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Mãi Liza, Minha Mãe-Dona

Brito-Semedo, 6 Mar 10

 

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Foto de M. Brito-Semedo, 1989

 

 

Luísa Maria Fernandes

 

S. Vicente, 1909 – 2001

 

 

Luísa Maria (1909 – 2001) era a segunda das três irmãs Reis Fernandes, criadas pela Mãi Rosinha (Rosa Maria), a avó paterna, pelo facto de muito cedo terem perdido os pais, Maria Arcângela dos Reis e Teodoro Pedro Fernandes, ambos naturais de São Vicente.

 

Pela sua personalidade forte, Liza assumiu cuidar das irmãs, ser “o homem” da casa e pegar na enxada, enquanto a Tila (Clotilde Maria, n. 1907), a irmã mais velha, se ocupava dos bordados e da costura, e a Xenxa (Vicência Maria, n. 1911) a mais nova, tinha a tarefa de vender cuscuz.

 

É assim que se explica o facto de a Mãi Liza nunca ter perdoado ao Nhô Lela Miranda (o Pa Lela) por ter abandonado a irmã Xenxa, com quem tinha tido seis filhos, para se casar com uma “bravinha de S. Nicolau”, supostamente de um meio social mais elevado.

 

Estou em crer que o facto de a Mãi Liza ter sempre vivido na mesma fileira de casas com o ex-cunhado, dando-se apenas com os sobrinhos, terá sido um incómodo para ela e um suplício para ele.

 

A minha Mãi-Dona[1] era uma mulher alta, bem constituída, de tez clara e pele brilhante, sempre bem arranjada, de blusa e saia a dar por baixo do joelho e de lenço colorido atado no alto da cabeça, à moda das mulheres do barlavento, deixando ver uma pequena trança de cabelo fino caído na testa e duas outras maiores apanhadas atrás. Podia dizer-se que a Mãi Liza era uma mulher bonita, de personalidade forte, determinada, frontal, um tanto ou quanto arisca, d’zufnada[2] e muito orgulhosa.

 

Apesar de todas as dificuldades porque passou na vida, a Nha Liza tinha conseguido criar os seus filhos – a Xanda, minha mãe, que perdeu o pai aos sete anos de idade, a Crisanta, que viria a morrer aos seis anos de uma tosse convulsa, o Lalela e ainda o neto, eu, sete anos mais novo que o tio, tratado com todos os mimos de filho codé[3] – sózinha (sim, porque, como dizia ela, não estava para aturar borracheira[4] de homem nenhum!), com honestidade e sem pedir nem dever nada a ninguém, graças a Deus!

 

Vem a propósito dizer que a perda da filha Crisanta, da forma como foi, terá sido traumatizante para a Nha Liza. Recusou-se a ir viver para o Calhau com Frank, o pai dos seus filhos, eventualmente acusando-o de falta de apoio, e isso viria a acabar com a sua relação, tendo posto definitivamente uma “pedra sobre os homens”.

 

Essa perda pairou durante muito tempo sobre a cabeça da Mãi Liza como uma nuvem negra, o que viria a explicar a sua aflição quando, ainda muito pequeno, tive tosse convulsa e, com as convulsões, ficava sem ar e parecia que ia morrer. É que a avó tinha medo que se repetisse com o neto o que tinha acontecido com a filha!

 

Posteriormente, sabendo eu dessa estória, pedi que se pusesse o nome de Crisanto ao primeiro filho do tio Lalela, em homenagem à tia, o que obteve a concordância de todos.

 

A Nha Liza sustentava a casa com o trabalho da celha, da surradeira[5] e do ferro de engomar (“com as mãos ora no frio ora no calor”, como ela costumava dizer para justificar as suas dores reumáticas constantes) nas casas da “gente branca”[6] da terra – dos Matos e dos Whanons – e dos oficiais da tropa portuguesa, lavando e engomando os fatos de linho-pardo e as fardas brancas, e com a sua venda de grogue e peixe frito, pão da Padaria Manel de Matos e doces variados – açucrinha, rebuçado, doce-de-côco, doce-de-mancarra...

 

A minha Avó contava que o meu tio Lalela, enquanto esteve na “Escola de Rei”, isto é, até tirar o 2.º grau (4.ª classe), nunca recebeu qualquer apoio da Caixa Escolar por acharem que ele não tinha necessidade... porque ia sempre limpinho! – “Como se a minha profissão não fosse a de lavadeira! O meu filho vai para a escola com calças de caqui ou de drill[7], mas vai limpo!”, dizia ela toda enxofrada.

