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Um cabo-verdiano no samba brasileiro: A extraordinária vida de Cabo Roque

Foto: Carnaval na Praça Nova, anos 20
 
 
Muitos anos antes de Pedro Rodrigues ter composto o samba: "São Vicente é um brasilin, Chei di ligria chei di cor, Ness três dia di loucura, Ca ten guerra ê carnaval, Ness morabeza sen igual", um jovem de apenas dezanove anos deixou São Nicolau e apanhou um palhabote rumo a São Vicente. Sem que o soubesse, a rapariga com quem se envolvera nas últimas semana engravidara de uma menina. A ilha de São Vicente preparava-se para festejar o próximo Carnaval. Estava-se em 1922. Nessa época ainda não havia o desfile de carros alegóricos por Mindelo e o Carnaval era bem mais calmo e diferente daquilo que conhecemos hoje. E os sons do Brasil ainda eram coisa rara nas ilhas.
 
O jovem chamava-se Eugénio Pedro Ramos e terá ficado encantado com a quantidade de gente que brincava ao Carnaval pela Pracinha da Igreja e a Praça Nova, e do grande rebuliço com que as gentes desta ilha vivam esta época festiva. Não que não houvesse também festas de Carnaval em São Nicolau.
 
Apesar dos grupos 'Ladeiristas', 'Sanjoanistas' e do 'Grupo de Estância de Braz', da sua ilha natal, não havia comparação com o que encontrou em São Vicente. Percorreu Mindelo para cima e para baixo, pelo meio na pequena multidão, divertindo-se com as brincadeiras apatetadas que grupos de rapazes faziam no meio da rua, incentivados por pessoas que, do alto das varandas, lhes atiravam serpentinas e papelinhos coloridos.
 
Muitas raparigas também participavam nestas brincadeiras. E à noite, Eugénio circulou de festa em festa, até ao amanhecer. Nunca se havia divertido tanto, pensou ao deitar-se, ainda com os sons das vozes e da animação na cabeça.
 
Cinco meses depois, a bordo da escuna baleeira “Bang Wander”, de 3 mastros, comandada por um capitão açoriano, ainda lhe vinha á memória aquele fim-de-semana passado em São Vicente; as moças atiradiças e as suas gargalhadas sonoras que tanto o haviam encantado.  Aquele havia sido até então o melhor fim-de-semana de que se lembrava. Não parava de contar aos outros marinheiros da escuna como eram bonitas e ousadas essas raparigas de São Vicente.
 
Eugénio tornou-se arpoador e nos anos seguintes navegou pelos mares em busca de baleias, até tocar as costas do Brasil. Em 1925, desembarcou na cidade do Recife. Foi conhecer São Salvador da Baía e ficou maravilhado com a vida nas ruas do Pelourinho, e lembrou-se da cidade de Mindelo. Tempos depois, estava ao comando de um eléctrico nas ruas do Rio de Janeiro, como guarda-freio. Mas em 1929, mudou-se para Sul, a cidade costeira de Santos, no Estado de São Paulo, e estabeleceu-se no bairro de Macuco.
 
O jovem crioulo acabou por encontrar trabalho nas docas, como fogueiro em rebocadores do porto de Santos, o mais movimentado do Brasil. Com a chegada da II Guerra Mundial, a costa brasileira começa a ser assolada por barcos e submarinos alemães. Mas alguém tinha que ir buscar o carvão a Santa Catarina, mais a sul, e trazê-lo para Santos.
 
E a vida pacata de Eugénio passa a correr riscos todos os dias. Mas o cabo-verdiano era um jovem intrépido, forte e corajoso. Era frequente alguém ter de mergulhar para safar um cabo preso na hélice da embarcação, e o jovem Eugénio nunca hesitava. A sua coragem e dedicação era amiúde elogiada pelos seus superiores, quer no alto mar, quer nas docas.
 
