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Livro Manuel Rodriues.jpeg

Sebastião Salgado, um dos fotógrafos brasileiros mais importantes da contemporaneidade (nascido em 1944), defendeu numa entrevista que “Nada no mundo é em branco e preto. Mas o fato de eu transformar toda essa gama de cores em gamas de cinza me permitiam fazer uma abstração total da cor e me concentrar no ponto de interesse que eu tenho na fotografia”.

 

José Pereira, enquanto sobrinho, construiu uma imagem do tio Manuel Rodrigues, eventualmente em branco e preto – engenheiro electrotécnico, desportista e dirigente desportista, professor, empresário – mas que cedo descobriu ser parcial e incompleta.

 

Um compromisso de honra fê-lo pôr-se em campo para completar e revelar o resto da imagem procurando abstrair-se da cor concentrando-se na fotografia do homem integral, o seu ponto de interesse.

 

O fotógrafo ZéPatta trasvestiu-se de entrevistador e pesquisador e, de máquina em punho, depois de muitos “clics” e longas conversas, apresenta agora o resultado desse trabalho.

 

O livro MANUEL RODRIGUES Convicções & Afectos, que agora se dá à estampa, é um retrato puzzle montado com as peças que foram sendo fornecidas pelas pessoas entrevistadas, complementadas com fotografias e confirmadas por um acervo de documentos relevantes para a história pessoal do homenageado e que são extremamente importantes para se perceber o percurso de Cabo Verde.

 

O livro é constituído por (i) uma Nota Introdutória do Coordenador da Obra; (ii) um Prefácio de Leão Lopes; (iii) Depoimentos de 29 individualidades, colocados por ordem alfabética; (iv) uma Galeria de Fotos e jornais de época; e (v) Anexos com o cadastro de Manuel Rodrigues na PIDE/DGS.

 

Manuel Rodrigues, um retrato de ZéPatta

 

Este é um retrato que tem a intenção de representar Manuel Rodrigues de corpo inteiro, como um homem íntegro, corajoso, destemido, pessoa muito humana e generosa e profundamente dedicado à sua terra e à causa da independência de Cabo Verde, ao mesmo tempo que é “o pagamento de uma ‘dívida emocional, uma dívida de amor’, através do qual pretendo honrá‑lo e homenageá‑lo, com a verdade”, escreve José Pereira na página 13 do livro.

 

Enquanto objecto de cultura, o livro é visual e graficamente muito bonito, como já é habitual nos trabalhos de Eneias Rodrigues, a quem aproveito para felicitar. Abro aqui um parêntese para dizer que tenho com o livro novo uma relação muito sensual, idêntica a que tenho com a boa comida. É já um ritual: primeiro aprecio com os olhos (vejo a capa, viro e reviro), levo ao nariz para sentir o cheiro do papel e de tinta fresca, apalpo a lombada, toco as folhas para sentir a textura, examino o índice, folheio, parando aqui e ali, analiso a bibliografia (quando há), volto ao início, faço mental e rapidamente o balanço às finanças – o orçamento é curto ou os livros é que são caros?! – e então decido se levo ou não o livro mas acabo sempre por não resistir ao apelo e estoirar o orçamento. Pois é, esquisitices de um intelectual proletário. Fecho parêntese e volto ao livro MANUEL RODRIGUES Convicções & Afectos.

 

A Capa – Sóbria e de bom gosto, uma pintura de Nilton Lima da Cruz, um jovem talento de São Vicente, de um retrato de Manuel Rodrigues do álbum de família, reproduzida mais à frente.

 

A Nota Introdutória – Um misto de explicação das motivações, estrutura do trabalho, agradecimentos e notas biográficas do homenageado em que o Coordenador abre a sua alma e revela o estado degradante em que vivia – hoje um exemplo de superação – quando do desaparecimento do tio, pessoa amiga e atenciosa que queria que ele escrevesse as coisas e as histórias que lhe ia contando. É também espaço para fazer alguma sistematização dos depoimentos/entrevistas que vêm a seguir.

 

O Prefácio – Um texto evocativo e reflexivo muito bonito numa linguagem leve de um antigo aluno de Manuel Rodrigues na Escola Técnica do Mindelo. O texto e um retrato a lápis feito por Leão Lopes aos 11 anos, a abrir a Galeria de Fotos, dão conta desse apreço e admiração pelo “inesquecível professor” que só voltou a reencontrar anos depois, logo após a independência.

 

“Não me lembro já o que aprendi dele em Matemática, mas sei hoje muito bem o que na altura seria apenas intuição: um homem fascinante que soube despertar‑nos para a nossa idiossincrasia e para a realidade que nos cercava, no contexto do regime colonial português. Abriu‑nos horizontes de pensamento –, até aí adormecidos – nas nossas tenras cabeças de adolescentes em iniciático processo de consciencialização sobre nossa especificidade, sobre nossa identidade” pág. 15.

 

Os Depoimentos – O corpo principal do livro que procura, em 29 entrevistas e ou depoimentos de individualidades, as mais diversas, de familiares a amigos, companheiros e conhecidos, a adversários políticos e ex-dirigentes partidários, colocando questões, procurando encontrar explicação, ou melhor, entender o carácter de Manuel Rodrigues, seu engajamento e percurso político na clandestinidade até à altura da independência.

 

Esta secção acaba por ser polifónica, porque com pluralidade ou multiplicidade de vozes, que, para falar de Manuel Rodrigues, falam de si e do seu percurso de vida reivindicando o papel que desempenharam ou creem ter desempenhado no processo histórico da luta política e da independência de Cabo Verde.

 

São igualmente respigadas nesta secção notas bibliográficas para contextualização e enquadramento, bem como entrevistas e depoimentos com referências a Manuel Rodrigues de vários livros e autores como José Vicente Lopes, Jorge Querido, Pedro Martins, Euclides Fontes, Humberto Cardoso e Cláudio Furtado.

 

De recordar que Manuel Rodrigues nunca fez parte do PAIGC, enquanto partido único, mas viria, no entanto, ser Presidente da UCID (União Cabo‑Verdiana Independente e Democrática). E como a história é escrita e contada pelos vencedores, o seu nome não consta dos anais dos heróis ou dos “melhores filhos da nossa terra”.

 

Existe uma frase, atribuída a George Orwell (1903 – 1950), que a história é escrita pelos vencedores. Pode ser, durante algum tempo, mas nunca é para sempre assim, porque a história é feita de factos e povos, e factos e povos têm a estranha mania de rebrotar, mesmo quando são podados pela força.

 

A Galeria de Fotos – Constituída por Fotos de Família e de Actividades Desportivas, Fotografias das Cerimónias Comemorativas da Independência, na Praia e em São Vicente, e Jornais do Período de Transição até à Independência.

 

Os Anexos – O Cadastro da PIDE/DGS de Manuel Rodrigues do Arquivo Nacional da Torre de Tombo, reproduzido em fac-simile. Eventualmente o documento mais importante aqui inserido, relevante para o processo, que começa no tempo em que foi aluno da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, em 1959.

 

Considerações finais

 

Este livro, como é dito, é “o pagamento de uma ‘dívida emocional, uma dívida de amor’”. E é com essa ideia que fecho a minha apresentação citando uma frase do Apóstolo Paulo na carta aos Romanos, capítulo 13, versículo 8:

 

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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