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Com quase quatro anos de existência – estando a completar dois como Magazine Cultural Online (18.Outubro.2011 – 18.Outubro.2013) – a Esquina do Tempo é hoje um projecto credível com um repositório de álbuns de selos, fotografias e pinturas e de textos dos mais variados, desde ensaios, apresentações de livros, crónicas e postais à apresentação de figuras Mindelenses, todos eles procurando registar e conservar as memórias da ilha-cidade do Mindelo.

 

Para assinalar o Dia Nacional da Cultura a 18 de Outubro de 2011, o Na Esquina do Tempo homenageou o seu Patrono, o Jornalista e Escritor Eugénio Tavares (Brava, 18.Outubro.1867 – 01.Junho.1930), deixando de ser um simples blogue e um espaço pessoal para se abrir a novas colaborações e participações.
 
Era chegada a hora de o Na Esquina do Tempo – a partir de uma dada altura, simplesmente Esquina do Tempo – potencializar as suas conquistas e congregar todas as sinergias, transformando-se num Magazine Cultural Online, que é, como quem diz, numa publicação periódica diária, abordando temas dos mais diversos no âmbito da Cultura – da literatura à gastronomia, da história à música, do cinema à fotografia, da pintura às questões da língua materna – proporcionando reuniões informais de pessoas com interesses comuns para conversar, conviver e debater ideias.

 

No seu percurso, a Esquina do Tempo – Magazine Cultural Online soube conquistar colaboradores que, com o seu espólio pessoal em fotos, memórias ou outros, vão enriquecendo a divulgação da cultura caboverdiana.

 

Para assinalar o Dia Nacional da Cultura, a Esquina do Tempo contava poder apresentar hoje o resultado dessa sua experiência com uma publicação em papel, Esquina do Tempo – Crónicas de Mindelo, fazendo o caminho inverso ao da obra Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá, que viria a dar origem ao blogue.

 

Enquanto se espera pelas Crónicas de Mindelo – Uma Homenagem à Cidade e às Gentes da Ilha do Porto Grande – previsto para Dezembro, edita-se, em jeito de pré-publicação, a Capa, das Edições Ponto & Vírgula, e o Prefácio, do Escritor Germano Almeida.    B-S

 

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Brito-Semedo honrou-me com o convite para escrever um prefácio para o volume de Crónicas de Mindelo, publicadas no seu blogue Esquina do Tempo. Aceitei por amizade (impossível dizer “não” ao sempre amável Brito-Semedo!), mas também porque tal me permite juntar-me à plêiade de autores que escrevem sobre Mindelo, e através dos seus textos dizem todos como esta cidade é amada.

 

Li os textos, todos eles, com interesse e divertido alvoroço. É que não sou um militante apaixonado da net, uso-a para ler alguns jornais, uma ou outra pesquisa, mas isso se redondamente não encontro material em papel. Blogues, então, rara ou praticamente nunca me lembro de os frequentar.

 

Mas depois de ler as crónicas estou aqui, apreensivo diante do ecrã em branco, sem saber como começar o tal prefácio. Porque, confesso, quando aceitei a proposta, tive um secreto pensamento vingativo: Brito-Semedo está a dar-me trabalho, pensa que não tenho que fazer, mas d’abuso vou escrever-lhe um texto maldoso, tipo dizer não ter encontrado nada de jeito no conjunto da obra.

 

Qual nada! Impossível dizer semelhante tontice! A começar pelo próprio Brito-Semedo. Que ele tem humor, eu já sabia. Que tivesse humor para usar, dar e vender, é que completamente ignorava. E ainda por cima escreve bem, caramba!, escreve muito bem, proporcionando-nos uma fascinante penetração na vidinha de Mindelo, fazendo-nos viver no meio dessa gente alegre e festiva, de palavra fácil e comidas inventadas.

 

Com Brito-Semedo, percorremos alegremente as ruas e becos da cidade, encontramos pessoas, conhecemos pessoas, ficamos a saber não só de estórias das gentes do Mindelo como também da própria história da cidade, que ele recolhe de outros autores. Compreende-se assim que, quando a mãe Xanda lhe pergunta “Lela, este livro é a estória da minha vida?”, ele responda singelo “Não, Xanda, é a estória da minha vida, onde eu falo de ti”.

