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Feiticeira que tudo sabe

Brito-Semedo, 14 Nov 11

 

Foto Tó Gomes

 

Tu, feiticeira que tudo sabe, que incita e faz

fala-me do que não vejo e que em mim jaz

dormindo no mais profundo da minha alma.

Tenho uma dor incomensurável, uma chama

que as fases do tempo que passa não pára,

faz-me curtir, não altera e lenitivo não traz

 

Não sei se é uma fraqueza ou realidade feliz

se uma infelicidade alegre ou alegria infeliz

se uma manifestação de carácter inexorável

se é pressentimento ou um presságio amável.

 

Não aguenta preponderância do firmamento

dói quando se é condenado ao afastamento
ignora as excelências de muita outra beleza

preferindo os desgostos próprios da tristeza.

 

Nem o sol clemente nem chuva mais fecunda
nem coração mais puro ou mais apaixonado

têm a panaceia para enfermidade hedionda

que se apodera da alma de forasteiro ruído


Não pode haver coisa mais danada e impura

que se junta, germina e pela vida fora dura.

Feiticeira, deixa a tua poção que nunca cura

mistura as plantas em remédio que perdura.

Dizem-me que é doença lusa de toda a idade

sem sinónimo em outro léxico: é a Saudade.

 

- Valdemar Pereira, Tours, França

 

 

 

 

 

 

 

 

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8 comentários

De Adriano Miranda Lima a 15.11.2011 às 19:56



Pablo Neruda, no seu poema "Saudade", diz: "Saudade é amar um passado que ainda não passou/É recusar um presente que nos machuca /É não ver o futuro que nos convida..."

Valdemar Pereia neste seu poema diz "Tenho uma dor incomensuràvel, uma chama/ que as fases do tempo que passa não pára" .

Então, ocorre-me transcrever uma breve passagem do livro "O TEATRO É UMA PAIXÃO, A VIDA É UMA EMOÇÃO", a saber: .."meter-me clandestinamente num navio e aventurar-me rumo ao desconhecido, aceitando todas as contingências possíveis. Mas a decisão estava tomada e, fosse o que Deus quisesse, ela era irreversível. E contudo já sentia no coração o travo amargo da nostalgia, eu que, apesar do amor entranhado à minha terra natal, à minha família e à minha gente, não me sentia no dever de pertencer a nenhum lugar mas a todos os lugares ao mesmo tempo".
Foi nesse momento que a saudade começou a despontar no coração de Valdemar, chama que se ateou e encontrou lenha para se manter viva o tempo todo, pela vida fora. Se para Neruda, a saudade é amar um passado que não passou e que por isso permanece cego ao presente e ao futuro, e se para Valdemar ela é uma chama que não apaga por mais que passe o tempo, podemos então pensar que ambos tocam a mesma corda do sentimento humano, mas que não será propriamente o passado, enquanto tempo vivido e delimitado por uma determinada fase da vida, o objecto da saudade indirimível. Sê-lo-á apenas como ponto de partida para todos os sonhos e expectativas, que são contínuos e inexauríveis no ser humano, e tanto assim é que há sempre um passado de marco temporal sucessivamente distanciador que nos segue ao longo da vida. Portanto, diria que no fundo o que todos sentimos é uma saudade unificada, da vida que se viveu, se vive ou se aspira viver, independentemente da idade e suas contingências.

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