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1. A modéstia do escritor e jornalista Nuno Rebocho levou-o a justificar, logo nas primeiras páginas do livro, porque se abalançou na abordagem de assuntos e temas que são “naturalmente” reservados aos investigadores da área da História e da Antropologia. Na verdade, as coisas não são bem assim, e ainda bem, porque se se puser de lado as dissertações e teses, elaboradas para obtenção de graus académicos, praticamente não há produção de conhecimento sobre a História ou qualquer outra área das Ciências Sociais. E se a investigação é feita, fica restrita aos meios e às publicações universitárias, praticamente inexistentes, e, portanto, sem chegar ao conhecimento do grande público.

 

Apesar de haver em Cabo Verde dez instituições de Ensino Superior, entre universidades e institutos, continua-se a contar pelos dedos das mãos as pessoas que se dedicam de forma sistemática à investigação e à publicação. Aliás, só se compreende o desmantelamento da equipa de elaboração da “História Geral de Cabo Verde” e a sua absorção pela máquina burocrática do Estado, depois de um forte investimento e de aquisição de um significativo know-how, por uma falta grave de estratégia e de política.

 

Num país como o nosso, com uma história extensa e riquíssima, causa estranheza esta pobreza franciscana na área da investigação e das publicações, daí saudar veementemente o aparecimento deste livro e com esta qualidade.

 

2. O título do livro remete-nos para suas duas ordens de “histórias”: uma história narrada, que é diacrónica, diferida no tempo, dos séculos XVI a XVIII, de Nuno Rebocho; e uma história em documentos fotográficos, sincrónica, actual, do século XXI, de Tó Gomes.

 

Essas duas histórias e essas duas linhas do tempo aproximam-se, encontram-se e sobrepõem-se quando o escriba Nuno Rebocho e o fotógrafo Tó Gomes se juntam na descrição etnográfica da Tabanka de Salineiro.

 

Ao contar com um excelente prefácio de Joaquim Saial, um investigador de História e de História da Arte e escritor, fico com uma margem muito estreita para tecer quaisquer considerações relevantes sobre o livro.

 

O amigo Nuno Rebocho ficou melhor servido com Joaquim Saial como prefaciador e fui como faxôm, compostura, cumbidu, como soi dizer em Santiago, pois “levou-me” com a sua persistência para a apresentação do livro. Encurralou-me, gritei “aqui d’El Rey!” mas, nada. E eu já não tinha mais como escapar. Mas às vezes os amigos “afrontam” os amigos, talvez por isso mesmo, por serem amigos.

 

3. Assim, vou ter de inventar um outro prisma, um outro olhar, espreitar por ele e por outros ângulos para ver o que se vê desse lado, passe a redundância. No caso, identifico três faces para construir esse prisma:

 

FACE A – Santiago de Cabo Vede, um Peão no xadrez político dos jogos de interesse dos Reis (de Portugal, da Espanha e da França), da Rainha (da Inglaterra), do Bispo/Cardeal (de Portugal e de Roma) e dos Cavalos/Corsários (da Inglaterra, da França e da Holanda), séculos XVI, XVII e XVIII, peças fundamentais nos episódios e jogadas históricas de um longo passado nosso, mas tão pouco conhecido;

 

FACE B – Irmandades dos Homens Pretos, século XVII e século XXI, de associações da vizinhança, preservação de identidade, de defesa e de solidariedade;

 

FACE C – Documentos fotográficos (álbum com vinte fotos a preto-e-branco) da Cidade Velha, no seu estado actual de preservação, Património Mundial de Humanidade desde 2009.

 

O livro é composto por cinco ensaios sobre a história da Cidade Velha: “Francis Drake, Ribeira Grande de Santiago e a crise dinástica de 1580”, “Dois séculos de história de corsários”, “A Companhia do Grão-Pará e Maranhão – as companhias pombalinas e o arquipélago de Cabo Verde”, “A Irmandade dos Homens Pretos de Ribeira Grande” e A tabanka, um ritual de Cabo Verde – A tabanka de Salineiro”.

 

E como a perfeição do número sete não foi conseguida, ficaram de fora, por falta de tempo, dois outros temas também aliciantes: “o papel dos judeus e cristãos-novos nas ilhas” e “os jesuítas em Cabo Verde”. Quem sabe ainda Nuno Rebocho volta a eles pela sua importância e pertinência.

 

4. Nuno Rebocho, de dedução em dedução, procurou e achou pistas, consultou e confrontou documentos e apresenta-nos nestes cinco ensaios uma história da Cidade da Ribeira Grande inserida na História de Portugal e da Europa, na História-Mundo, globalizado, com todos os seus jogos de interesse geoestratégico, político e económico, a ela subjacentes, ampliando a nossa visão e levando-nos a estabelecer novas relações e conhecer outras teorias e outras prováveis causas.

 

São as investidas de Francis Drake no contexto da crise dinástica surgida em Portugal em 1580, com o Cardeal-Rei D. Henrique a não reconhecer as pretensões de Prior de Crato, seu sobrinho, ao torno; são as investidas dos corsários a Cabo Verde, sobretudo quando se dá a união da coroa ibérica com Filipe II de Espanha; é a criação das companhias pombalinas com os seus jogos de interesse e do papel decisivo que A Companhia do Grão-Pará e Maranhão teve no tráfico de escravos provenientes da Guiné e, em última instância, na transferência da capital para a vila da Praia; é a conexão temporal existente entre a génese da Irmandade dos Homens Pretos e a da Igreja de Nossa Senhora do Rosário; é ainda a Tabanka de Salineiro, associação mutualista e religiosa que relaciona com a Irmandade dos Homens Pretos, que fixa como tendo surgido no século XVIII.

 

A história é isto mesmo: re-presentar e re-presentificar. A história é o que se passou e a História é o estudo do que se passou. Um H, minúsculo ou maiúsculo dá o tom e faz a diferença. Hoje em dia, a concepção de História é bem aberta. A História não é o passado em si, ela é "as leituras que fazemos dos passados". O filósofo e sociólogo judeu-alemão Walter Benjamin (Berlim, 1892 – 1940), associado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica, dizia que “um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois”.

 

5. O resultado destas histórias (texto e imagem) pela História de Santiago (Cabo Verde) é um livro rico, graficamente muito bem conseguido, um luxo, diria. Com capa dura e sobre capa, em papel couché, com fotografias fantásticas e impressão de qualidade. Parabéns Nuno Rebocho pelos textos, parabéns Tó Gomes pelas fotografias, parabéns Livraria Pedro Cardoso pela edição, parabéns Inês Ramos pelo trabalho esmerado de designer gráfico. O que prova que a complementaridade com vista à qualidade é possível. Elevou-se a fasquia, que agora está lá em cima.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

 

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