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- Luís Alves, Investigador

 

Confesso que não sou muito frequentador de cinema, e é com alguma tristeza que, ao escrever este artiguelho para o blog do meu amigo Manuel Brito-Semedo, veio-me à memória que os filmes mais interessantes que vi nestes últimos tempos tenham sido em vôos de longo curso. Mas causa-me muito mais tristeza ver o estado a que chegamos em S. Vicente e não só, parece-me que em todo o Cabo Verde, de não existir uma única sala de cinema, onde as  nossas crianças e adolescentes (e também adultos) possam (poderiam) ter a oportunidade de desfrutar de momentos de muita excitação e entusiasmo tais como os que eu e os meus amigos de infância desfrutámos nas décadas de 50 e 60 do século passado. Quais as razões da “implosão” das salas de cinema do Mindelo (e de Cabo Verde) eu não sei bem, devem ser as mais diversas, mas que são razões que não têm razão de existir ... pelo menos para chegar ao ponto a que chegámos.

  

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São muitas, e todas boas, felizmente, as minhas memórias das nossas idas ao cinema no Mindelo – digo nossas, porque não me lembro de alguma vez ter ido sózinho ver um filme, íamos sempre aos bandos num chilreio impressionante e voltávamos do cinema num estado de excitação sideral, os olhos esbugalhados, vidrados pelas cenas incrédulas, pela maneira como o sport evitou e liquidou os bandidos, a forma como ele conseguiu ficar no fim com a mnina de sport, com as cavalgadas impressionantes, os gritos dos peles vermelhas, os tiros dos caras pálidas, nos filmes de cobóis. Vínhamos relembrando aos gritos os pormenores da travessia oceânica do Errol Flynn, da batalha naval com os piratas do Capitão Gancho, cada um tentando gritar mais que o outro para ultrapassar todos os outros e sobrepor a sua opinião. Às vezes, as discussões eram tão arrebatadoras que passávamos pelas nossas portas e quando “acordávamos” estávamos na porta daquele que morava mais longe do cinema, o que dava sempre para o torto com os nossos pais...

 

Lembro-me que a chegada dos filmes eram como a fruta, seja importada, seja produzida localmente. Havia uma época para um determinado filme, com destaque para as épocas do Natal e Fim-de-ano, Carnaval, e da Semana Santa e Páscoa. Eram os "Joselito o Rouxinol", e "Marcelino Pão e Vinho", uma variedade de filmes sobre o nascimento de Jesus, para o Natal, “Aviso aos Navegantes”, com o Frederico e sua célebre canja de gaivota, “Orfeu Negro”, os filmes do cómico negro Grande Otelo, fazendo aquelas caretas, esticando a sua boca de puche-de-galinha, na Semana Santa e Páscoa, os épicos da história de Cristo e da Sua Paixão, "Barrabas", “Ben Hur”, “As Sandálias do Pescador”, etc., etc.. Havia também grandes filmes como “Cleópatra” (penso ser esse o título), “E tudo o Vento Levou”, “Gengis Khan”, “Capitão Nemo”, muitos filmes das civilizações grega e romana, filmes de corsários, coboiádas, e como não podia deixar de ser... “O Tesouro do Lago da Prata, o meu filme predilecto!

  

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Mas as idas ao cinema tinham vários momentos: desde a passagem obrigatória pelos cartazes à porta dos cinemas ou na parede do Plurim de Virdura de Rua de Lisboa – às vezes tínhamos sorte de cruzar na rua com os homens e rapazinhos que carregavam os cartazes, com grande desespero deles pelo atraso que os nossos “ô moce txame oiá!” lhes causavam – às combinações entre colegas e amigos da rua para uma ida ao cinema, às necessárias seduções em casa de cada qual para a autorização e obtenção da verba para o bilhete, mais uns trocos para uns dez tostões de mancarra, uma sucrinha de Tuda, ou chuinga malabar no Cirile ou chocolate no Mitchel – este último, um verdadeiro artista com o seu cabelo à Tony Curtis, aquele penteado bem brilhantinantado, que nos contava histórias intermináveis da sua musa Kim Novak, a melhor de Hollywood, com quem inclusivé passava férias em LA de vez em quando. É claro que o bilhete de cinema era, na grande maioria dos casos, fruto de muito trabalho: boas notas, bom comportamento, ir salvar regularmente os meus padrinhos e familiares próximos e fazer toda a casta de mandados, desde andar à cata do meu vagabundo e ciento gato Funha nos telhados das casas da rua, passando pela compra rápida de algum condimento ou artigo de extrema necessidade para o almoço no Adriano de Miranda, à compra noturna de meio litro de pitrol na Nha Mana de Nhô Sabine para iluminar quando a nossa “Yolanda ca ta casá” não surtia efeito nenhum nas paragens da central eléctrica do Sr. Basílio Tavares – olha, olha, atenção! naquele tempo já havia apagões [coincidência (?), neste momento estou debaixo de um na Achada de Santo António que me vai impedir de enviar esta prosa ao Brito-Semedo de imediato, por email]. Mas eram mais curtos e menos sofisticados que agora, e, para nós criançada, muito gostosos, pois, sem a vigilância das nossas mães por incapacidade de verem no breu, permitia-nos o aumento do raio de acção para uma esticada rápida à rua de trás ou à rua de frente, trocar uns dois Pato Donalds ou Tio Patinhas.

