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Vista da Cidade do Porto Novo, Foto Sónia Jardim, 2004

  

Sónia Jardim, Portugal

 

Do oceano nasce a vida, a vida transforma-se em terra, criando um novo dia, o nascimento de uma cultura ávida de saber e profundamente sábia... a cultura cabo-verdiana.

 

Santo Antão, a ilha de Santo António do Egipto.

 

Embora não evoques o Santo António de Lisboa, o teu nome apela ao milagre, ao santo casamenteiro... Todos que te visitam contigo casam.

 

Eu, como João Piquinote, pouco te ofereci, ou talvez não... Ao mar, uma isca também atirei: “Para ti, mar amigo, e para teus peixes”.

 

E, como João Piquinote, o milagre aconteceu: um esticão na minha linha, um peixe-sereia que me pediu para soltá-la em troco de um fio do seu cabelo.

 

No fio do teu cabelo, Santo Antão, ofereceste-me todos os desejos do mundo e, com enorme bondade, ofereceste-me o que está para além, o mar e o céu...

 

Escrever sobre Santo Antão é escrever sobre a magia que envolveu o meu ser quando visitei pela primeira vez aquelas terras mágicas.

 

Escrever sobre Santo Antão é também escrever sobre o passado da minha família Jardim, é escrever sobre as histórias que a minha mãe me contava e acompanharam a minha meninice, as vindas da minha avó Anita a Portugal, os Natais em casa dos meus pais em que o Reverendo Mosteller e sua esposa Mrs. Gladys eram presença constante.

 

A “minha família Jardim” é mais do que uma família, são todas as famílias que trago no coração, todas as famílias de Santo Antão, todas as famílias de Cabo Verde.

 

Escola EBI de Lagedos, Foto Sónia Jardim, 2011

 

Esta fotografia anseia por falar e “Na Esquina do Tempo” deu-lhe voz: Dezassete horas, desci até à porta da Escola Primária que confina com a  propriedade da minha avó Anita, a Escola Ana de Anunciação Jardim.

 

Entrei.

 

Uma escola extremamente asseada, todas as salas com as portas abertas, os mais velhos terminam o dia com a aula de expressão plástica. Hoje podia estar em comunidade com todas as crianças de Lagedos, pois era dia de aulas.

 

A 25 de Março de 2003, dia em que a minha avó comemorou 84 anos, a Escola Primária de Lagedos recebeu o seu nome e toda a povoação, juntamente com um representante do Governo e vários professores, prestaram-lhe uma grande homenagem, tendo sido estipulado que todos os dias 25 do mês de Março seriam dias de grande festa em Lagedos.

 

Escola EBI de Lagedos, Foto Sónia Jardim, 2004

 

Quando as crianças saíram da sala reinava a alegria. Todas sorriam para mim e, voando em nuvens de felicidade, com os olhos mais belos que alguma vez vi, dirigiram-se no meu sentido. As crianças respeitam o espaço dos seus semelhantes, não mendigam, nem tão pouco pedem. Sempre impecavelmente limpas e arranjadas. As meninas com os cabelos muito cuidados. A pobreza acaba por passar despercebida...

 

Lagedos é um Paraíso particular dentro do Paraíso de Santo Antão.

 

Logo que o carro cruza a fronteira marcada pela tabuleta “Lagedos”, cumprimentos e saudações constantes.

 

Sentar-me no muro, à porta de casa da avó. Contemplar a montanha, o céu, a casa de Djôn Júlio, receber as saudações dos carros, escassos, normalmente carrinhas de transporte colectivo, que passam na estrada.

 

A ausência de poluição permite que o som dos pássaros se propague mais facilmente e a variedade de cantares é tão grande que transporta qualquer ser para terras paradisíacas, terras ainda não profanadas pelas pegadas humanas, terras em que todas as aves se chamam Aves do Paraíso. Ao olhar para o céu contemplo o Gongon uma ave marinha que nidifica nos locais montanhosos, a Cagarra e muitas, muitíssimas, mais aves para serem veneradas.

