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Feiticeira que tudo sabe

Brito-Semedo, 14 Nov 11

 

Foto Tó Gomes

 

Tu, feiticeira que tudo sabe, que incita e faz

fala-me do que não vejo e que em mim jaz

dormindo no mais profundo da minha alma.

Tenho uma dor incomensurável, uma chama

que as fases do tempo que passa não pára,

faz-me curtir, não altera e lenitivo não traz

 

Não sei se é uma fraqueza ou realidade feliz

se uma infelicidade alegre ou alegria infeliz

se uma manifestação de carácter inexorável

se é pressentimento ou um presságio amável.

 

Não aguenta preponderância do firmamento

dói quando se é condenado ao afastamento
ignora as excelências de muita outra beleza

preferindo os desgostos próprios da tristeza.

 

Nem o sol clemente nem chuva mais fecunda
nem coração mais puro ou mais apaixonado

têm a panaceia para enfermidade hedionda

que se apodera da alma de forasteiro ruído


Não pode haver coisa mais danada e impura

que se junta, germina e pela vida fora dura.

Feiticeira, deixa a tua poção que nunca cura

mistura as plantas em remédio que perdura.

Dizem-me que é doença lusa de toda a idade

sem sinónimo em outro léxico: é a Saudade.

 

- Valdemar Pereira, Tours, França

 

 

 

 

 

 

 

 

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8 comentários

De Adriano Miranda Lima a 14.11.2011 às 22:24


(Continuação)


No fim, conclui: “dizem-me que é doença lusa de toda a idade/sem sinónimo em outro léxico: é a Saudade”, no que, entre outras afinidades, permite identificar a sua poesia, pelo menos a expressão estética aqui vertida, com a tradição literária dos pré-claridosos, na linha de um Eugénio Tavares ou de um Januário Leite. Mais, ao considerar “lusa a doença”, que o é, de facto, na sua matriz genética, Valdemar vai mais longe quando denuncia uma feição psico-ideológica em que está menos presente o pendor nativista do que uma universalidade que igualiza o português e o cabo-verdiano como companheiros históricos da vocação diaspórica. A verdade é que, tal como escrevi há tempos,  “tanto o fado como a morna vão ao fundo da alma para soltar a dor do coração sofrido ou deixar escoar tristemente a saudade. Ambos são expressão de um lamento que bem pode ter nascido na solidão do convés de um navio naquelas noites olorosas em que a lua espalha o seu brilho de prata sobre a superfície quieta do mar”.


 


 


 


 

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