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António Nunes, o Poeta do Quotidiano

Brito-Semedo, 21 Abr 18

 

António Nunes.jpg

 

 

Nos últimos tempos acontecerá […] e os vossos filhos

e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos

terão visões e os vossos velhos sonharão sonhos.

 

“Actos dos Apóstolos”, 2:17

 

– Apóstolo Pedro, in Bíblia Sagrada

  

– Mamãi!

sonho que, um dia,

estas leiras de terra […],

filhas do nosso esforço,

frutos do nosso suor,

serão nossas.

 

– António Nunes, “Poema de Amanhã”

 

in Certeza, Fôlha da Academia, 1944

  

 

Passou despercebido o centenário de António Nunes (Praia, 9.Dezembro.1917 – Lisboa, 14.Maio.1951), “o poeta do quotidiano crioulo”, assim definido por Jaime de Figueiredo (Praia, 1905 – 1974), outro escritor praiense ilustre praticamente esquecido e que também precisa ser apropriado pela cidade.

                                        

Aproveito este espaço para assinalar essa efeméride e anunciar os 75 anos da publicação da “Certeza, Fôlha da Academia” (São Vicente, Março de 1944), onde António Nunes publicou o seu “Poema de amanhã”, a acontecer no próximo ano.

 

O Poeta António Nunes fixou-se em Lisboa em 1940 onde conviveu com o grupo neo-realista de que fazia parte, entre outros, Manuel da Fonseca, Francisco José Tenreiro e Henrique Teixeira de Sousa, um patrício seu, o que o fez abandonar o seu estilo romântico e integrar a corrente que então surgia.

 

Estava-se no fim da Segunda Guerra Mundial e vivia-se em Cabo Verde a grande crise que viria a dar origem às fomes de 1943 e de 1947. De Lisboa, António Nunes integra a geração da Certeza, com o “Poema de Amanhã”, publicado no número 2 da folha dessa academia (Junho de 1944), considerado por Manuel Ferreira (1975) como “o ideário colectivo do grupo”.

 

Na sua fase ainda romântica António Nunes publicou o livro de poemas Devaneios (1938), que seriam, de facto, meros devaneios ou exercícios poéticos. Na fase posterior, de orientação neo-realista, publicou Poemas de Longe (1945).

 

Pedro da Silveira, poeta açoriano e estudioso da literatura cabo-verdiana, coadjuvado por Francisco José Tenreiro, pensou ainda em reunir todos os poemas de António Nunes da fase modernista. Poemas seria o título do livro e teria a seguinte organização: “iniciação”, com os poemas correspondentes a 1940-1942; “Poemas de Longe”, os aparecidos em caderno impresso sob esta designação; “Versos de Lisboa”, três poemas alheios à cabo-verdianidade; e “Outros Poemas”, contemporâneos ou posteriores ao Poemas de Longe. Contudo, por razões várias, o projecto não se concretizou.

 

Dá título ao livro Poemas de Longe o primeiro poema onde o sujeito poético se declara num espaço definido como um aqui (numa cidade enorme), num tempo presente (agora) e se dirige a um tu, uma entidade feminina que está longe: “na cidade pequenina/ da ilha/ lá ao longe…”

 

O poema chega de longe e evoca recordações distantes: “Acendo um cigarro/ e ponho-me a olhar/ as casas que se elevam pela encosta […]/ o Sol morre numa lagoa de sangue […]/ Entristeço-me”. Os referentes “casas” e “pôr-do-sol” associam-se às experiências passadas do sujeito poético e fazem-no entristecer. O lexema “casa” indexa para lar, constituído de família, enquanto a morte do Sol indica o fim, no caso, de um amor que acabou.

 

O sujeito poético, num acto de cumplicidade com o leitor, explica a razão da sua tristeza falando dos passeios que tinha com a amada pela Praça (aos domingos), do emprego – que era a garantia da realização dos seus sonhos – e dos versos que lhe dedica. Pensa que, devido à publicação dos seus escritos, a que foi a amada, ainda que por escassos momentos, lembrar-se-á dele (“nesta cidade enorme”), imaginando-o “nalgum cinema […] / Talvez nalgum café […]/ Talvez no rio coalhado/ de barcos e de velas […] ”, em companhia feminina “E no íntimo talvez então sinta/ a desolação de continuar/ na cidade pequena/ da ilha/ lá ao longe […] ”.

 

Toda a estruturação de Poemas de Longe obedece a uma lógica, em que o primeiro poema apenas faz a introdução das recordações que estão ligadas entre si em cadeia, como como contas de um rosário e o último anuncia um amanhã de esperança.

 

As recordações, que começam por ser difusas e esbatidas, à medida que se aproximam do tempo da escrita, vão ficando mais focalizadas e trazidas para o primeiro plano.

 

Da evocação da antiga namorada passa para os locais onde estiveram juntos. É o poema “Praça”, cujo lexema música leva à “Morna” que, por sua vez, se associa ao “Baile”, cujo último verso “[…] a noite lá fora […]”, leva ao “Caminho Grande” – “Fidjinho,/ Não fiques nunca, à noite, no caminho grande” – e a “Paisagem” – “Os campos perdem-se/ longe/ tostados pelo Sol/ e ervas daninhas secas […]”.

 

Na segunda parte do livro, o sujeito poético segue outra lógica e evoca pessoas que, de alguma forma, estiveram ligadas a si e ao quotidiano crioulo, mais propriamente dito, ao quotidiano da ilha de Santiago e da cidade da Praia.

