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A Matriz do Crioulo

Brito-Semedo, 4 Dez 13

Miguel Levy, "O sopro da forma", aguarela, 2009

 
Estando a acompanhar o trabalho do amigo Moçambicano José Mucangana, ex-colega liceal do meu irmão Viriato, no Liceu Salazar, em Lourenço Marques, actual Maputo, Subsídios para a cabo-verdianidade, que proximamente será publicado no "Artiletra", e posteriormente em livro, subsídios que, estou convencido, irão sacudir algo da história da nossa origem, da invenção do crioulo e do nosso contributo na sua difusão, lembrei-me dos termos que reuni dos romances de Aquilino Ribeiro que nos elucida sobre a matriz do nosso crioulo, pelo que decidi publicar esses vocábulos. Dedico o artigo à Liga Cabo-verdiana dos Amigos da Língua Portuguesa, recentemente constituída ou em vias de o ser.

 

Como admirador do escritor Aquilino Ribeiro, já li a maioria dos seus romances. Não pretendo, com estas linhas, fazer a crítica da sua imensa obra, do seu génio literário e erudição por me faltar competência para tal. Interessa-me particularmente o seu domínio da língua e a utilização de vocábulos que raramente se usam na linguagem oral e escrita actual, mas que encontramos na sua Beira Alta, e com muita frequência, por vezes alterados, no nosso crioulo. Homem de cultura, foi seminarista, professor em Portugal e em França, com um domínio do latim, bem digerido no seminário, que lhe permite entreter-se com a valorização de expressões populares da sua terra natal e a inventar neologismos.

 

Há já algum tempo que venho colecionando termos, dos seus romances, pouco utilizados no Português actual, mas banais no Português arcaico. Apresento-vos alguns como contributo para a confirmação da matriz do crioulo no Português arcaico (cerca de 95%).

 

Quando frequentei o Liceu Salazar, em Lourenço Marques, na década de cinquenta, o meu professor de Português intrigava-se com o meu domínio da gramática e de vocábulos arcaicos, estes das crónicas de Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Gomes de Azurara e outros, que os colegas desconheciam. Expliquei-lhe que a gramática tinha-a aprendido na instrução primária (com o mestre Almeida Gominho) e na preparação para a admissão ao liceu (com a professora D. Irene Almada), ambos professores formados no famoso Seminário-liceu de S. Nicolau, escola pouco valorizada nos tempos que correm e que nos conferiu diferenciação no contesto colonial português, dada a excelência dos seus professores que formaram clérigos e futuros funcionários públicos com elevada competência, dando característica particular ao nosso país. Estou convencido de que Cabo Verde não seria o que é se não tivesse existido o Seminário-liceu de S. Nicolau. Conhecia os termos do Português Arcaico do crioulo de Cabo Verde.

 

Vamos à coleccção de vocábulos e expressões que encontramos intactos ou modificados no nosso crioulo. Entre parênteses a escrita em crioulo de alguns termos:

 

Pincha, cascos da rolha, carantonha, estramontado, canastros, esgrouviado (esgroviode), em barda, moringue, escarcéu, escaqueirar, dar na veneta, tropicar, maçaroca, engrolar, catrapiscar, cachimónia, passarinha - significando baço - desinçar, inçado (inçode), dar na fraqueira (fraqueza, sentir fome), sacripanta.

 

Catréfia: tinha uma catréfia de filhos. Há o termo crioulo catrefa, usado no Fogo e Brava, com o significado de mulher de costumes duvidosos; tintim por tintim.

 

Mondrongo, significando homem sujo, porco, desleixado, que, muito provavelmente, os primeiros colonos chamavam aos escravos, e estes, por sua vez, teriam retribuído o mimo aos patrões passando a identificá-los como mondrongos, denominação depreciativa, pejorativa, sinónimo de portugueses.
 
Esfandegar (esfandengar – iam-se esfandegando), mormaço (mormanço), cartapácios (catrapásio), desbocar-se, riba dele, pexote, troixa (troxa), tocar berimbau, tropa fandanga, trouxe-mouxe (troxe-moxe), cabras mochas (motcha), bandulho, cascar (cascámos-lhe …), afinfar, agatanhar pelas encostas (gatanhâ), badameco.
 
Sovela (sevela). Quando cheguei à Praia, recém-formado, em 1967, trabalhei durante 9 meses no Hospital da Praia, acoplado ao Dr. José Cohen, médico-cirurgião, o mais qualificado, na altura, na ilha. Como eramos pouquíssimos, ao cabo de algum tempo, o Dr. Cohen passou-me todas as velhotas de estimação da sua consulta para a minha, não tendo estas estranhado, por algumas terem sido doentes do meu pai na juventude. Ainda me coube a Enfermaria de Pediatria e a Maternidade, além da consulta de ginecologia, dada a boa preparação dos médicos formados em Coimbra em obstectricia e ginecologia. Numa dessas consultas de ginecologia apareceu-me uma senhora de Santo Antão que me disse sentir um sevêlada na pê de bêrriga. Essa da sevelada, não a entendi, embora fizesse a consulta em crioulo; examinando a paciente detectei que tinha uma valente anexite, afecção dos anexos ováricos, bastante dolorosa. Depois da consulta fui falar com o Dr. Cohen, que é também Santantonense, e devia conhecer o termo. Riu-se com gosto, informando-me – o que desconhecia – de que sovela era o nome da agulha do sapateiro, e, naturalmente, a descrição da senhora estava correcta para uma anexite dessa gravidade: uma sovelada – uma dor profunda, aguda como se fosse uma agulhada – na base do abdómen.

 

Escrutar, estugar os passos, enlabuzadas (enlambuzadas), apostema (postéma), bufar – soprar, que deve ter dado, no crioulo, bufe, um sopro de localização inferior.

 

Há mais termos, que não retive por ter começado a reuni-los só depois de ter lido alguns livros. Dos que conhecia do crioulo, do Português arcaico dos cronistas referidos, já não me recordo, por não ter conservado as crónicas estudadas no liceu.

 

- Arsénio Fermino de Pina

 

Parede, Novembro de 2013

  

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