 

Este neto era o orgulho da Avó e invocado como exemplo por tudo e por nada. O Manecas[8] era isto, era aquilo, o Manecas tinha feito isto, tinha feito aquilo, e por aí adiante. Muito mais tarde, estando eu já a viver e a trabalhar na Praia, os vizinhos da Ribeira Bote perguntavam à Mãi Liza o que é que o neto fazia, pois de vez em quando viam-no aparecer na televisão. Com certa bazófia, ela respondia prontamente: – “O que ele faz na Praia não sei, mas que o meu neto é importante, isso é! Deus o conserve assim, anjo da sua guarda, santo do seu nome!”

 

Quando o Ely, o meu filho mais velho, ia a S. Vicente passar férias a casa dos avós maternos, tinha por costume visitar regularmente a Mãi Liza, que lhe guardava, por sistema, um soperinha[9] e um donete. Certo dia, o bisneto apareceu-lhe acompanhado de um outro miúdo mais novo, que a cumprimentou e se sentou.

 

A Mãi Liza, que só tinha um lanche para o bisneto, às tantas pergunta quem era aquele rapazinho. Ao perceber que era o Gé, o filho mais novo do Manecas, ralhou com os dois por não lhe terem dito isso mais cedo e mandou o mais velho ir expressamente comprar outro lanche igual para o irmão. A partir desse dia, a Mãi Liza passou a guardar dois soperinhas e dois donetes para os seus bisnetos, que a iam visitar todas as tardes. E como os meninos apreciavam essas guloseimas!

 

A minha avó foi sempre uma presença constante e marcante em todas as etapas da minha vida, remetendo a minha mãe para uma posição esbatida, o que provocava nesta uma certa ciumeira. Atitude que se explica, em parte, pelo facto de a filha ter ficado mãe-solteira tão nova, tendo ela que assumir o neto, tal como um filho mais novo, e porque a Xanda trabalhava fora “dia e noite”, incluindo os domingos. Isto, na minha infância, na minha adolescência, nos meus estudos, nas minhas decisões para o futuro, enfim, em tudo, estando a Nha Liza sempre presente, interveniente ou por perto.

 

É esta mulher analfabeta, mas muito sábia, que morreu aos noventa e quatro anos a dar ordens a toda a tropa – porque não aceitava que ninguém mandasse nela! – que me ensinou tudo o que é realmente fundamental para a vida e moldou a minha personalidade.

 

Nesses anos todos de ausência, na Praia, em Moçambique e em Portugal, cada vez que visitava a terra e estava com a Mãi Liza, partia com um aperto no coração e a sensação de que podia ser a última. Por várias vezes sonhei que ela tinha morrido e eu não tinha podido estar presente; então tinha pesadelos e acordava aflito.

 

Numa das minhas visitas à terra, acompanhado da minha mulher portuguesa e da nossa filha, a Silvinha, que trazíamos para a Mãi Liza conhecer, aproveitei a oportunidade para lhe pedir para explicar à bisneta como era eu quando criança, já que não tinha nenhum retrato dessa época, ao que ela ripostou, sintetizando da forma seguinte: – “Tu, tu eras gordo e bonito, louvar-a-Deus!” E se a minha Mãi-Dona o disse...

 

Mãi Liza esclareceu ainda que a cicatriz que ainda hoje trago no rosto do lado direito foi devido a uma “muf’néza[10] do meu tio e porque eu era gordo! E explicou: o Lalela brincava comigo transportando-me num daqueles carrinhos de obra e, às tantas, este desequilibrou-se e, como as suas forças de criança não davam para o segurar comigo dentro, o carrinho tombou para o lado e caí batendo com o rosto numas pedras. Resultado: apanhei um corte tão profundo no lado direito da cara que, levado ao hospital, tiveram de mo suturar com dois agrafos, “pontos de lata” como se dizia na altura. Dessa história não me lembro, mas recordo-me dos colegas da escola primária troçarem de mim chamando à minha cicatriz “sinal de dividir”.

 

A última vez que estive com a Mãi Liza foi um ano antes da sua morte, em 2000, vindo de Maputo para estar no casamento do Ely, seu primeiro bisneto.

 

Em Dezembro de 2006, três anos após ter concluído os meus estudos académicos, regressei à minha ilha natal para fazer a apresentação da tese de doutoramento em livro. A Mãi Liza já não existia, a minha Mãe continuava emigrada em Itália e o meu tio Lalela, piloto-da-barra da Capitania dos Portos e o único representante da família na terra, não poderia estar presente, por razões profissionais. O momento era, por tudo isso, de muito regozijo, intensa emoção e profunda saudade.

 

Assim, na manhã da cerimónia pública, dirigi-me ao cemitério para visitar a sepultura da minha Avó e prestar-lhe uma última homenagem. Levava comigo debaixo do braço o livro – A Construção da Identidade Nacional – Análise da Imprensa entre 1877 e 1975 – e, na mente, as palavras repetidas centenas de vezes em pensamentos redundantes: – Mãi Liza, cheguei!... E trago comigo para te mostrar o prémio de todos os teus e os meus sacrifícios. Cá está!...

