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 Luís Silva, Paris

 

Amílcar Cabral, poeta e homem político, consciente da importância da tradição oral caboverdiana, recorreu à morna para explicar ao nosso povo as razões da nossa luta de libertação contra o colonialismo português. Num discurso pronunciado na Unesco, este grande  activista cultural e político dizia que «a luta de libertação é um acto cultural» e assim convocava os artistas caboverdianos de todas as latitudes para participar na luta.  Através da música as mensagens de libertação estendiam-se a todas as classes sociais, na sua diversidade racial e cultural, através de um sentimento de unidade, fundamental para o sucesso da luta de libertação.  Em todas as latitudes onde viviam caboverdianos, o apelo da morna chegava a convidar os caboverdianos a participarem na luta pela Independência de Cabo Verde.

 

Num movimento de libertação não participam simplesmente aqueles que estão na luta armada: no caso caboverdiano, a diáspora teve um papel importante no seio do movimento de libertação, tanto no plano político como económico, a cujo esforço se juntou o de estrangeiros ligados a Cabo Verde, entre os quais portugueses que participaram na nossa luta de libertação. Se o movimento nacionalista caboverdiano começou na comunidade caboverdiana do Senegal, nos fins dos anos cinquenta na sequência das independências africanas, foi  na comunidade emigrada na Holanda, país de grande tradição democrática na Europa e onde o engajamento  das artes plásticas e a música são garantes da democracia, que os caboverdianos  começaram a desmontar o mecanismo colonial, como também através das viagens que fizeram pelo Mundo.

 

Se na verdade as viagens formam os homens, acontece que o conhecimento de culturas e civilizações diferentes permitiram aos caboverdianos ter um olhar crítico sobre a nossa sociedade colonial, repensar Cabo Verde a todos os níveis, principalmente nos aspectos sociais e culturais, fazendo novas propostas para as mudanças necessárias que passariam pela autonomia e independência.  O próprio projecto de conquista da emancipação económica exigia então novos valores, novas práticas de vida na dignidade e liberdade.  O emigrante caboverdiano no seu sonho diário queria um outro país pelo qual, havia mais duzentos anos, se sacrificava pela sua sobreviência física e cultural.

 

O impacto das  transferências monetárias e dos investimentos dos emigrante em pouco tempo mudou o panorama social e económico das ilhas de Cabo Verde.  A América perdeu a preferência dos emigrantes caboverdianos, assim como se pôs termo à emigração criminosa para as plantações de São Tomé e Príncipe.

 

Para exprimir todas as ânsias e vontades dos caboverdianos, surgiu a criação de uma casa de edição de discos caboverdianos em Roterdão no ano de 1965, propriedade de Djunga de Biluca, e que começou por editar o grupo A Voz de Cabo Verde, o que constituiu um marco fundamental na história da emigração caboverdiana para a Holanda. Era a voz e a língua crioulas que se libertavam. Os caboverdianos assumiam a responsabilidade de editarem as suas músicas, livros, «de rimar com liberdade» (Ovídio Martins). Essa emigração para a Holanda atraíu os maiores músicos caboverdianos: o célebre conjunto Voz de Cabo Verde ao interpretar os maiores compositores caboverdianos, como Eugénio Tavares, B. Léza, Jotamont, Manuel de Novas, Abilio Duarte, tornava-se o orgulho de todos os caboverdianos dispersos pelo Mundo. E não se editava simplesmente músicos caboverdianos como Morgadinho, Djosinha, Luis Morais e a Voz de Cabo Verde, ou ainda os guitarristas Humbertona (na altura estudante na Universidade de Luvaina, Bélgica), Tazinho e outros. A Casa Silva, mais tarde Editora Morabeza, editou o primeiro disco nacionalista do cantor angolano Bonga, do nordestino brasileiro Marcelo e outros. O caso da edição do disco de Nhô Balta aparece noutras circunstâncias que se verão mais adiante.

 

Foto cedida por Luiz Silva

 

Baltasar Januário Lima de Barros, mais conhecido por Nhô Balta, em homenagem ao seu padrinho, o Dr. Baltasar Lopes da Silva, poeta, romancista, músico e professor de várias gerações de alunos que passaram pelo Liceu Gil Eanes, nasceu em 1948, em São Vicente, na zona do Monte, onde a música fazia parte do quotidiano. As salas de Nho Jom Tolentino, conhecido pelos bailes populares, e do seu avô, Nhô Fula, grande jogador de cricket e caçador célebre de tubarões, marcaram a vida associativa e cultural de São Vicente. No Monte também havia excelentes musicos: Clemente, clarinetista que emigrou para Angola, Marcelo, cantor e excelente tocador de cavaquinho, os violinistas Mané Querena e Moxim de Monte, sem falar dos excelentes músicos da Craca como Miguel Patada, Antonzinho, que iniciaram vários jovens na música caboverdiana, inclusive o maior cantor caboverdiano de mornas de todos os tempos, o colosso Bana.

