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Capa-livro.jpgDescantes da Minha Ribeira é oratória, cântico e vivenciamento.

 

São duas as artes que identificam Kaká Barboza – a música, de que é exímio compositor e instrumentista, e a escrita, enquanto poeta e contista, uma na mão direita, outra na mão esquerda – onde explora a sonoridade e as técnicas de compor e de contar. Neste caso, a arte é um cantar só.

 

Combino o verbo regular da primeira conjugação “descantar” de onde deriva o substantivo/nome do livro [e viva a gramática tradicional de José Maria Relvas e de Tomás de Barros por onde estudamos!]: Eu descanto, tu descantas, ele [Kaká Barboza] descanta…

 

Kaká Barboza é um “descantador”, uma pessoa que descanta, ou seja, alguém que canta ao som de instrumentos musicais – mas que também canta no silêncio da escrita – as estórias e os contos da sua vivência, as suas memórias, a sua ribeira. Daí essas estórias e contos, melhor dizendo, esses “contares”, serem celebrações alegres e festivas, muito embora em notas e tons de crítica.

 

Como homem que se interessa pela etnologia de Cabo Verde, mas sendo natural da ilha de São Vicente, ainda que com larga vivência de Santiago e de Santa Catarina, descobri coisas novas nestes textos de Kaká Barboza, particularmente sobre o casamento tradicional do interior de Santiago, do pós-noite de núpcias, com o descantar e os descantes aqui explicados.

 

“Cantadas ou descantes, acto que acontecia ao amanhecer à porta dos nubentes enquanto estavam ainda na cama (…) protagonizado (…) pelos padrinhos e pela cantadeira (…) que iam ter com os casantes para orar com a intenção de também obter a confirmação de que a noiva era virgem.

 

Para o efeito, entoavam-se historietas cantadas, cantilenas para obrigar os nubentes a levantarem-se da cama (…) e consistia em récitas herdadas das tradições antigas, evidenciando apego e abençãos, crença e desejo de boas venturas, firmadas em contares narrados com ânimo, com paixão e muita graça”.

 

Descantes da Minha Ribeira

 

O livro faz um reconhecimento pessoal e presta homenagem a Rui de Vasconcelos e Camilo Pires Monteiro, ambos naturais da ilha do Fogo e comerciantes estabelecidos em Santa Catarina, donos de ricas bibliotecas, conhecidos pelo seu gosto compulsivo pela leitura, e que se tornaram marcantes pelo seu incentivo aos mais novos com orientação e empréstimo de livros. O autor também presta um reconhecimento a Virgílio Avelino Pires, arauto do conto curto cabo-verdiano,  filho do Secretário da Fazenda em Santa Catarina, na altura. Todos amigos da família e frequentadores da casa de Nhô Bebeto e Dona Maria Barbosa, pais do Kaká.

 

Descantes da Minha Ribeira, Estórias & Contos está estruturado em duas partes, sendo que cada uma delas invoca um escritor cabo-verdiano considerado o cultor por excelência dessa técnica narrativa: Virgílio Avelino Pires (Praia, 1935 – 1985) para o conjunto das estórias (short story) e Manuel Lopes (São Nicolau, 1907 – 2005) para o conjunto dos contos. Modelos e vozes autorizadas para legitimar o estilo seguido pelo autor.

 

A parte das Estórias é aberta com um pequeno trecho de “A Herança”, conto publicado em 1958 no n.º 8 da Revista Claridade, que situa e delimita a “ribeira” do autor, o interior da ilha de Santiago, cujo ponto de fuga é a vila da Assomada, terra muito querida:

 

“Puxim abrangeu com a vista toda a terra boa de Cumbém. Tudo estava verde até Assomada, até Bolanha. Do outro lado, até o Junco, e muito mais para cima, até o monte Pico António”.

 

e a parte dos Contos, traz uma definição desse conceito, retirado de Os Meios Pequenos e a Cultura, publicado nos Açores em 1951:

 

“(…) uma literatura própria imaginamo-la vestida de um estilo peculiar e apoiada em uma experiência vivida…”

 

As Estórias

 

As onze estórias, para além de obedecerem à mesma técnica de short story, tendem a ser, pelo seu conteúdo – espaço, tempo e forma de abordagem – mais crónicas memorialistas e evocativas do que propriamente ficção. Nelas o autor evoca a sua casa em Assomada, a Praça Central da Vila, o tanque da Boa Entrada, o Avô de Pedra Badejo, o cãozinho Vírgula, a casa com a Osga Rosa, a rua onde tudo podia acontecer, o prazer de uma petiscada…

 

Chegado à última estória, “Entre duas vidas”, Kaká Barboza explica a técnica seguida: um texto no máximo de quinhentas palavras a lembrar o poeta Mário Fonseca, “quem me despertou para este tipo de escrita, ao estilo de Edgar Poe [um dos primeiros escritores americanos de contos] ou então Virgílio Pires”.

 

Os Contos

 

A extensão destes contos (muito maiores que as estórias), não é, por si só, um factor distintivo decisivo, se bem que condiciona a sua construção – acção, personagem e tempo – mas distinguem-se, sobretudo, porque se constituem como uma narrativa “vestida de um estilo peculiar e apoiada em uma experiência vivida…”.

 

Castelo Conde, Mãe de criação, Cisma de mãe, O meu amor pela Jóia, O homem de Maria Simoa, Os últimos dias de Olívia, O rapaz de Achada Galego… são nove os contos desta segunda secção, praticamente todas elas sobre mulheres-mãe, fortes, determinadas e lutadoras.

 

Kaká Barboza descanta estórias & contos da sua vivência como forma de “estimular nos mais novos o gosto pela leitura e pela descoberta de como as coisas simples do quotidiano podem constituir motivo de estórias e de contos”.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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