Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

7.Janeiro.1907 -  26.Abril.1964

 

- Adriano Miranda Lima

 

Em 2003, de regresso ao torrão natal, após longuíssima ausência, fui dar um passeio a pé pela avenida marginal do Mindelo, a aproveitar o momento de sonho em que o crepúsculo estival cobre o horizonte de tonalidades rosa, púrpura e azul-cobalto. É nessa mesma ocasião que a Baía do Porto Grande veste um lindo véu cromático como noiva que se enfeita para a noite de núpcias.

 

Não tinha ainda percorrido mais do que algumas dezenas de metros quando deparo à minha direita com a antiga Oficina da Pontinha, a chamada Escola de Artes e Ofícios, onde Teodoro Gomes, mais conhecido como Cunco, foi o mestre responsável desde a sua inauguração. Foi para mim uma agradável surpresa essa aparição, por duas razões. A primeira, porque o actual desenho da marginal torna agora aquele edifício mais próximo da malha urbana principal, quando antigamente era preciso dar uma volta bem mais sinuosa para lá chegar. A segunda razão da minha surpresa foi encontrar o edifício da Oficina ainda intacto e aparentemente bem conservado, quando poderia ter sido tragado pela voragem das transformações que modificaram radicalmente, e bem, toda a zona portuária. Estou a falar de cor por não suficientemente documentado, mas por certo que alguém, em boa hora, entendeu preservar aquilo que é um património cultural. Bem-haja, seja quem for.

 

Escola Profissional de Artes e Ofícios. Foto Gentileza de Fonseca Soares, 23.Março.2013

 

Surpreendido com a presença inesperada da Oficina, nem queiram imaginar a minha emoção. Tanta que já não prossegui o meu périplo e quedei-me ali a mirar o edifício de alto a baixo e em giro periférico, durante longos minutos, enquanto o meu espírito era perpassado por um caudal ininterrupto de recordações. Senti logo a presença envolvente de Teodoro Gomes, ou Cunco, como preferir o leitor, ele que era a alma viva de todo aquele inestimável empreendimento. Nesse ínterim, imaginei ouvir de novo o matraquear característico do mecanismo de roldanas e correias que transmitia força motriz aos tornos e demais máquinas e instrumentos de trabalho oficinal onde rapazes de idade variável aprendiam os ofícios de mecânico, torneiro, fresador, serralheiro-mecânico e outros. E naquele ambiente inspirado no labor vulcânico do deus Hefesto, sobressaía, inconfundível, a voz grave e rouca do mestre Cunco, em pleno exercício da sua pedagogia. Ele era o centro vital daquela actividade, uma força anímica que, omnipresente, se sobrepunha ao mecanismo físico que pulsava continuamente durante todo o labor.

 

Teodoro Gomes era meu parente pelo lado materno. Tratava-o por tio, pois, primo da minha mãe, avoco esse grau de parentesco, como é hábito em Cabo Verde, onde para nós é tio o primo dos nossos progenitores. Mas desde já asseguro que o laço de parentesco de modo algum prejudicará o rigor e a isenção dos meus juízos e considerações.

 

O tio Cunco nasceu em S. Antão, em 7 de Janeiro de 1907, e foi para S. Vicente aos 7 anos de idade; faleceu em Portugal, em 26 de Abril de 1964, quando se encontrava a tratar de uma doença asmática, com complicações do foro bronco-pulmonar, que se tinha agravado nos últimos anos da sua vida e viria a ser a causa do seu óbito.

 

Imerso nas minhas conjecturas, apercebi-me então de que quarenta anos se tinham já passado desde a sua morte, ocorrida numa idade em que ele muito teria ainda a dar à sua terra. Quarenta anos, meu Deus, e no entanto parecia ter sido ontem! O enigma do tempo parece simplificar-se com uma evidência desarmante quando o coração entra nas contas do seu distanciamento ou da sua proximidade. Por isso é que os acontecimentos da nossa vida ou são olvidados ou são recordados com intensidade variável, tudo dependendo do interesse ou da afeição que lhes dedicámos. Para pessoas da minha geração, a imagem de Teodoro Gomes paira ainda bem luminosa no nosso espírito, mas para as gerações mais novas, a referência, se ela existe ou existiu, será provavelmente tão longínqua no tempo como negligenciável.

