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Com o mar por meio

Brito-Semedo, 2 Fev 18

 

 

Com o mar por meio.jpg

Homenagem a Nho Ni, Capitão do navio Maguy

  

Sendo nós, gente das ilhas, habituámo-nos com o escrever, o enviar e o receber de cartas, das ilhas e da terra-longe, com os “rumores da emigração, / nos carimbos postais / em dias de malas…”.

 

Em 1956 o Poeta Jorge Barbosa não se coibiu em publicar cartas/poemas para serem lidas no Brasil pelos escritores Manuel Bandeira, Gilberto Freyre e Ribeiro Couto (cf. Caderno de um Ilhéu).

 

– Seló… Seló!...

 

O Falucho faz hoje de correio aventurando-se em mar largo numa viagem de longo curso para fazer a entrega de umas cartas de longe escritas entre 1992 e 1998, trocadas entre dois grandes nomes da língua portuguesa, Jorge Amado (Brasil) e José Saramago (Portugal).

 

“Desta ilha de Lanzarote, com o mar por meio, mas com braços tão longos que alcançam a Bahia, nós, e os que mais cá estão, parentes e amigos, admiradores todos, vos enviamos muito saudar e votos valentes contra as coisas negativas da vida” – José Saramago, 24.Dez.1994

 

Esta é uma das várias correspondências trocadas entre Jorge Amado (Brasil, 1912 – 2001), Prémio Camões em 1994, e José Saramago (Portugal, 1922 – 2010), Prémio Camões em 1995 e Nobel da Literatura em 1998, publicadas em livro em Novembro de 2017 com o título Com o mar por meio, Uma amizade em cartas Jorge Amado e José Saramago, que nos faz estar na Bahia com Jorge Amado, em Lanzarote com José Saramago ou até em Paris com ambos. Sempre na companhia de Zélia e Pilar.

 

 

Amado & Saramago 3.jpg

 

A organização e selecção dessa correspondência, feita por Paloma Jorge Amado, da Fundação Casa de Jorge Amado, e Ricardo Viel, da Fundação José Saramago, só foi possível por Jorge Amado ter sido um "homem muito disciplinado e organizado, qualidades exacerbadas pelos anos de militância comunista", que, com "o advento das copiadoras", passou a reproduzir as cartas enviadas, conta a filha do brasileiro, na introdução do livro.

 

São cartas, bilhetes, cartões e faxes com uma rica troca de ideias sobre questões da vida íntima, da conjuntura contemporânea, sobretudo a cena literária. Debatem sobre prémios e associações de escritores, com especulações divertidas sobre quem seria, por exemplo, o próximo a ser contemplado com o Nobel ou o Camões.

 

São 120 páginas de um livro primoroso, em tamanho pouco mais que A 5, contendo textos, fac-símiles e fotos raras, com um projecto gráfico especial, todo ele em tom azul marinho, que atesta a amizade desenvolvida por esses dois escritores.

 

A Fundação Casa de Jorge Amado, criada em 1986, é detentora de um acervo de cerca de 250 mil documentos, de que 70 mil são cartas trocadas entre Jorge Amado e alguns escritores importantes do nosso tempo, como Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Ferreira de Castro, João Ubaldo Ribeiro, Érico Veríssimo e José Saramago.

 

Com o mar por meio, Uma amizade em cartas Jorge Amado e José Saramago é o primeiro de um projecto de livros de igual teor a ser publicado proximamente.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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