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O Carvoeiro

Brito-Semedo, 28 Nov 12

 

Carvoeiro.jpeg

 Carvoeiros descarregando o carvão

 

 

Ele aí passa; não conheces, leitor amigo.

 

Vai roto sujo de carvão, quase negro desfigurado, mascarado. Mão calosas, olhos lacrimosos, chorado carvão, camarinhas de suor, condensado em pasta negra; peito esforçado, chapa de ferro, tisnado e nu. Deixa-o passar leitor. Esse homem não é um negro, não é um escravo não é um vadio é um operário, e o mais útil, o mais filantropo, o mais benemérito dos cidadãos!

 

É quem mais trabalha na nossa terra para encher os cofres da Província; é quem enriquece os capitalistas de quem é o mais fecundo dos sócios; é quem paga aos funcionários públicos aos professores, às autoridades.

 

Aquele suor que lhe vês empastelado, que o desfigura, que o caracteriza de negro, de negro de carvão, é que a mim e a ti, a tantos, tantos, sustenta, embranquece, engorda, anedia, avigora e vitaliza.

 

Mas ele emagrece, mas ele se tisna de negro, mas ele adoece, mas ele algumas vezes, volta moribundo, quebrado, despedaçado, de bordo de algum carvoeiro, onde nos preparava o pão, morrendo sem pão, deixando viúva, filhinhos parentes, que sustentava.

 

Carvoeiro.jpeg

Homens puxando zôrra
 

Leitor, repara, escuta: Se não fosse o rude e perigoso trabalho do humilde carvoeiro de S. Vicente, a baía não teria vapores, a cidade não teria casas, as empresas e as casas comerciais não existiriam cá, e as outras ilhas ficariam mortas, sem movimento comercial.

 

Se não fosse esse humilde cidadão do povo, os rendimentos da província não chegariam para pagar aos empregados públicos, e ficaríamos sem estradas, sem professores, sem defesa nos nossos lares, que as autoridades protegem, como protegem os indigentes, dando-lhes de comer, quando como nestes últimos anos, há falta de chuvas e alimentos.

 

Muito mais de metade do dinheiro que entra nos cofres da província provem desse humilde e rude trabalho de carvoeiro.

 

Quando o vires, pois, passar esse teu irmão, tisnado, e roto, ergue-te leitor; curva a tua cabeça, venera o benemérito operário, estende-lhe a mão.

 

Se te tisnares, ficas honrado; se a Sua mão se erguer para te abençoar, bendize a Providência, porque a mão do carvoeiro é a mão de Deus.

 

Carvoeiro.jpeg

Vista da Cidade do Mindelo e da Baía do Porto Grande. Foto Melo, 1948

 

Hesperitano

 

In, POPULAR - Chã de Cemitério, 1914

 

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2 comentários

De zito azevedo a 29.11.2012 às 00:11

Eu conheci esses homens do carvão...Eu conheci esses homens da zorra . .que não sei se hoje deslizaria no asfalto da civilização, como deslizava sobre o empedrado irregular da pobreza dos anos 40...Mas foram, também , anos heróicos , de carvoeiros e puxadores de zorra . que construíam o futuro, que ajudavam a cimentar a economia, que davam o exemplo do trabalho esforçado e nem sempre bem remunerado ...Gente de barba rija, fazedores de História!

De Brito-Semedo a 29.11.2012 às 08:43

Bom-dia, Amigo Bloguista e Fiel Seguidor da Esquina do Tempo e Homem de Boa Prosa, Grato pelos seus comentários e testemunhos. "Esquecer... ninguém esquece". Braça

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