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B.Léza, O Mito

Brito-Semedo, 6 Dez 18

 

B.Léza1.jpg

Foto Sobral

 

 

Frank de Nha Rosa ou B.Léza, de seu nome próprio Francisco Xavier da Cruz, rapaz de Soncent (São Vicente, 03.12.1905 – 14.06.1958), mais precisamente, mnine do Lombo, sport de cinema, rascon, jovial, músico e boémio, era um apaixonado pela Inglaterra e pelo Brasil e por tudo o que dali vinha.

 

 

B.Léza2.jpg

 

São Vicente

 

Aos 18 anos, Frank de Rosa começa a trabalhar nos Serviços dos Correios e Telégrafos – CTT tendo sido colocado em 1926 na ilha do Fogo como chefe de Estação Telégrafo-Postal. Regressa a São Vicente em 1931 e vive o seu período áureo como compositor musical.

 

Em 1936 é publicada Claridade, revista de arte e letras (Mindelo, 1936-1960) que, no seu  n.º 2 publica no seu frontispício “Vénus”, morna de Xavier da Cruz, tal o prestígio que o seu autor gozava junto de intelectuais como Baltasar Lopes da Silva.

 

No romance Chiquinho (1947), uma das personagens compõe “Eclipse”, que é uma morna de B.Léza, escrita para esse efeito a pedido de Baltasar Lopes, e que veio a se tornar num clássico da música de Cabo Verde.

 

Era B.Léza, nas palavras de Baltasar Lopes da Silva, “um polo de atracção de toda a gente que se interessava pela música popular cabo-verdiana, e com um prestígio enorme”[1].

 

Fogo

 

Em 1926 Francisco Xavier da Cruz é colocado na ilha do Fogo e é quando, juntamente com outros rapazes funda o Clube Floriano onde se organizam récitas, bailes e palestras e estimula a criação de outros grupos recreativos. É por essa altura que, pela primeira vez, B.Léza terá utilizado o célebre ‘meio-tom’ nas suas composições.

 

O Grupo Floriano terá estado na origem de um desfalque e consequente perda de emprego de Frank da Cruz por ter encomendado em Portugal uma mesa de bilhar que pagou com dinheiro da repartição. A intenção era repor o dinheiro, mas a falta é detectada por uma inspecção antes que tivesse podido regularizar as contas.

 

Amigos influentes evitaram que fosse preso e foi transferido para a Praia ficando “internado” algum tempo no hospital acabando por ser demitido em 1931[2].

 

Praia

 

Na Praia, ficou registado para a posteridade uma serenata organizada por B.Léza. Iniciada na rua contígua à Rua Miguel Bombarda, o grupo seguiu em direcção ao Monte-Agarro, descendo a Sá da Bandeira, indo concentrar-se no largo do Palácio onde foram saudados com uma salva de palmas pelo Governador[3]:

 

“Havia ainda pouco tempo, que a luz eléctrica se apagara na via pública. Na cidade da Praia já dormente, reinava um sepulcral silêncio, quebrado apenas por abafados sons de instrumentos a afinar que saíam da casa n.º 44 da rua dr. Miguel Bombarda, cuja porta se achava fechada”, escreve B.Léza. De súbito, a porta entreabriu-se e alguém anunciou com alegria: já temos lua!

 

Os músicos saem para a rua, cada um com o seu instrumento devidamente afinado, e, lentamente, seguem em direcção a Monte-Agarro, em duas filas. “Algum passante que acaso vagueava por esses lados a essa hora tardia da noite, contaria na segunda fila: dois violinos, quatro violões, um cavaquinho e um bandolim”. A primeira fila – cujos componentes o autor não especifica – “parecia guarda avançada de um séquito”. “Enfiou pela rua Sá da Bandeira (actual avenida Amílcar Cabral), levando atrás de si os músicos (…). Em vários pontos, umas luzes pardacentas entrecortaram a luz suave e branda da lua e, por entre elas umas cabeças humanas surgiram escutando a serenata, relata B.Léza.

 

No seu ziguezaguear madrugada afora, o grupo ia arrastando ouvintes curiosos atrás de si e já eram cerca de 30 ao pararem diante do palácio do Governo, ao som de Resposta di Segredo co Mar, de sua autoria. A seguir tocaram Unino. “Terminada que foi esta segunda morna, uma salva de palmas vindas do palácio agradeceu”, escreve B.Léza. (…) No relógio municipal três compassadas badaladas anunciaram as três horas da madrugada (…). Esta serenata, afirma, inspirou-o a escrever as suas reflexões sobre a morna, que incluiu no livro Uma Partícula da Lira Caboverdeana”.

 

Estados Unidos

 

Numa breve estadia nos Estados Unidos em 1931, para onde teria ido com a intenção de gravar um disco, na viagem de regresso a São Vicente, a bordo da escuna Arthur James, B.Léza compõe a morna-tango “Carta d’Alto Mar”.

 

Regressado a Cabo Verde, B.Léza publica Uma Partícula da Lira Caboverdeana (Praia, 1933), reunindo dez mornas, algumas delas do período passado na ilha do Fogo, como “Partida” e “Miss Floriana” e ainda “Segredo co Mar” e “Resposta di Segredo co Mar”.

 

Portugal

 

Em 1940 B.Léza desloca-se a Portugal para participar na Exposição do Mundo Português, liderando um grupo musical que incluiria Tchufe, Hilário e Adolfo Silva. No fim da exposição os companheiros regressaram a Cabo Verde e B.Léza ficou hospitalizado em Lisboa devido a problemas ortopédicos graves vindo a ser operado dois anos mais tarde. É por essa altura que conhece uma enfermeira, Maria Luísa, a mulher com quem viria a casar-se.

 

São desse período as mornas “Terra longe” e “Ondas sagradas do Tejo” e “Hitler" (Hitler câ tâ ganhá guerra, ni nada!”), dedicada ao Primeiro-Ministro do Reino Unido, Sir Winston Churchill, e o texto Razão da Amizade Caboverdiana pela Inglaterra (Rio de Janeiro, 1950), sobre a presença dos ingleses em São Vicente, abordando a sua influência nos hábitos e língua local.

 

Em jeito de remate, B.Léza, que nos anos 1930, era já um compositor consagrado, a partir dos inícios 1950, com a gravação das suas composições em disco, torna-se um mito.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

____________

[1] Baltasar Lopes da Silva, in Michel Laban, Cabo Verde – Encontro com Escritores, I vol., Porto, 1996.

[2] Gláucia Nogueira, Cabo Verde & a Música – Dicionário de Personagens, Lisboa, 2016.

[3] Gláucia Nogueira, O Tempo de B.Léza – Documentos e Memórias, Praia, 2010.

 

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