 

É mais para as actuais gerações, que não conheceram Teodoro Gomes ou nunca dele ouviram falar, que resolvi escrever estas linhas. Porque é importante que os jovens conheçam, honrem e exaltem o exemplo deixado pelos homens bons da nossa terra. Sei que há na minha família quem, por maior proximidade etária, como o meu tio Carlos Soulé, poderá pronunciar-se de forma mais circunstanciada e concisa sobre os factos da vida de Teodoro Gomes. Todavia, conheci-o bem e privei com ele, e assim preservo e cultivo a minha própria memória, que, sem ser um repositório exaustivo de conhecimentos, consegue, pelo menos, a virtude de uma síntese em que a recordação se transcende pela sublimação das mais indeléveis impressões.

 

Não sei se já foi feito um estudo sobre os contingentes de rapazes de várias gerações que ali aprenderam bons ofícios e prosseguiram as suas vidas com êxito profissional nas oficinas da Ford, da Renault, da Citroen e outras marcas, não só em Cabo Verde como noutras colónias portuguesas e mesmo no estrangeiro. E quantos não embarcaram, em S. Vicente ou na Holanda, a bordo de navios de várias nacionalidades, graças aos conhecimentos de mecânica adquiridos na Oficina da Pontinha!?

 

A história da Escola de Artes e Ofícios coincide quase por inteiro com a do seu mestre, tanto que ela não lhe sobreviveu muito tempo. Se bem que se deva dizer que a instituição do ensino técnico formal marcaria mais tarde ou mais cedo o fim da Escola da Pontinha, como em certa medida terá acontecido, é também inegável que só Teodoro Gomes conseguiu ser a peça que encaixava perfeita e harmoniosamente naquele sistema prático de ensino de formação profissional. Dir-se-á que se for forjada uma medalha comemorativa desse empreendimento – e porque não? – numa face estará o desenho estilizado da fachada da escola e na outra a efígie do seu saudoso mestre.

 

Nos tempos actuais, consome-se tempo imenso com estudos, debates e ensaios sobre programas de ensino, orientações curriculares e métodos pedagógicos, cujos resultados nem sempre espelham os investimentos feitos em educadores e educandos e em instalações e equipamentos. A antiga Escola de Artes e Ofícios foi um exemplo profícuo do muito que se consegue realizar com pouco quando o investimento mais precioso é o homem com todo seu potencial de saber, dedicação, generosidade e altruísmo. E, neste caso em apreço, esse homem foi Teodoro Gomes, um homem por quem os seus antigos formandos, a maior parte já no outono da vida, devem hoje sentir uma profunda e nunca retribuível gratidão.  

 

Teodoro Gomes era indiscutivelmente um homem de inteligência superior, extraordinariamente vocacionado para a mecânica e todas as suas disciplinas estruturantes. Sem formação académica para além da antiga instrução primária, iniciou-se como aprendiz nas antigas oficinas inglesas, onde viria a colher o benefício do rigor profissional e da disciplina e metodologia de trabalho que o inglês normalmente impõe às suas actividades.

 

Mas se ele era um sobredotado, como tenho a certeza de que era efectivamente, não surpreende que em pouco tempo tenha causado viva impressão aos seus mestres e formadores e sobrepujado largamente os níveis de conhecimento e os padrões de desempenho normais para as circunstâncias. Por isso, também não deve ter surpreendido a sua nomeação, ainda jovem, para o cargo de mestre da Escola de Artes e Ofícios, onde sempre o conheci desde a minha meninice e onde permaneceu até ao fim da sua vida.

 

Acresce registar ainda que Teodoro Gomes era um homem de grande curiosidade intelectual, um leitor assíduo e um estudioso interessado na área específica da sua profissão. Lembro-me bem dos livros de ficção de escritores estrangeiros então em voga que ele me emprestava quando eu, já um rapazola, ia visitá-lo à sua casa no Mato Inglês. O seu saber era multifacetado e não foram poucas as manifestações da sua criatividade no âmbito da mecânica automóvel ou de equipamentos diferentes, como o sistema eólico que montou na sua casa no Mato Inglês para o auto-abastecimento de energia eléctrica. Quem com ele privou deve recordar-se da infalibilidade dos seus diagnósticos mecânicos e do seu contributo para a resolução de delicados problemas de manutenção de equipamentos públicos quando falhava o reabastecimento de sobressalentes.