 

Mindelo é em si uma cidade musical com uma sonoridade marítima sob o olhar mágico do Monte Cara: a música está em todos os cantos e os jovens iniciam-se em serenatas  nos meios suburbanos cantando a música tradicional com os acordes de meio tom (a tchoradinha do violão) e até músicas estrangeiras, especialmente brasileiras. Da emigração chegavam discos e cassetes de todos os cantos do Mundo, o que abriu o Mindelense ao cosmopolitismo e ao universalismo que passava diariamente pela larga baía do  Porto Grande. Mas a “morna” era a rainha das noites e a expressão máxima do sentir caboverdiano.

 

Filho do professor Antero Barros, que marcou o ensino liceal e o desporto em Cabo Verde, frequentou o Liceu Gil Eanes e dedicava-se bastante ao desporto. As aulas de música no Liceu do professor José Alves Reis, musicólogo e excelente professor de música que formou várias gerações de músicos, como os clarinetistas Pitrinha, Musa e Luis Morais, os trompetistas Jorge Monteiro « Jotamont », Jack Estrilinha, Manuel Tidjena e Morgadinho, eram interessantes: o homem não se limitava a falar da música, procurava também interessar-nos pela afirmação da nossa identidade, da importância  da cultura e da sua função social na sociedade e pode-se dizer que ele foi o mentor político de muitos jovens da minha geração.  No seu estudo intitulado «Subsídios para o estudo da morna », publicado postumamente no n° 21 da revista caboverdiana RAÍZES, escrevia: «este estudo permitir-nos-á tirar conclusões sobre se tal valor do folclore musical é ou de criação regional e, de qualquer modo, sobre as influências que porventura nele se teriam exercido. O método é  inteiramente válido para a bela melodia da morna caboverdiana, equilibrada e pura, e tão pura que no século passado, com a invasão das polcas, mazurcas, galopes, contradanças, lanceiros, danças de roda, viras, etc. ela não se deixou influenciar. E porquê ? Porque nasceu do povo que a criou, banhando-a com as lágrimas das suas mortificações, resignações e sofrimentos, e também porque essas melodias não são outra coisa  senão a exaltação ou o queixume eterno da alma caboverdiana, no que ela tem de mais comovente, de mais extravagante e de mais tumultuoso».

 

Para fugir à guerra colonial ou à prisão da Policia Politica (PIDE), Balta teve de emigrar com menos de dezoito anos. Entre centenas de emigrantes que passavam a fronteira do norte de Portugal, uns acossados pelas injustiças sociais e outros a fugir da guerra colonial, atravessou  a Espanha franquista, França, Bélgica, onde já residiam alguns estudantes caboverdianos, até chegar a Amsterdão, a Jerusalém do Norte, devido a uma importante presença judaica nos séculos XVI e XVII.  Teve de embarcar no primeiro « vapor » que surgiu e durante anos deu volta ao mundo, observando as sociedades, estudando as culturas e civilizações dos países visitados, enriquecendo assim a sua caboverdianidade. Quando regressou da aventura marítima, fixou-se em Roterdão, onde o conjunto A Voz de Cabo Verde estava em pleno sucesso. Foi nesse ambiente cultural que ele começou a cantar para os amigos, longe de pensar que teria um dia de ser a voz da luta de libertação e da emigração durante a luta de libertação e depois da Independência, face à ausência de uma politica de emigração da parte do Cabo Verde Independente.

 

As  temáticas  da emigração e da luta de libertação tinham que integrar o novo repertório musical caboverdiano, como  propunha Amilcar Cabral quanto à poesia e literatura.  Uma nova geração de compositores comprometidos com o movimento de libertação surgia no espaço musical caboverdiano denunciando a colonização e a propor uma outra sociedade liberta das heranças feudais e do domínio colonial.  A morna, foi assim enriquecida por uma nova geração de autores e compositores nacionais comprometidos com a luta de libertação como Manuel de Novas,  Nhô Balta  Renato Cardoso, Abílio Duarte, Paulino Vieira, Valdemar Lopes da Silva e outros, que exploram novos ritmos e o folclore poético das ilhas para além  de musicar  os textos dos grandes poetas  em português como em crioulo de Eugénio Tavares, Jorge Barbosa, Osvaldo Alcântara, António Nunes, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Kaoberdiano Dambará, Onésimo Silveira, Luís Romano, Teobaldo Virgínio, etc.