 

Depois disso, senti uma profunda paz e a sensação de ter recebido, de uma só vez, todos os beijos que a Mãi Liza nunca me tinha dado ao longo da minha vida!

 


[1] Avó.

[2] Que não aceita desfeita.

[3] Filho mais novo.

[4] Desfeita.

[5] Tábua de lavar (surrar) a roupa.

[6] Gente importante da sociedade de então.

[7] Tecido ordinário e, por isso, barato.

[8] O facto de ter o mesmo nome que o meu tio obrigava a alguma diferenciação no nosso círculo de convivência. Na rua tínhamos outros nominhos. Ele era o Lalela Grande e eu, o Lalela Pequeno ou o Lalela de Nha Liza e o Lalela de Xanda de Nha Liza. Quando cresci e o Lalela (Grande) emigrou, ganhei o estatuto absoluto de Lalela. Em casa ele era Manel Grande e eu Manel Pequeno, até que a Tia Tá, melhor, a Prima Tá, passou a tratar-me por Manecas, acabando por este nome se afirmar no seio da família, estendendo-se até à Praia.

[9] Refrigerante de produção local ("só pirinha", referindo-se ao sabor) das Fábricas de Gasosa Gomes e Galeano.

[10] Traquinice.

 

 

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 Porto de Furna, Brava

 

 

Coube a Félix Monteiro ser o primeiro estudioso, no pós-independência, em 1984, chamar a atenção, nas suas "Páginas Esquecidas"[1], para os escritos de Guilherme da Cunha Dantas, reproduzindo uma mostra significativa entre poesia e prosa. Na sequência disso, um outro estudioso, Arnaldo França, em 1996, deu à estampa um manuscrito da sua poesia, feita chegar às suas mãos pela Senhora D. Maria de Fátima Braga Vieira de Andrade. Pretendo agora, depois de ter publicado o seu romance Memórias dum Pobre Rapaz (2007), fazer a reedição da restatante prosa de ficção deste multifacetado escritor e jornalista.

 

Tem havido, nos tempos mais recentes, uma preocupação louvável em reeditar livros de referência há muito esgotados, obras póstumas e espólios de autores já desaparecidos, como José Evaristo d’Almeida (1810? – 1856?), Guilherme Dantas (1849 – 1888), Eugénio Tavares (1867 – 1930), Januário Leite (1865-1930), Félix Lopes da Silva ("Guilherme Ernesto") (1889 – 1967), Pedro Cardoso (1890 – 1942), e Sérgio Frusoni (1901 – 1975), para além dos já clássicos da literatura moderna como António Aurélio Gonçalves (1901 – 1984), Jorge Barbosa (1902 – 1971), Baltasar Lopes (1907 – 1989) e Manuel Lopes (1907 – 2005).Para este trabalho foram rastreados na Biblioteca Nacional de Lisboa os periódicos (possíveis)[2] da época e identificados nos jornais A Imprensa (Praia, 1880-1881) e A Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919) as colaborações em prosa que aqui destacamos.

 

Em A Imprensa saíram "Amor! Ai! Quem Dera" e "A Morte de D. João", ambos incompletos, nos números 44, de 28 de Abril de 1881, e 52 e 54, de 23 de Junho e 7 de Julho de 1881, respectivamente; e em A Voz de Cabo Verde, "Bosquejos dum Passeio ao Interior da Ilha de S. Tiago", em 24 números, de 15 de Janeiro a 28 de Outubro de 1912; "Nhô José Pedro ou Cenas da Brava", em 13 números, de 10 de Fevereiro a 16 de Junho de 1913; Memórias dum Pobre Rapaz (romance), em 52 números, de 18 de Agosto de 1913 a 10 de Abril de 1915; e "O Sonho", em 5 números, de 24 de Janeiro a 1 de Março de 1916. Estes textos são agora aqui reproduzidos, quinzenalmente, conforme o original, tendo-se apenas actualizado a grafia.

 

De fora ficaram os contos “Cenas de Mafra”, inserido no livro Contos Singelos (1867), e “Frei José e o Diabo”, publicado no Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro (1872), por as estórias se situarem em Mafra e não terem qualquer relação com Cabo Verde.

 


[1] Félix MONTEIRO, "Páginas Esquecidas de Guilherme Dantas", in Raízes, N.º 21, Praia, Junho de 1984, pp. 23-186.

[2] Devido ao estado avançado de deterioração do jornal o Independente (Praia, 1877-1889), os responsáveis da Biblioteca Nacional de Lisboa não permitem a sua consulta. Aliás, existe um único número, o “Suplemento” ao N.º 37, do mês de Setembro de 1878.

 

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