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Ao Encontro do Milénio

Brito-Semedo, 29 Dez 11

 

- Fátima Bettencourt, Praia

 

Muita correria se viu nos dias que antecederam o fim do ano. Correria e ansiedade tais que, unanimemente, todos adiantaram um ano e logo se viu que era completamente inútil qualquer correcção. A magia dos três zeros não dava espaço ao raciocínio.

 

Quando todos os caminhos iam dar a Mindelo, coube-me na sorte um avião espanhol que, não sei como, se perfilava na nossa frota aérea. Mas havia um porém: tal avião não acertara ainda os ponteiros com os nossos ventos rebeldes e a restante ideossincrazia das ilhas. Já esperava alguma turbulência que não falhou na entrada de S. Pedro. O que não esperava era o cheiro de combustível no interior da quase vetusta nave, mas enfim, lá chegámos a S. Vicente depois de uma  breve passagem pelo Sal, aliás brevíssima como atestavam os nossos cafés abandonados na mesa do bar quando desatamos a correr para retomar a viagem.

 

Não sei porquê, mas estas paragens em estações e apeadeiros, tão frequentes em combóios e barcos de cabotagem, deu, entre nós, para acontecer na via aérea com os sustos acrescidos de decolagens e aterragens suplementares, mais as saídas em horários que nada tem a ver com o placar e como se não bastasse, tínhamos uma tripulação estrangeira pouco familiarizada com os nossos tons de castanho e cinzento, sujeitos portanto a confundir uma estrada com pista de aterragem ou esta com um simples campo de cabras.

 

Na bagagem eu levava uma criaturinha de oito meses em viagem inaugural de baptismo aéreo. Nada perturbado com atrasos, desvios ou turbulências, seguia alegremente beijando tudo quanto era menininha de menos de um ano, sem levar em conta os meus avisos, que aquilo assim não podia continuar, pelo menos lá por volta do ano 2012 já teria algum pai severo à perna, quem sabe até os mesmos que nessa viagem lhe achavam tanta gracinha.

 

Foto Daniel Monteiro Júnior

 

O primeiro contacto com a cidade dizia-nos que Mindelo se preparara para a entrada do ano 2000 com ou sem milénio. Diria até que o vinha fazendo desde o distante 14 de Abril de 1879 quando um decreto régio transformara a vila em cidade, passados apenas 22 anos sobre a eliminação da escravidão na ilha. Era a cidade que eu encontrava pulsando em harmonioso compasso, com os seus espaços verdes confundindo-se com pequenos presépios, as ruas enfeitadas, casas pintadas, luzinhas piscando por todo o lado, até nas casinhas mais modestas, tudo muito limpo e arrumado, enfim um colírio para os olhos.

 

Mas melhor que o aspecto decorativo impressionava ver as pessoas, o convívio, a animação e a velha magia da cidade envolvendo todos num abraço morno, aconchegando-nos com o carinho da palavra meiga dita na hora certa, a hospitalidade mesmo para oferecer um simples copo de água.

 

Todavia nada impede que em Mindelo aconteçam episódios rocambolescos, com ameaças de violência que a própria morabéza da ilha trata de contornar com direito a palmas. Ainda acontece mulheres sozinhas serem alvo de assédio de meliantes que, vivíssimos, percebem logo quem não é residente e está ali apenas para passar uma chuva, no caso nada mais verdadeiro já que a noite de S. Silvestre fora regada com uma gostosa e intempestiva chuvada para delícia dos foliões e decepção dos hotéis que vendo a cidade banhada por um dia de esplêndido sol, não hesitaram em organizar festas ao ar livre.

 

Os mindelenses entretanto vão espalhando pela cidade a sua interpretação mística daquela chuva: ela não foi um simples aguaceiro, mas um sinal divino de que a ilha entrava numa nova era de prosperidade. Optimista como ele só, o mindelense obviamente sabia do que estava falando. E nada seria mais oportuno para também dar um basta à delinquência e à prostituição que começavam a povoar os bas-fond da cidade, das ruas escuras e ameaçadoras, das figuras sinistras disfarçadas nas sombras de becos e esquinas, à espreita duma criatura isolada ou mais indefesa.

 

Como em todos os tempos a pátria é salva pelos heróis, também eles perfilando-se pelas esquinas sob a forma de polícias, guardas nocturnos munidos de capotes, cacetetes e cachorro de estimação ou simples transeuntes que se disponibilizam a acompanhar e proteger, até quando não estamos muito necessitados desse serviço gratuito de guarda-costas, ele aparece personificado no cidadão a quem se pergunta onde fica uma rua e já vai abrindo a porta do carro para te acompanhar porque... “dóna, Soncente já ca ê moda um vez.”

 

E finalmente, ultrapassados problemas e peripécias, chega a meia-noite, é a explosão de alegria,os abraços, as batucadas, os grupos improvisados e os organizados, Xinda descobre que está ali o palco da sua vida e se esmera no show vestindo uma T-shirt sem mangas, calça justíssima e luvas até ao cotovelo feitas em precioso tecido de lamé fulgurante. Esvoaça e provoca, indefinida e louca, tudo numa boa. À mistura, cacos, muitos cacos, que de repente pode ser um grogue duvidoso ou um legítimo Moet Chandon, as garrafas passam de mão em mão, copos aparecem como que saindo da manga de um mágico. Na entrada do n.º 3 da Praça Nova a Manela com a sua diáspora reunida e o jeito tão expontânio de abrir portas e braços, o nosso abraço tinha meio século de cumplicidade, é de cortar o fôlego, mas aí Mike irrompe pela multidão com a sua incrível batucada, a mole imensa se movimenta como gigantesca serpente em direcção à marginal, onde todos pretendem afundar num único pacote, o ano velho, o século e o milénio e todo o seu cortejo de desgraças e misérias para saírem de lá prontos a receber um ano 2000 no qual, por alguma misteriosa razão, todos depositávamos as maiores esperanças.

 

Foto Kimze Brito

 

De repente o Onésimo saltou do jeep para me dar aquele abraço e o calendário novo com figuras de Mindelo. Numa das folhas a minha mãe que naquele instante se incorporava à alegria geral. Merecia a folha e o amor da sua cidade que no momento se esbaldava numa festa de rua para não se esquecer jamais.

 

 

 

 

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