 

Santo Antão permite que o passado, que tanto me fascina, fique para sempre eternizado...

 

... A chegada da minha tetravó Ludovina Quitéria Lima, vinda de Portugal, acompanhada por um irmão e escravos, incumbida de cumprir uma missão a mando do Rei de Portugal.

 

... A chegada, no século XIX, do meu trisavô António Leite Pereira Jardim, vindo de Coimbra, para exercer o cargo de Juíz de Direito na Comarca do Barlavento.

 

... O meu trisavô, António Luís Delgado, o “benemérito proprietário” como era conhecido, extremamente generoso com as populações da região, ajudando os flagelados pela fome e varíola, evitando contágios da doença através de importantes medidas preventivas e de saúde pública.

 

... O carácter interventivo de António Luís Delgado, presidente da Comissão de Assistência, que sempre defendeu os mais desfavorecidos. O seu papel crucial na crise de fome vivida em 1921.

 

... A intervenção, fulcral, de António Luís Delgado na construção da estrada para o Sul da região da Ribeira das Patas, o que levou a que fosse visitado pelo Governador e pelo General Viriato Gomes da Fonseca.

 

... As visitas frequentes de várias entidades oficiais e Governadores que, habitualmente, permaneciam na casa de Chã de Alecrim.

 

... A construção, por indicação e ajuda da minha família, de várias pontes e estradas com o consentimento do governo Português.

 

... O papel fundamental da minha família no desenvolvimento do sistema hidráulico e consequente distribuição de água, através da implusão de uma mina no Norte de Santo Antão....

 

A maçonaria...

 

... A personalidade forte e determinada do meu bisavô José Pereira Jardim, o qual muito contribuiu para o desenvolvimento das freguesias de São João Baptista e Santo André, na ilha de Santo Antão, com as suas intervenções junto do Governandor da Colónia de Cabo Verde.

 

... O grande amor de D. João José de Carvalho Daun e Lorena, filho do 5.º Marquês de Pombal, por minha avó Anita.

 

... O período de seca devastadora vivida durante a 2ª Grande Guerra, em que o povo enfrentou enormes dificuldades. A Família Jardim ajudou muitos dos que não tinham o que comer e, como tal, faziam as suas refeições nos anexos da nossa casa de Chã de Alecrim. A minha avó Anita, também para ajudar, e com o consentimento dos meus bisavós, em noites de lua nova, acompanhava os empregados que, montados em cavalos, se dirigiam para uma praia em que os submarinos alemães deixavam produtos alimentares. E isto sendo o meu bisavô um grande defensor de Churchill.

 

... Os verdadeiros tratados de ciência do meu trisavô António Luís Delgado, a rica biblioteca do meu bisavô José Pereira Jardim...

 

Santo Antão é mais do que o passado. É o Presente e o Futuro... que ainda serão História.

 

Cabo Verde Feiticeira

Rainha do Atlântico

Com teu jeito de brincadeira

 

Enfeitiças com teu cântico

Materialmente, podes ser pobre

 

Mas, espiritualmente, bem rica

Um povo sempre nobre

E um ar que purifica

 

Oh linda Feiticeira

No oceano plantada

Quem passa à tua beira
Por ti é encantada

 

 

Nota: Perdoem-me todos os que já adoptaram o novo Acordo Ortográfico mas, eu, como muitos, mantenho-me ainda fiel à escrita “antiga”.

 

 

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2 comentários

De Adriano Miranda Lima a 26.09.2011 às 19:08

“A intervenção, fulcral, de António Luís Delgado na construção da estrada para o Sul da região da Ribeira das Patas, o que levou a que fosse visitado pelo Governador e pelo General Viriato Gomes da Fonseca”.