 

Seguramente que Teodoro Gomes teria atingido altos cumes do conhecimento teórico em engenharia mecânica se tivesse tido a oportunidade de um percurso universitário.

 

Menino ou adolescente, sempre que, a caminho da Lajinha ou da Matiota, passava pela Pontinha, não resistia a ir “salvá-lo”. Por um lado, sentia uma irresistível atracção por aquele mundo da mecânica, por outro, ficava com remorsos quando não lhe aparecia. Escuso dizer que quando o tio Cunco pressentia a minha presença à porta da Oficina interrompia o que estava a fazer e vinha logo ter comigo com um sorriso simpático e acolhedor. Aliás, era assim com toda a gente, homem de uma grande bonomia e afabilidade, por norma extrovertido e alegre. Recordo-me com toda a clareza da última vez em que por lá passei, eu um rapazinho já bem espigado. Foi quando ocorreu um infausto acidente de pesca submarina e pereceram no mar dois elementos que faziam parte de um grupo afecto a essa modalidade desportiva liderado pelo Zizim Figueira. Comentei o assunto com ele e lembro-me destas suas palavras como se fosse hoje: “eles foram de facto um bocado ousados. Se Deus quisesse que dominássemos o mar não nos teria dado barbatanas naturais...?”

 

Não me recordo se depois disso voltei a fazer-lhe mais uma das minhas inopinadas visitas, mas provavelmente não. É que pouco tempo depois ele seguiria, mais uma vez, para Portugal, para tratar da saúde, e quis o destino que nunca mais voltasse, vitimado pela doença que o vinha debilitando gradualmente.

 

Ao longo da sua vida, sempre visitou regularmente os meus pais e datam dessas ocasiões a minha lembrança do corolário humorístico das muitas histórias com que nos deliciava. Certa vez, regressado do primeiro tratamento no sanatório do Caramulo, ria-se perdidamente a contar os episódios das escapadelas nocturnas que às vezes dava com outro internado, só para fruírem o prazer de ir beber tranquilamente uma cervejinha num bar próximo e quebrar a rotina do internamento. Outra vez contou que, em pleno Inverno em Portugal, o que mais apreciava era comprar castanhas assadas num daqueles fogareiros ambulantes. Não propriamente para degustar as castanhas, mas tão-somente para sentir o efeito irradiador do seu calor nos dois bolsos do sobretudo para onde logo enfiava aqueles frutos. Era sempre imprevisível o desfecho hilariante das suas histórias.

 

Mas também Teodoro Gomes era homem de princípios e convicções, em nome dos quais não cedia, e chegava mesmo a ser de uma veemência acutilante quando afrontado sem fundamento ou sem razão. Não levava desaforo para casa, como se costuma dizer.

 

Falar dele é também falar do seu humanismo, da sua generosidade e do seu sentido de solidariedade familiar, é falar de um parente tão afectivamente comprometido com todo o seu clã familiar e sempre disponível a ajudar, dentro das suas possibilidades, quem estivesse em dificuldades. 

 

Foto Gentileza de Fonseca Soares, 23.Março.2013

 

Hoje, sei que há no Mindelo uma rua que recebeu o nome de Teodoro Gomes e que o consagrará para sempre no imaginário de todos os mindelenses. Falta agora elevar a antiga Escola de Artes e Ofícios à condição de museu das actividades que desenvolvia. Não dispomos de uma abundância de motivos museológicos que permita negligenciar uma medida desta natureza. Crie-se, pois, o museu! Um museu que transmita à posteridade o testemunho de artes e ofícios que foram de importância vital para a actividade do Porto Grande e da urbe. Um museu que perpetue a memória de uma solução pragmática e bem sucedida para muitas saídas profissionais. Um museu que configure simultaneamente mais um preito de homenagem a esse cidadão exemplar, impagável e inesquecível que foi Teodoro Gomes. Fique o recado para a senhora Presidente da Câmara. A tarde de crepúsculo já se vestia de cores mais escuras quando cessou a torrente das minhas recordações frente à ex-Escola de Artes e Ofícios. Concluí então que a imortalidade não será tanto um desejo como uma consequência. E que nada se apaga enquanto uma luz cintilar na ausência.

 

Tomar, Portugal, 2005

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Comentar:

De
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.
Comentário
Máximo de 4300 caracteres

O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

subscrever feeds

Powered by