ouviu ao senhor Antoninho Santiago, funcionário dos CTT: ao sair da sua casa na Praça Nova para entrar no automóvel militar que o levaria ao cais, o doutor foi imediatamente levantado e levado em ombros por figuras gradas da sociedade mindelense, ao que ele, modestamente, se procurou opor, mas sem êxito. Assim, em ombros parece ter sido conduzido até às imediações do cais, com o povo a soltar ensurdecedores e emotivos vivas ao doutor Baptista de Sousa e vivas ao nosso “Engenheiro Humano”. As mulheres do povo derramavam lágrimas enquanto gritavam vibrantes palavras de saudação e apreço àquele que elas já tinham como um querido filho adoptivo da terra.

 

Entre a comitiva acompanhante, envolvida pela multidão, encontravam-se as autoridades civis e militares da ilha, designadamente o comandante do Corpo Expedicionário, brigadeiro Augusto Martins Nogueira Soares, o doutor Adriano Duarte Silva, o presidente da Câmara Municipal, doutor Luís Terry, e outras mais figuras representativas das forças vivas da cidade. A homenagem ao médico tinha sido assinalada dias antes por actos e iniciativas de vária ordem; mas agora, no dia do embarque, é a emoção que se transborda unindo por igual todos quantos fraternamente se juntaram na despedida. Logo que Baptista de Sousa e a sua comitiva atingiram o cais, os navios fundeados na baía libertaram toda a estridência das suas sirenes, naquela que é a mais genuína e comovente saudação dos homens do mar. O médico embarcou no seu escaler e, por iniciativa partilhada por toda a cidade, um numeroso cortejo de botes e lanchas, transportando representações das colectividades e agremiações locais, além de pessoas singulares, escoltou-o até ao vapor Guiné, que o levaria de regresso a Metrópole. Disse-me a minha mãe, actualmente com 84 anos, que se recordava de as sirenes terem tocado continuamente até o navio levantar âncora, pelas 15 horas, e perder-se da vista saudosa do povo de Mindelo. Nunca se vira coisa igual em Mindelo, nunca a cidade inteira se tinha comovido tanto na hora “di bai”.

 

Depois da despedida, calculo a nostalgia que deve ter ficado a pairar na cidade. Ora, para um homem ser assim alvo de tanta unanimidade no reconhecimento e no aplauso à grandeza do seu mérito, unindo autoridades e povo anónimo, ricos e pobres, gente de todos os estratos e condições, é porque verdadeiramente invulgar foi o modo como exerceu o seu múnus profissional em prol da comunidade local, é porque excepcional foi ele na esfera da sua humanidade e civismo.

 

Adriano Miranda Lima, Portugal

 

 

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1 comentário

De Adriano Miranda Lima a 31.08.2011 às 13:02


O Dr. Baptista de Sousa deixou marcas indeléveis no imaginário da população da ilha de S. Vicente e a sua memória fica perpetuada no nome do hospital da ilha, à falta de outros testemunhos materiais. Temos sempre a língua afiada para criticar o poder, mas há que reconhecer que os políticos de Cabo Verde independente locais souberam fazer justiça à memória daquele que foi um benfeitor das populações locais, que não distinguia ninguém em função da cor da pele ou do estatuto social.


E como poderia ser de outro modo  se Baptista de Sousa era um humanista no sentido mais puro e completo da palavra? Como assim, se ele era um democrata (ia escrever esquerda, mas fico por aqui), o que quer dizer um opositor ao regime de Salazar, se não em actos políticos visíveis pelo menos em escrupulosa satisfação aos ditames da sua consciência de homem livre, justo, solidário e generoso?


Foi por desconfiar do seu posicionamento político que há uns anos fiz uma pesquisa nos arquivos do Exército sobre o percurso de Baptista de Sousa enquanto médico militar. De posse dos registos do seu currículo militar, das suas colocações e dos serviços prestados e dos galardões que recebeu na Instituição Militar, concluí com pouca margem para dúvidas que ele só podia ser um opositor ao regime do Estado Novo. Percebi, com o testemunho concreto do seu percurso militar, que ele foi intencionalmente prejudicado como oficial médico do Exército. É perfeitamente óbvia a preocupação de o colocar em lugares de importância subalterna e de o “escorraçar” para fora de Lisboa, ou seja, do Hospital Militar Principal.  Ademais, pouco tempo depois de regressar de Cabo Verde foi “escorraçado” para a Índia Portuguesa, onde, por sinal, viria a ser  homenageado pelas autoridades e populações locais da mesma forma como o fora em Cabo Verde.


 Continua...


 

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