Transcrevo esta passagem do interessante relato da Sónia Jardim apenas para fazer um comentário relativamente a Viriato Gomes da Fonseca. Este oficial fora colocado na colónia como Chefe dos Serviços de Agrimensura, o que corresponde a Obras Públicas. É isto que talvez explique, entre outras razões, como a amizade ou o conhecimento pessoal, a sua visita por ocasião da construção da estrada em S. Antão. Mas ele não era general na altura nem nunca esteve colocado em Cabo Verde como general, como algumas pessoas tendem a pensar. E nem podia acontecer, posto que o quadro orgânico da colónia quando muito previa o posto de coronel para o cargo de comandante militar da mesma.


Acontece que Viriato Gomes da Fonseca fez mais do que uma comissão em Cabo Verde, sua terra natal (S. Antão). Primeiro como tenente e colocado na Companhia de Artilharia de Guarnição S. Vicente), entre 1897 e 1901. Em 1903, já capitão, é novamente colocado em Cabo Verde, como comandante da referida companhia, permanecendo até 1907. Em 1915, já major, é colocado como chefe dos Serviços de Agrimensura, sendo promovido a tenente-coronel 2 anos depois. Promovido a coronel ainda no ano seguinte, regressa à Metrópole. Mas em 1921 regressa de novo à nossa terra para a mesma função, permanecendo por um período de 2 anos. Refira-se que mesmo nas anteriores funções militares, como capitão, desempenhou em acumulação cargos civis, nomeadamente na área das obras públicas (visitando mais de uma ilha) e mesmo como administrador interino em S. Vicente.


A partir de 1922, está na Metrópole e exerce actividade política, pertencendo a um partido e tendo sido um parlamentar de grande prestígio. Talvez isto explique que tenha passado à reserva em 1925, mas vindo a ser promovido a general em 1926, o que em circunstâncias normais não pode acontecer. Mas naqueles tempos conturbados da I República tudo era possível. Ou seja, é provável que por revanchismo político não tenha sido promovido a general quando lhe competia, só o tendo sido quando o seu partido regressou ao poder.


Este nosso conterrâneo foi um oficial de elevada craveira e um distinto cidadão.

De Sónia Jardim a 26.09.2011 às 21:32

Boa Noite, obrigada pelas suas amáveis palavras. É extremamente gratificante partilhar as vivências e sentimentos que envolvem a nossa alma naquelas terras mágicas e que nos "prendem" para sempre.
Com agrado verifiquei que também é um apaixonado por Santo Antão.

Relativamente ao General Viriato da Fonseca, o meu trisavô, por várias razões, sempre se referiu ao mesmo como sendo o "General". Pude constatar em vários documentos do meu trisavô que ele fazia questão de lhe atribuir a patente de General, embora sabendo que ainda não o era...
O episódio, a que faço referência no "Família Jardim - O Segredo", relativo à visita do General não se prendeu por razões de amizade, mas sim porque, durante a construção da referida estrada, num período de grave crise agrícola, um condutor de sobrenome Freire recebeu ordens para suspender os trabalhos e o meu trisavô, demonstrando que tal atitude colocaria em perigo a vida de muitas pessoas, assumiu a responsabilidade de continuação da obra. De seguida, dirigiu-se ao antigo Porto dos Carvoeiros e expediu dois telegramas, um para São Vicente, pedindo mantimentos e outro para o Ministro das Colónias em Lisboa, inteirando-o sobre a situação vivida, facto que, à data, originou o descontentamento do General.
Este episódio pode ser lido na íntegra no "Família Jardim - O Segredo".

Os restos mortais do General Viriato e outros membros da sua família encontram-se depositados no jazigo em nome do General Viriato Gomes da Fonseca, no cemitério de Oeiras.

Existiu, em Mindelo, uma rua com o nome do general Viriato Gomes da Fonseca, tendo sido retirada após a independência das Ilhas.

No que concerne à minha forma de escrever "Lagedos", foi assim que o meu bisavô, avó e tias-avó sempre ensinaram, pelo que preservo o ensinamento.

Braça,
Sónia Jardim

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