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Capitães-de-Mar-e-Terra

Brito-Semedo, 12 Abr 18

 

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Homenagem ao Capitão Alberto Pancrácio Lopes pelo seu 93.º aniversário

 

A temática do mar é, em Teixeira de Sousa (Fogo, 1919 – 2006) e em muitos escritores cabo-verdianos, um fascínio e uma obsessão – Ai o mar/ que nos dilata sonhos e nos sufoca desejos! – ou não seriam eles ilhéus com o mar à volta. Foi assim em Contra Mar e Vento (1972), foi assim em O ilhéu de contenda (1978), foi também assim em Capitão de Mar e Terra (1984) e foi assim em Oh Mar das Túrbidas Vagas (2005).

 

Literatura Marítima

 

A dedicatória do Contra Mar e Vento é em memória do Pai e de todos os capitães-das-ilhas:

 

“À memória do Capitão John, meu Pai – capitão que foi de veleiro e sabia protestar contra mar e vento e contra quem de direito e pertencer possa”.

 

“Contra Mar e Vento”, o conto que dá  título à colectânea, é a estória do Capitão Fortunato e do veleiro Ema Helena que, saindo do cais de Providence, Estados Unidos da América, faz a viagem de regresso a Cabo Verde.

 

Para o leitor não iniciado nessas lides, a viagem é um curso de marinhagem com a descrição das partes e dos instrumentos do navio, proa, popa, bombordo, estibordo, polaca, escota, traquete, velas, pau de bujarrona, dos procedimentos e das rotinas dos homens do mar.

 

Durante a viagem o vento forte rasga a vela grande, o mastro parte-se e o navio mete água. Não há condições para prosseguir viagem e é o naufrágio. A tripulação é salva por um cargueiro grego e a estória oficial que fica registada é falsa.

 

O ilhéu de contenda dá a conhecer que, afinal, o Capitão Fortunato não foi vencido pela adversidade; lutou contra ela e acabou por conseguir vencer, comprando outro navio, o Ema Helena II.

 

“Ema Helena II balouçava no ancoradouro ao ritmo da calema, os mastros saracoteando como dois rabos de animal enxotando as moscas. O mar era um dorso enorme ondulando ao sabor da corrente, nessa manhã de grande azáfama no porto da Fonte da Vila” (pág. 186).

 

Capitão de Mar e Terra é a estória de Nhô Alfredo Araújo, um velho capitão de longo curso que sem dar conta da sua inutilidade, desenvolve uma luta que acaba em naufrágio. “Naufrágio em terra do veleiro que vinha construindo, desmantelado pela forte ventania. Naufrágio, afinal, dele próprio, esgotadas todas as possibilidades de levar por diante o último sonho da sua vida”.

 

História Trágico-marítima

 

O Mar!

saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,

histórias da baleia que uma vez virou a canoa…

de bebedeiras, de rixas, de mulheres,

nos portos estrangeiros...

 

– “Poema do Mar”, in Jorge Barbosa, 1941

 

Cabo Verde com uma história marítima de diazá na munde, com viagens de cabotagem entre as ilhas, dos faluchos e dos veleiros, viagens de longo curso para as Américas, para África e para a Europa, com estórias de naufrágios, de moias, afundamentos de barcos, mesmo dentro da Baía do Porto Grande, durante a Segunda Guerra Mundial, não tem praticamente nada que ateste isso, nem historiografia, nem artefactos.

 

A cidade-porto do Mindelo, que foi entreposto de carvão e do cabo submarino ligando a Europa à América do Sul, não tem um Museu da Cidade ou um Museu da História Marítima que perpetue essas memórias.

 

Por simples abandono ou em nome do progresso, desapareceu tudo, cais de madeira e de alvenaria, lanchas, edifícios, armazéns, gruas, máquinas, vagões, âncoras, hélices… Estes, vendidos por bagatela como sucata e mandados para fora.

 

Nada ficou desse período, a não ser ratrotes da Foto Melo, Foto Progresso, Foto Silvestre Rocha e Foto Djibla, na posse dos familiares, sabe-se lá em que estado de conservação.

 

Teixeira de Sousa, no seu romance Capitão de Mar e Terra (1984), insurge-se contra tal estado de coisa pela voz da personagem Walter:

 

"– Pois eu penso que nos esquecemos de nós próprios em Cabo Verde.

 

– Quero dizer que só Gago Coutinho e Sacadura Cabral têm nesta ilha dois monumentos evocativos das suas façanhas. Não há em Cabo Verde uma lápide a evocar alguém, por exemplo, da nossa história trágico-marítima.

 

– É por isso que estou interessado nos depoimentos dos nossos velhos marinheiros" (pág. 261).

 

Dondê esses velhos marinheiros? Ainda existem? E quem, de canhenho em punho, está a fazer esses registos?

 

"– Pois eu penso que nos esquecemos de nós próprios em Cabo Verde”.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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1 comentário

De Manuel Oliveira a 19.04.2018 às 14:07

Ainda bem que existe, Brito-Semedo, para nos ir lembrando da nossa história e, também das nossas estórias, hoje bem esquecida(s) por nós. As nossas escolas não se preocupam com isso.
Dos nossos faluchos (nossos pequenos e saudosos paquetes) me lembro do Paul (não me lembro onde acabou seus dias) Ponta de Sol, que se afundou ao largo da Pontinha de Jnela, S. Vicente e, outros mais, que tanto serviram as gentes das nossas Ilhas.
Um muito obrigado por isso.

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