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Olî Cavala Freeesc!

Brito-Semedo, 19 Jul 13

 

 

 - Para o Amigo e Blogueiro Djack de Captania

 

A Rua da Praia que, no dizer de Joaquim Saial, é “o coração mais genuíno da cidade do Mindelo”, já foi sítio de catraeiros, de lojas de aprestos marítimos, de vendedeiras de fruta e legumes, de botequins típicos com cheiro a grogue, a peixe frito e a tabaco (cigarro smart, negrita e falcão, tabaco de mascar, de cheirar e mesmo sirê), pescadores e seus botes, plurim d'pêxe, contrabandos vários, patifes de navalha afiada e também muita gente boa.

 

A Rua da Praia, a praia da cidade – onde, de facto, ninguém nada ou faz praia – começa na Marina/Pont d’Água e acaba na Réplica da Torre de Belém ou, baralhando os tempos e as toponímias, a Rua da Praia de Bote começa na ponta do Cais da Alfândega e acaba na Capitania, ou ao contrário, começa na ponta da Capitania e acaba no Cais da Alfândega.

 

“A Praia de Bote sempre me fascinou com suas estórias e suas riolinhas. Passava ali devagarinho, para poder desfrutar do que contavam, imaginando os factos, no espaço e no tempo, como se fosse eu o protagonista porque assim tinha mais piada”. Gostava de ter podido expressar o meu sentir desta forma bonita, mas o escrito é de um outro mnine de Tchã de Cemitêr, mais velho que eu, Valdemar Pereira ou Val de Nhô Hermínio de Telegraph.

 

Neste fim-de-tarde ou de boquinha-da-noite (meu tempo de escrita) transfiro-me para esse local, para uma das mesas da Pracinha do Pescador, ao lado da estátua de Diogo Afonso, o navegador português descobridor da ilha, e convido-vos a recuar à origem das coisas, à minha mninénsa, melhor, aos anos 50/60, vivendo eu na Chã de Cemitério, portanto, nas imediações da Praça Estrela, do quintalão da Millers & Coris, do Matadouro, do Pelourinho de Peixe e da Praia de Bote, gostava de frequentar essas bandas onde me sentia mais livre para fazer traquinices.

 

Praia d'Bote, Aguarela de Hamilton Silva, Julho, 2012
 

Guardo desse tempo a memória dos comeres, cheiros & sabores lá de casa, os que, com pouco dinheiro e muito engenho criativo, a Mãi Liza – que Deus a tenha na Sua Glória – fazia de peixe, principalmente a cavala[1], mais regular no mercado e mais acessível a qualquer filho-de-pobréza. Ele era caldo-de-peixe, ele era cachupa servida com cavala (cozida ou frita), ele era cavala frita ou de cebolada, comido no pão ou a acompanhar a cachupa-refogada-de-pela-manhã, arroz branco ou “pintado” com fava ou ervilha (este, o meu prato preferido), ele era peixe seco, cozido ou simplesmente assado na brasa.

 

Regressado para viver em S. Vicente depois de 37 anos, a senhoria do meu apartamento, uma amiga desse tempo de diazá, deixou-me guardado em casa um quite com coisas básicas para quem chega de viagem e à noite. Dentre esses produtos e para minha admiração, uma embalagem de cavala fumada, produção da indústria local.

 

Depois de muito tempo tinha, finalmente, chegado a casa. As boas-vindas a SonCent não poderiam ser melhores, com os cheiros & sabores da minha mninénsa!

 

 

- Manuel Brito-Semedo

 

[1]Apesar de vulgarmente ser designado simplesmente por cavala, existem, de facto, duas espécies distintas em Cabo Verde: a Cavala Preta – Decapterus macarellus – e a Cavala Branca – Decapterus punctatus – sendo aquela a mais abundante. A cavala preta é uma espécie insular, podendo ser encontrada no Atlântico nas ilhas de Cabo Verde, Açores, Madeira, Santa Helena e Ascensão, no Mediterrâneo, entre Camarões e a Nigéria. A desova acontece nos períodos mais quentes do ano (Maio a Novembro).

 

 

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1 comentário

De Hamilton Silva a 28.06.2013 às 03:43

Sim BS, anos 50-60... tempo sabe. Fizeste-me lembrar com este belo texto, muita coisa dessa epoca. Eu estava sempre nessa localidade, pois o meu avo Ferrinho morava  a uns metros da capitania e aos domingos almocava com ele, para depois acompanha-lo a Fontinha para os jogos do "Mica" que ele tanto gostava....
Abraco 

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