 

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Depois, no dia do cinema, lá íamos pôr-nos na bicha para comprar o bilhete, íamos cedo para um bom lugar, passando o tempo a ouvir as reprimendas dos maiores por aceitarmos o dinheiro de colegas e amigos atrasados, casta de côsa ê esse, por isse ê que bilhete ta cabá depréssa logue na principe, ê bô minine bô câ podê comprá tonte bilhete assim, porra, bsôte bá lá pa trás, txemá pliça lá, ê bô mnine da trampa!!!  Com o aproximar da hora de abertura da bilheteira, começava o “engôtxe”, bsôte dá d’azête, gaita! Ô senhor guarda! Ô senhor Toi Cicile! Era cada “botxáda”, a fila ficando cada vez menor em tamanho, cada vez com mais gente, aumentando de espessura, meninos dando golpe, soque dali soque dalá, grite trapaióde, mancarra na txon, uh nha mánhe, jál trame nha lugar, ê bô Djondjon ca bô txá ninguém entrá nesse bicha da merda, ´m ta tróbe gaita estapôr d’inferre! E suados por todos os poros, com metade da fralda de camisa fora, lá conseguíamos o(s) bilhete(s), corrida pela escada de cinema acima, dá senhor Toi Cicile quel bilhete, entrá num fadiga, rezando para que não ficássemos perto daquele senhor que, por ler mal ou ver mal, nos “obrigava” a ler-lhe as legendas dos filmes...

 

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Sentados no nosso lugar, esperávamos ansiosos pelo apagar da luzes, saudado sempre por um “uah” estrondoso, salva de palmas, coro de assobios, geralmente vindos da geral. E a geral? A geral era um lugar de aventura e de mistério, até ao dia em que nos aventurámos a ir experimentar, o que resultou em alguma poupança, logo destruída num bom gelado no Pic Nic que dava sempre brindes, como bonecos dos filmes da “Branca de Neve”, “Mickey”, etc. Uma boa recompensa ao baptismo de dezenas de pásta que tivémos de suportar na qualidade de nouvel arrivé ao mundo de aventura que era a geral do cinema. Os comentários, as pancadarias inesperadas, com direito a cartão vermelho, a geral era mesmo qualquer coisa... Afinal, luz ca ta pagá? Esperá, filme já ta bá cumeçá, quês mninas de família Marques já txegá na sês camarôte... (ô que mánha...!!!) As luzes apagam-se, sai um desenhe animáde? Calê?, xiça, chatice! ê más daquês noticiárie de Lisboa, quel home que ta falá depréssa ta pegá tude palavra num sô (mais tarde em Lisboa, vim a saber que esse homem era o Fernando Pessa). Boa, agora sim, desenhe animáde, boa, ê quel pica-pau desarente... grite trapaióde! Hora de passá tráila, filme nove que nunca ‘m oiá – Cantinflas sobe e desce! Prôpe sábe, pa ri pa frónta! Soa o gongo, vai começar o filme... e pela "não-sei-quantas” vezes, embalo-me na magia d’ “O Tesouro do Lago da Prata”...

 

Praia, 14:23 do dia 14 de setembro de 2010

 

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8 comentários

De Brito-Semedo a 19.11.2010 às 20:46

Caro Tey Fonseca Soares, Gostei de ver esse seu texto agora no "Na Esquina". Parece que desta a última vez até agora, não foi só o Ministro da Cultura que mudou. O estado de degradação do Eden Park piorou, e de que forma, a crer nas notícias vindas a lume nestes últimos dias. Enfim, esperemos que o bom senso impere! Um abraço e bom fim-de-semana!

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