 

Identifica-se com “Puxim Mêndi” – menino de Engenho que vai para a cidade da Praia Maria no camião do senhor Júlio, retoma a lembrança da antiga namorada e da sua fuga, em “Moça do Sobrado” – “O moço Poeta que de ti se enamorou um dia/ de repente fugiu como uma sombra” – e imagina-se regressando ao ponto de partida.

 

Na sequência do regresso, segue o “Manú Santo” que correu Mundo mas quer tornar a embarcar. O sujeito poético antevê o futuro em “A Tua Casa” e dirige-se à antiga namorada: “Mas a Vida vincou-te, como vinca a todos…”. Segue-se “Titina” e “Maninho di Nha Noca” que “na ânsia de ver Mundo/ fugiu ainda menino a bordo de um vapor”. Segue “Juca” e, por último, o poema “Terra”, em que o sujeito poético pede para lhe contar “aquela história/ de meus irmãos/ hoje perdidos/ no mundo grande […]”.

 

A fechar, o “Poema de amanhã, é uma esperança-certeza, uma antevisão dum futuro melhor – a independência de Cabo Verde:

 

Mamãi!

sonho que, um dia,

em vez dos campos sem nada,

do êxodo das gentes nos anos de estiagem

deixando terras, deixando enxadas, deixando tudo,

das casas de pedra solta fumegando do alto,

dos meninos espantalhos atirando fundas,

das lágrimas vertidas por aqueles que partem

e dos sonhos, aflorando, quando um barco passa,

dos gritos e maldições, dos ódios e vinganças,

dos braços musculados que se quedam inertes,

dos que estendem as mãos,

dos que olham sem esperança o dia que há-de vir

 

– Mamãi!

sonho que, um dia,

estas leiras de terra que se estendem,

quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,

filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,

serão nossas.

 

E, então,

o barulho das máquinas cortando,

águas correndo por levadas enormes,

plantas a apontar,

trapiches pilando

cheiro de melaço estonteando, quente,

revigorando os sonhos e remoçando as ânsias

novas seivas brotarão da terra dura e seca,

vivificando os sonhos, vivificando as ânsias, vivificando a Vida!...

 

O poema estrutura-se em duas partes, segundo os momentos temporais. Do passado, que se prolonga até ao presente, e do futuro, por antecipação, com recurso a uma prolepse. Os dois momentos são introduzidos pelo vocativo “Mamãi”, assim mesmo, na língua materna, numa identificação com as suas origens.

 

Na primeira parte, o sujeito poético retrata a passividade e a indiferença dos homens de “braços musculados que se quedam inertes,/ dos que estendem as mãos,/ dos que olham sem esperanças o dia que há-de vir”.

 

Na segunda parte, o sujeito poético recorre-se ao desafio da posse da terra – “estas leiras de terra” […]/ filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor/ serão nossas” – como um apelo estimulante à luta por novas realidades na própria terra, sonho de um amanhã que desvela confiantemente: “E então,/ […]/ novas seivas brotando da terra dura e seca,/ vivificando as ânsias, vivificando a Vida!...”.

 

Deste modo, um acontecimento que, no desenvolvimento cronológico da História viria a ter lugar trinta anos mais tarde – a Independência de Cabo Verde – é o sonho-certeza do Poeta visionário António Nunes.

 

Passam-se os anos e o sonho de António Nunes torna-se realidade. Corsino Fortes, Poeta Militante, na manhã de 5 de Julho, anuncia ao seu confrade, num tempo sem espaço, que o dia chegara:

 

Bom dia! António Nunes

 

António! sob o olho do carvão dos séculos

Há sons & aves de solidão

Que ano a ano

Burilam o coração da ilha

Como o dia E o diamante

E do carvão do corpo

E do carvão dos séculos nasce a Estrela da Manhã

 

Aqui! entre as rochas do teu pai

E os vales da tua mãe…

Grávido

o ventre da ilha

Já empurra

A roda do mundo Entre dois pólos

Então

António vem & dança como ovo na praça pública

António vem

Pela casca & gema do primeiro comício

Vem & abraça

O rosto do sol que nasce do poema da vertigem

……………………………..

 

Árvore & Tambor, 1986

 

Estabelecendo uma ponte entre o sonho futuro de António Nunes e o presente da independência por ele anunciado, Fortes fecha e fecha-se no discurso da intertextualidade – “Bom dia! António Nunes”.

 

A saudação ao nascer do Sol (da independência) é, ao menso tempo, um novo desafio à labuta e a novos sonhos.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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3 comentários

De Valdemar Pereira a 09.03.2015 às 12:34

Muito ouvi falar do poeta António Nunes e dos seus poemas mas é a primeira vez que vejo a foto deste caboverdeano ilustre  Pelo menos considero-o um dos nossos porque ali nasceu e ali morreu. Para mim, o facto de não ser negro não é razão para não o considerar meu irmão.

De gabriel henrique sanzovo a 09.04.2015 às 23:20

ola pessoal eu sou gaby tenho 18 anos nao sou um genio em poesia mas a cada palavra que escrevo sinto me conpletamente feliz pq me sinto como se fosse eu mesmo e nao outra pessoa queria a ajuda pra trabalhar profissionalmente com poesia viver de poesia bom aqui abaixo deixo meu contato e um exenplo da minha poesia caso alguem se interesse exenplo: sao coisas plenas que jamais ninguem sabera explicar coisas que apartir de uma letra nos faz chorar ou dizer algo que queremos e sinplesmente  inpulso de  estar conectado com sigo mesmo para entender como sao sinples as coisas da vida como amar ou viver...

De gabriel henrique sanzovo a 09.04.2015 às 23:22

ha esqueci meu contato e 011942340382 bjs pessoal 

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