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Tenho ouvido varios  cantores interpretar a morna do meu pai, Sergio Frusoni, “Tempe de Caniquinha“, mas não tive ainda o prazer de ouvir uma interpretação que tivesse utilizado na integra a versão original. O mais grave é que por vezes tenho ouvido utilizar palavras que não têm sentido e que não respeitam a rima seguida pelo meu pai. Ter lido no You tube que esta morna foi composta por B.Leza e Sergio Frusoni, deixou-me estupefacto.

 

Devo esclarecer o seguinte: a morna foi escrita e musicada pelo meu pai. Foi pela primeira vez interpretada pelo meu irmão Franco Frusoni no Conjunto Cénico Castilho.

 

Uma parte da letra original encontra-se no livro de Valdemar Pereira O Teatro é uma Paixão a Vida  é uma Emoção, página 178. Completei a letra que tenho de memória de tanto a ouvir cantar em casa. De seguida, a letra original para quem a quizer conhecer:

 

TEMPE DE CANIQUINHA

 

Sanvecente um tempe era sabe

Sanvecente um tempe era ôte côsa

Cónde sês modjêr ta usába

Um lenço e um xales cor de rósa

Um blusa e um conta de coral

 

Cónde na sês bói nacional

Tá mornód tê manchê

Cónde sem confiança nem abuse

Tá servid quel cafê

Ma quel ratchinha de cúscús.

 

Cónde pa nôs Senhóra da Luz

Tinha um grande procisson

Cónde ta colóde Santa Cruz

Ta colóde pa San Jon

Lá na rebêra de Julion

 

Cónde ta cutchide na pilon

Tá cantá na porfia

Cónde ta tchuveba e na porte

Ta vivide que mas sôrte

E que mais aligria.

 

Povo ca ta andá moda agora

Na mei de miséria tcheu de fome

Ta embarcá ta bá  ‘mbóra

Sem um papel, sem um nome,

Moda um lingada de carvon.

 

Era colheita na tchôn

Era vapôr na bahia,

Oh Sanvecente daquês dia

Atê góte de Manê Jon

Tá ingordá na gemáda.

 

Lá pa quês rua de moráda

Era um data de strangêr

Era um vida folgáda

Ciçarône vida airáda

Ta nadába na dnhêr.

 

De nôte sentód na pracinha

M' ta partí gônhe assim…

Pa mim pa bô, pa mim,

Pa mim pa bô, pa mim

Era tempe de caniquinha…

 

- Fernando Frusoni

Genova, 11 de Janeiro de 2014

 

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1 comentário

De Brito-Semedo a 21.01.2014 às 23:08

Do colaborador e Amigo Luiz Silva, a Esquina recebeu a seguinte mensagem:


Tempe de Caniquinha, morna que canta a epopeia dolorosa do povo caboverdiano nos anos quarenta, anos de fome seguidos das emigrações forçadas para Angola e SãoTomé e Príncipe. Uma morna épica que viaja pela tradição cultural, pelos actos de solidariedade humana e pelo tempo áureo do Porto Grande e que também denuncia o seu declínio. Conhecedor profundo da importância da tradição oral em Cabo Verde, Sérgio Frusoni serve-se da morna para exprimir o drama das fomes, das secas e da emigração. Outros compositores virão na esteira de Sérgio Frusoni, como Lela de Maninha ( Soncente di Longe), Jorge Monteiro “Jotamonte”, Abílio Duarte, Amândio Cabral e outros.
 
Tempe de Caniquinha teria sido escrita nos meados dos anos quarenta do século XX e apresentada no Grémio Recreativo Castilho em 1948, pelo conjunto cénico sob a direcção de Valdemar Pereira, que mais tarde viria também a emigrar para o Senegal. A denúncia de Sérgio Frusoni, que colaborou no Grupo Claridoso (1936), com valiosos poemas em língua cabo-verdiana, seria retomada por Osvaldo Alcântara, heterónimo de Baltasar Lopes, com o Cancioneiro de São Tomé, e também por Ovídio Martins, Gabriel Mariano, Terêncio Anahory, Onésimo Silveira e outros.
 
O caminho de São Tomé foi, infelizmente, a única resposta política às secas e fomes cíclicas em Cabo Verde. Ás fomes de 1861 e de 1902 foram dadas a mesma solução, mas, como diria o historiador Sena Barcelos, servia para engrossar as riquezas dos roceiros de São Tomé e Príncipe. Sena Bercelos e o poeta-compositor e homem político cabo-verdiano Eugénio Tavares, defensor da emigração para os Estados Unidos, distinguiram-se nesta luta contra a emigração para São Tomé e Príncipe nos princípios do século XX.
 
Os estatutos do PAIGC, no seu artigo terceiro, datado de 1960, diz: «regresso imediato dos emigrantes caboverdianos das roças de São Tomé e Príncipe». Esta foi a razão da nossa luta e de milhares de emigrantes dispersos pelo Mundo que acreditaram nos ideais de Amílcar Cabral. Mas Cabo Verde é um país independente desde 5 de Julho de 1975 e infelizmente esses emigrantes ali continuam quando havia um engajamento da potência colonial para o seu regresso e indemnização. Trata-se de uma ferida aberta no coração do povo cabo-verdiano que bem sabe que esta questão deve ser tratada com Portugal, potência colonizadora, ou com as Nações Unidas. Sejam quais forem as intenções do governo, a solução é o regresso como prometera o PAIGC e o seu grande leader cabo-verdiano Amílcar Cabral que, aliás, somente assim poderá encontrar paz para a sua alma, lá no mundo onde estiver.
 
E assim, hoje dia 22 de janeiro de 2014, em que festejamos mais uma vez o Senhor São Vicente, esta morna continua actual e a ser cantada em todas as latitudes pelos cabo-verdianos enquanto houver um filho de Cabo Verde nas roças de São Tomé e Príncipe.
 
Honra e glória a Sérgio Frusoni, filho das ilhas sempre lembrado!
Caboverdianamente,
Luiz Silva

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