Mas o cabo-verdiano Eugénio Pedro Ramos, agora conhecido por Cabo Roque, entraria para a história por outros motivos. O Carnaval, que lhe entrara no sangue ainda em Cabo Verde, torná-lo-ia uma das figuras lendárias da cidade.
 
Em 1946, depois de ser ter casado com uma mulata de nome Inês, Eugénio torna-se cabo da primeira escola de samba da cidade, a X – 9, juntamente com a mulher, que passa a ser a madrinha. E é assim que se começa a formar a lenda do Cabo Roque e da Tia Inês, uma dupla que vai marcar o carnaval santista durante décadas, e passando à história como “O Condestável”.
 
Eugénio Pedro Ramos (Cabo Roque), como escreveu um jornalista local, era cabo três vezes: cabo-verdiano por nascimento, cabo fogueiro da marinha mercante por profissão e cabo samba. Juntamente com a Tia Inês, sua mulher, dedicou a vida à escola de samba X- 9, chegando muitas vezes a tirar dinheiro do bolso para levar a escola para a avenida.
 
Cabo Roque (à esquerda) entregando uma distinção da X - 9 a Pelé, em 1969
 
Em 2001, no ‘Notícia do Diário Oficial de Santos’, pode ler-se que “Em 1946, a escola de samba X – 9 foi adotada pelo casal Cabo Roque e Tia Inês, transferindo-se para a Rua Almirante Tamandaré, 94. A pioneira, como é conhecida, não possuía quadra ou sede, e por 30 anos, realizou os ensaios no quintal da casa da Tia Inês. Em 75, a escola mudou-se para a Av. Siqueira Campos, 97 (Quadra Tia Inês), onde permanece até hoje. A X-9 obteve o seu primeiro título em 1947, numa batalha de confete promovida pelos comerciantes da Rua General Câmara. Dentre os concursos extras, oficiais e campeonatos realizados de 1947 a 2000, foi 21 vezes campeã e 23 vezes vice.

 

Um das figuras mais tradicionais da escola é o Cabo Roque, hoje com 97 anos, que faz parte da Velha Guarda, composta por aproximadamente 60 pessoas.”
 
Mas a grande surpresa da já longa vida de Cabo Roque ainda estava para vir. Em 1990, uma senhora mulata de nome Maria Marta, sexagenária, chegou a Santos e percorreu num táxi as ruas do bairro do Macuco em busca de Eugénio Pedro Ramos. Parentes no Rio de Janeiro disseram-lhe que a pessoa que ela procurava já não respondia por aquele nome. O coração acelerou-lhe no peito quando um homem idoso apareceu à porta, com o olhar meio enevoado, dizendo: “Pois não?”
 
Ela ficou em silêncio. “Sabe quem eu sou?”, perguntou depois.
 
Sessenta e seis anos depois de ter deixado a ilha de São Nicolau, a filha que Eugénio nunca chegara a conhecer estava à sua frente, para seu completo espanto e incredulidade. Depois de ter vivido na ilha do Sal, onde casou e teve quatro filhas e dois rapazes, Maria Marta emigrou com a família para Portugal, no início dos anos setenta.
 
Anos depois, quem sabe inspirado pela visita inesperada da filha e o regresso de velhas memórias, Eugénio “Cabo Roque” voltou a fazer a viagem de volta a Cabo Verde, quase oitenta anos depois de ter partido, quem sabe recordando um longínquo Carnaval. Passeou pela ilha de São Nicolau com um misto de felicidade e tristeza, talvez por não encontrar quem pudesse ainda lembrar-se dele. Viu, da estrada, as ruínas do que fora a casa dos seus pais, onde nascera, uma imagem que demorou algum tempo a reunir todos os fragmentos na sua memória. Meses depois, despediu-se na sua velha ilha e regressou ao Brasil, a sua terra adoptiva, onde morreu, aos 99 anos de idade.
 
 
  
NB - Para saber mais sobre a Escola de Samba X-9, ler aqui.
 

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