 

E nada é mais verdadeiro: "Memórias Vividas", primeira parte das Crónicas de Mindelo, é a estória da vida de Brito-Semedo contada através do dia-a-dia do Mindelo, infelizmente um Mindelo que a pouco e pouco vai desaparecendo, ao mesmo tempo que teimosamente continua a resistir ao infortúnio de ter sido tão grande no contexto das ilhas, que se acreditou que seria perene.

 

Vou, pois, propositadamente ignorar as apresentações de livros sobre Mindelo, ou os postais do Mindelo, para poder ter tempo para falar um pouco das “Memórias Partilhadas”, saborosamente abertas com uma crónica de Fátima Bettencourt.

 

Mas tenho primeiro que pedir desculpas, será impossível escrever em particular sobre cada autor que participa deste livro, direi apenas que estão todos unidos pelo seu incomensurável amor à cidade do Mindelo, porém não só nisso são admiráveis, são-no também na excelência dos seus textos, ninguém terá coragem de encontrar e pôr porém nesses belos escritos, todos escorreitos, todos de leitura fácil e ao alcance de todos nós.

 

E agora a minha vingança sobre o Brito-Semedo. É que ele não deve saber que a Fátima já é de há muito a minha cronista de eleição, sempre adorei a forma despretensiosa como escreve, como se estivéssemos a ouvi-la discorrer na sua voz graciosa, no tom uma leve sombra irónica que a palavra escrita não afoga. E assim a sinto na primeira parte do “Nocturno de Mindelo”. Brincalhona consigo própria na sua condição de filha segunda, que por isso mesmo adquire o direito de ser rebelde. Porém, o seu verbo endurece rigidamente quando fala da sua Mindelo como “uma filha segunda cujas qualidades não são vistas nem reconhecidas; uma filha segunda que dificilmente estará nas prioridades de quem quer que seja;… uma filha segunda que vai morrendo de inanição enquanto se injecta mais sangue em quem está saturado de glóbulos vermelhos”. 

   

Impossível não se dar conta desse grito que parece antecipar a revolta generalizada. O Poder persiste em ignorar o sentimento perverso que continua envenenando o povo do Mindelo. Um sentimento provocado não já por uma involuntária orfandade, mas antes por o que se considera um propositado abandono. Porque é isso que o povo de S. Vicente sente, que está abandonado pelo Poder desde a independência, mesmo sendo verdade que está abandonado desde há muito mais tempo.

 

Concorde-se ou não com o que se está a fazer nessas ilhas, sabemos já que papel o Sal, a Boa Vista, o Maio, Santiago, até o Fogo e Santo Antão, estão destinados a desempenhar no projecto de desenvolvimento de Cabo Verde. Mas sobre S. Vicente temos apenas ideias vagas, obras aleatórias, não se conhece um plano director, afora essa nova e algo estapafúrdia ideia dos cluster do mar e depois de terra e, ao que parece, também do ar e sabe-se lá que mais lugares.

 

De campo de pastagem, S. Vicente passou a porto carvoeiro. E depois disso, ninguém lhe descobriu até hoje uma nova vocação, mas uma vocação credível que vá para além desse navegar à vista que apenas tem servido para enterrar inumeráveis recursos. Ora é disso que se está à espera, que se estude interessada mas desapaixonadamente e se decida de uma vez por todas o destino de Mindelo e do seu porto. Já foi o pulmão por onde Cabo Verde respirava, mas no presente Mindelo serve para quê? É isso que precisamos saber, e compete aos nossos governantes começarem a pensar como estadistas e obterem as respostas que pedimos para o futuro da cidade e da ilha. Os mindelenses falam muito do passado porque é tudo quanto têm, diz a Fátima Bettencourt. É uma verdade lastimável, mas também é certo que o marasmo da cidade dura há mais de cem anos, sem uma única proposta séria de solução, sem uma única saída à vista.

 

Será, pois, muito bom que, para além do prazer da leitura, estas Crónicas de Mindelo ajudem a uma reflexão geral sobre o futuro da cidade, sobre o destino da ilha. Quem sabe S. Vicente não tem condições de ser uma excelente ilha agrícola.

 

- Germano Almeida

 

Mindelo, Agosto de 2013

 

__________

NB - Esta é, dada a sua importância para o momento, a reedição do post do dia 18.Novembro.2013, Dia Nacional da Cultura.

 

 

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