 

Quando nos fins dos anos sessenta, Nhô Balta é convidado para integrar a luta de libertação na Guiné-Bissau, já vinha militando pelas causas de Cabo Verde desde a sua chegada à Holanda, junto da comunidade emigrante ali residente, participando no movimento associativo e reforçando assim a caboverdianidade de muitos patrícios que, devido a uma educação escolar colonial, temiam a repressão da polícia colonial sobre as suas famílias em Cabo Verde e receavam participar no movimento de libertação. Uma entrevista na televisão holandesa, com Djunga de Biluca, Zó Barbosa e Armando Dupret, a denunciar o colonialismo português apressou a sua partida para a Guiné Conacry.

 

Em 1973, como membro do grupo cultural do PAIGC, Nhô Balta participou no Festival de Berlim acompanhado de Valdemar Lopes da Silva.  Deslocou-se a Roterdão onde gravou o seu primeiro LP numa edição do PAIGC, com músicas de Abílio Duarte, Valdemar Lopes da Silva, Manuel de Novas e outros compositors nacionais. O caminho estava aberto para uma carreira como cantor e compositor na Holanda, Portugal e, mais tarde, nos Estados Unidos.

 

A poesia de Agostinho Neto não lhe era desconhecida tanto mais que o poeta esteve com residência fixa em São Vicente, Santo Antão e Santiago nos princípios dos anos sessenta. As ediçôes da Casa dos Estudantes do Império chegavam a Cabo Verde por intermédio dos estudantes em férias. Poetas angolanos como Agostinho Neto, António Jacinto (com o famoso poema « Carta dum contratado»), Viriato da Cruz eram declamados em círculos estritos nas noites de Mindelo. Agostinho Neto impressionava pelo seu andar firme, pela calma e certeza que aparentava ao passar pela Pracinha do Liceu Gil Eanes, mesmo cercado pela Polícia Política Portuguesa.  Como médico e confidente dos pobres era visto com muita simpatia pelo estoicismo que irradiava. Com um sorriso de uma grande esperança, o poeta explicava que não era nenhum terrorista, mas sim um homem preocupado com os problemas do seu povo e que mais tarde poderia ajudar Cabo Verde. Em São Vicente era respeitado pelos seus colegas e pessoal hospitalar, que guardam dele boas recordações. E muitos desses poemas passaram para a emigração caboverdiana e daí o facto de Nhô Balta cantar um dos poemas de Agostinho Neto que partilha o sonho dos exilados angolanos e caboverdianos, dispersos pelo mundo devido aos problemas da escravatura, da colonização e da repressão colonial:

 

Havemos voltar às nossas lavras

Às nossas praias, aos nossos campos

Havemos de voltar.

Às nossas terras,

Vermelhas de café

Brancas de algodão

Verdes de milho

Havemos de voltar.

Às nossas minas de diamante

De ouro, de cobre, de petróleo

Havemos de voltar

Às nossas ribeiras, aos nossos lagos

Às montanhas, às florestas

Havemos de voltar.

À frescura da mulemba

Às nossas tradiçoes…

 

Este poema, escrito em Outubro de 196O na prisão de Aljube em Portugal, não é um simples inventário sobre as riquezas de Angola. Não é simplesmente a reconquista das riquezas de Angola que ambiciona, mas também reivindica os valores culturais do povo angolano com o qual se identifica. No prefácio ao livro de poemas  «Sagrada Esperança», em francês «Espérance Sacrée», Marga Holness escreu: «La poésie, plus que toute autre forme littéraire, a le pouvoir d’exprimer les émotions collectives. Etant à l’origine de toute la littérature – épopées, lois, religions e prophéties furent d’bord des manifestations poétiques – la poésie a non seulement le pouvoir d’éliminer la différence artificielle provoquée par les sociétés stratifiées entre la raison et l’émotion, mais aussi celui d’exprimer une conscience collective, comme la musique, le chant et la danse dont elle est issue». Agostinho Neto quer, com a Sagrada Esperança, a voz, o fogo, o ritmo e a esperança do povo angolano.

 

A morte de Amílcar Cabral surpeendeu-o em Conacry onde é preso e mais tarde libertado. Essa vivência ao lado de homens de armas e de cultura como Amílcar Cabral, Abílio Duarte, Valdemar Lopes da Silva fez dele o cantor mais engajado da luta de libertação.  Há já alguns anos que não grava mas está sempre presente nas grandes manifestações culturais em Cabo Verde e no estrangeiro.  Aliás, a canção «Havemos de voltar», extraida do poema do mesmo nome, foi gravada nos Estados Unidos, o que veio a contribuir para uma maior divulgação do poema que já teria também sido musicado por Rui Mingas, cantor e compositor angolano.

 

O universalismo do cantor Nhô Balta compreende-se pela unidade da luta contra o colonialismo português através do M.A.C. (Movimento anti-colonialista português), onde caboverdianos, angolanos, guineeneses e moçambicanos estiveram unidos num projecto libertador contra a dominação portuguesa.

 

Paris, 11/11/11

 

 

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